São Sebastião

Outra noite, na última lua cheia, saí com amigos para um passeio na Urca. O bairro, exclusivamente residencial, construído ao pé do Pão de Açúcar, passou por polêmica recente por conta das transformações que, segundo muitos moradores, iriam descaracterizá-lo como um dos lugares mais tranqüilos e seguros para se morar no Rio de Janeiro. A discussão foi em torno das obras de restauração e adaptação do prédio do antigo Cassino da Urca para abrigar a filial carioca do Instituto Europeu de Design (IED), escola italiana de artes visuais que já existe em São Paulo desde 2005. Quem é contra, teme pelos transtornos que o movimento de centenas de alunos trará ao cotidiano pacato do lugar.

Na cola do IED, que será inaugurado em março, veio a filial de um dos botequins mais freqüentados da cidade, dando início a outra cisão ente os moradores. Dizem que metade da Urca era contra, argumentando que sua tranqüilidade estaria irremediavelmente comprometida se a associação de moradores permitisse tamanha sandice. A outra metade abriu os braços para o despertar da vida boêmia no bairro, adormecida desde 1947, com a proibição pelo presidente Dutra dos jogos de azar no país. Dizem ainda que as solteironas foram as que mais apoiaram a idéia do chope gelado transbordando, junto com os fregueses, das mesas para as calçadas do bar. Ao que a turma conservadora desdenhava, acusando “as velhas assanhadas” de quererem ambiente para arrumar namorado.

Já a nossa intenção era conferir in loco as novidades. A noite estava fresca. O bairro, de casas suntuosas e prédios baixos, mantinha-se mergulhado em silencio de cidade do interior. Só na orla havia movimento, em muito aumentado pela freguesia do novo botequim que veio se juntar aos dois já existentes. Cercada por uma murada de pedras debruçada sobre a Baía de Guanabara, a Urca tem uma paisagem deslumbrante. Mas naquela noite, com a lua imensa despejando luz dourada sobre o mar, estava de perder o fôlego. Depois de jantar, fomos nos sentar na murada. Estávamos embevecidos com a beleza da cidade quando nos demos conta de que fora ali que tudo começou.


Pela entrada da barra, no encontro do oceano com as águas plácidas da Baía de Guanabara, Estácio de Sá chegou há 444 anos para expulsar os franceses. Junto com seus homens, o sobrinho de Mem de Sá acabou de vez com a malograda tentativa de Villegagnon criar a França Antártica no Brasil. E decidiu ele mesmo fundar, onde hoje é a Urca, a cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro. No local, foi erguida uma capela de sapê para abrigar a imagem do santo padroeiro.

Hoje, a estátua do mártir fica na Igreja dos Capuchinhos, na Tijuca, de onde sai todos os anos, no dia 20 de janeiro, em procissão pelas ruas do Centro. O feriado – que não é concedido nem ao 1º de março, dia da fundação da cidade – leva milhares de pessoas a seguir o andor com a imagem do belo jovem seminu amarrado a uma árvore, com o corpo flechado. Por ter escapado com vida da tortura dos romanos, São Sebastião, que era da Guarda Pretoriana e foi acusado de traição por ser cristão, é cultuado em quase toda a América Latina como o santo protetor contra a pestilência, simbolizada pelas flechas.

Na terça-feira passada, foram mais de trinta mil pessoas acompanhar a procissão. Este ano, mais do que nunca, o carioca teve motivos para reunir todo o seu fervor numa prece a São Sebastião. Com certeza foi pedir que o santo iluminasse a nova gestão da administração municipal, fazendo com que o prefeito que acaba de tomar posse não meça esforços para evitar mais uma epidemia de dengue na cidade. No ano passado, a doença matou 106 pessoas no Rio de Janeiro, a maioria crianças.

Que o ex-prefeito leve um tanto desse peso nas costas, e que o novo prefeito traga a esperança de erradicar o mosquito transmissor como um estandarte de seu governo. Para que o verão na cidade volte a ser apenas a época dos chopes gelados à beira mar, e se apague para sempre da nossa memória a cena macabra de pais fechando pequenos caixões infantis.

A melhor solução

Em agosto do ano passado, fui ao Festival de Cinema Brasileiro em Israel com um grupo convidado pela direção do evento. Chegamos a Tel Aviv depois de uma longa viagem com escala em Paris. O receio de todos nós da delegação brasileira, formada por diretores, produtores e atores dos filmes concorrentes, era o trâmite no aeroporto Ben Gurion. Ouvíramos contar as histórias mais cabeludas sobre filas quilométricas, revistas nos mínimos detalhes, interrogatórios massacrantes, e turistas retidos na imigração por muitas horas, às vezes mais de um dia. Por sugestão de um companheiro de viagem, cheguei a tirar do meu note book e jogar no lixo do aeroporto Charles de Gaulle um DVD sobre Jerusalém. Isto porque o filme, com legendas em inglês, era falado em árabe, e poderia comprometer todos nós.

Mas nada aconteceu como esperávamos. A Embaixada do Brasil enviou um funcionário para nos recepcionar desde a saída do avião e, conversando com ele, já a caminho do hotel, soube da ação diligente da nossa representação em Israel para que não houvesse detenções e nem mesmo revistas. Naturalmente que o fator preponderante foi não haver conflito declarado na ocasião. O fato foi sendo esclarecido durante a nossa estadia, na convivência com gente que trabalha no comércio e no turismo. Desta forma, percebi que onde são comuns os interesses econômicos entre israelenses, árabes-israelenses e palestinos, as relações são mantidas no nível da camaradagem. Porém, há uma tensão latente na região, e basta um incidente que possa dar início a um conflito armado para contagiar as relações de todos os tipos.

A reação a essa situação entre os israelenses nunca é ambígua, ao contrário, eles se declaram abertamente de direita ou de esquerda e defendem seus pontos de vista com veemência, e até xingamentos racistas em determinadas circunstâncias. É o que ocorre, por exemplo, entre as torcidas rivais dos times de futebol de direita, o Beitar Jerusalém, e de esquerda, o Poel Tel Aviv. Quando os dois se enfrentam, a violência verbal nos estádios é liberada, e mesmo que a peleja aconteça em uma cidade israelense de população árabe, nem Maomé é poupado, já que há jogadores árabes-israelenses nos dois lados.


De direita e de esquerda é como a opinião pública em Israel se divide entre os que apóiam a repressão aos territórios palestinos e os que são radicalmente contra ela. Os de esquerda, em geral artistas e intelectuais de formação humanista, formaram a grande maioria nas platéias das cinematecas de Haifa, Jerusalém e Tel Aviv, onde o Festival de Cinema Brasileiro acontece há oito anos. Em 2008, o filme “Tropa de elite”, de José Padilha, inaugurou a mostra nas três cidades. Eu compareci às noites de abertura e realizei entrevistas na saída das sessões para as reportagens publicadas na GAZETA MERCANTIL e no Jornal do Brasil. A reação quase unânime do público era de associação imediata entre os territórios palestinos e as favelas do Rio de Janeiro.

A idéia era a de que, lá como cá, existe uma população oprimida pela pobreza e falta de oportunidades, com os jovens sem perspectiva de futuro e sem opções de lazer. São todos moradores de regiões que sofrem a ação de uma organização terrorista ou do crime organizado dentro da própria comunidade, e ambos subjugados pela repressão violenta por parte do aparato policial militar do Estado, que por sua vez não lhes garante as condições mínimas de cidadania. Com algumas reações indignadas quanto à indiferença do nosso governo com a corrupção policial, o público em geral que compareceu aos debates após a exibição do filme firmava posição contrária à ocupação da Cisjordânia e o bloqueio de Gaza.

Imagino como essas pessoas estão se sentindo envergonhadas com a sangrenta ofensiva militar israelense contra a Faixa de Gaza que, até o momento em que escrevo, já matou mais de 100 crianças. São homens, mulheres, jovens e idosos que condenam a violência e reconhecem as injustiças históricas causadas ao povo palestino. Judeus que se declaram a favor de um Estado palestino convivendo com Israel ou um Estado binacional. Gente que ama seu país e por isso optou por viver na terra dos seus antepassados apesar do conflito. Mas gente que acredita, acima de tudo, que o mal não é e jamais será a melhor solução.

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De coração alforriado

Foi uma semana sem internet, justo quando mandei o laptop para uma revisão e os compromissos de fim de ano se amontoaram, com os irmãos e amigos queridos vindos de outros estados para passar as festas no Rio. Esse Rio que nunca decepciona, e recebe todo mundo com tempo bom e programação variada para atender a todos os gostos, principalmente os bons gostos, diga-se de passagem, pois falsa modéstia nunca foi o nosso forte por aqui. De forma que, impossibilitada tecnicamente, não publiquei a crônica de praxe, comentando o ano que passou e fazendo votos de Feliz Ano Novo. No entanto, quero agradecer aos meus poucos, porém fiéis, leitores pelos últimos doze meses de boa vontade, desejando contar com a sua generosidade pelos próximos 365 dias que, acreditem (e aproveitem!), passarão mais depressa do que os anteriores.

Por tudo isso, mais uma vez cumpri o ritual de passagem com tudo o que ele pode proporcionar, do fator psicológico ao emocional, para o bem e para o mal. Desta forma, compareci aos “chopinhos” com os diferentes grupos de amigos, o grupo da última viagem inclusive, fui aos almoços de confraternização de trabalho, às reuniões de família, e até a comemoração de fim de ano dos funcionários do prédio, com direito à feijoada no pratinho de papel. Fui também, como faço de uns anos para cá, à festa de Iemanjá, agora oficialmente comemorada no dia 29 de dezembro, em Copacabana. Festa que já foi a grande atração das noites de réveillon no Rio de Janeiro, mas aos poucos foi sendo empurrada para os cantos da praia, enquanto crescia a afluência para assistir à queima de fogos da meia noite do dia 31. Concentrada em minhas preces, comprei flores brancas em uma das muitas barraquinhas espalhadas ao longo da Avenida Atlântica e as ofereci à Rainha do Mar. Molhei o pé na água fria do Atlântico Sul e lancei às ondas os meus pedidos mais recônditos.

Dois dias depois, preparada para encerrar mais um ano, disposta a não olhar saudosa para trás, voltei à Avenida Atlântica para a noite de réveillon. E foi linda a noite de réveillon em Copacabana. Desta vez, com duas amigas paulistas hospedadas no Hotel Pestana, de frente para o mar, pude acompanhar a festa dede o início.


É mesmo um espetáculo sem igual. Você olha lá de cima, ainda com a luz do dia, e vê a larga faixa de areia branca, quase vazia. Em seguida vai o mar se aprofundando no azul. Parece tudo tão calmo... Aos poucos, enquanto escurece, vão chegando as pessoas vestidas de branco. Vêm também os navios transatlânticos, um a um, se enfileirar diante de nós. Com o relevo desenhado em luzezinhas decorativas, eles ficam ali parados, compondo com outros barcos, de todos os tamanhos e igualmente iluminados, um cenário que, de tão deslumbrante, parece até artificial.

Às nove horas, a praia já está lotada. Um amigo passou para me buscar para irmos juntos a um jantar. Abrimos a primeira garrafa de champanhe. Brindamos os quatro e saímos eu e ele antes da chuva rala que caía apertar. Fomos a passos largos pela Avenida Atlântica por três ou quatro quarteirões, buscando as marquises para nos proteger. Mais gente chegando. A ansiedade festiva no ar. Ambulantes vendendo de tudo na bagunça organizada que costuma ser a tônica desta celebração popular. Uma festa bem família a de Copacabana.

Chegamos sem muito nos molhar a um dos prédios mais tradicionais da beira mar. Um edifício imponente, em estilo neoclássico, batizado com o nome de Presidente Tancredo Neves. Subimos, entramos, cumprimentamos e ceamos. Fomos para a imensa varanda do apartamento assistir à queima de fogos de camarote, com outros oitenta convidados. Lá em baixo, a multidão de branco fervia. Meia noite! O show começou. Foi mais bonito do que nunca, com as balsas mais distantes da orla, permitindo uma visão melhor de qualquer ponto de vista. E havia novidades: contornando a linha da praia, os fogos saindo de dentro da água como chafarizes que desciam em cascatas luminosas se alternaram durante os vinte minutos da queima anual. Foi lindo!


Voltamos encantados. Na saída do prédio eu li outra vez o nome do ex-presidente eleito pelo Colégio Eleitoral, mas que só tomou posse no coração dos brasileiros. Estavam ali brincando e bebendo muitos dos que choraram naquele distante ano de 1985. A morte de Tancredo foi um trauma para a nação. Mas passou, com o tempo tudo passa... No caminho de volta, despedi-me das tristezas do ano que terminou. Vou guardar para sempre a saudade, porém sem traumas e sem dor. E assim, leve e solto, meu coração alforriado foi atrás de um bloco de foliões prematuros que desfilava pela avenida. Fantasiados de anjos, com túnicas brancas e auréolas prateadas, já roucos e trôpegos, eles saudavam o Tempo com a tradicional cantiga: “Adeus ano velho / Feliz Ano Novo!”


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Roberto Carlos Querido

Para mim, este foi o natal mais movimentado dos últimos anos. Começou já na terça-feira, dia 23 de dezembro, com os preparativos para a ceia. Enquanto eu me encarregava das sobremesas, meu filho mais novo assava o peru, que ele mesmo escolheu, comprou, temperou e recheou com farofa de miúdos. É formidável notar como esses programas de “chefs” dos canais de TV a cabo estimulam os homens a ir para a cozinha. Pois meu filho acima de tudo surpreendeu com o resultado; o peru de natal foi o maior sucesso da nossa ceia do dia 24. Mesmo competindo lado a lado com outros pratos típicos desta época do ano que, seja pelas receitas especiais ou pelo capricho com que são preparados, costumam arrancar suspiros dos comensais. E como boa ceia de natal é sempre muito farta, no dia seguinte ainda teve o enterro dos ossos, que durou a tarde toda, entrou pela noite e só acabou quando saiu o último convidado, quase às dez e meia da noite. Aí, eu só tive tempo de tomar um banho e correr para ver o especial de fim de ano do Rei.


Cheguei a tempo de assistir ao melhor do programa: Roberto Carlos e Caetano Veloso esbanjando no palco seu charme irresistível de homens maduros, seguros, bonitos e muito bem tratados. Juntos interpretaram as belíssimas "Debaixo dos caracóis dos seus cabelos", que Roberto Carlos fez em homenagem a Caetano e entregou ao baiano quando foi visitá-lo no exílio, em Londres; e "Força Estranha", que Caetano compôs e deu para o Rei gravar. E ainda teve um tostãozinho de "Teresa da Praia", de Tom Jobim, com o duo afetando uma deliciosa malícia, meio cafajeste e tão carioca. Quanto talento, meu Deus! Como eles cantam bem, e compõem melhor ainda, ou seria o contrário? Tanto faz. Importa mesmo que os dois iluminaram a cena com sua cumplicidade brejeira. E demonstraram um carinho recíproco tão espontâneo e contagiante que, mesmo do lado de cá da tela, me fez sentir afagada...


E assim, quase em transe, lembrei-me de um episódio ocorrido há muitos anos, nesta mesma época, num balcão da antiga Mesbla, no Passeio. As filas dos caixas estavam quilométricas, depois de pagar, o cliente ainda deveria ir a outro balcão pegar as compras e a outro mais se as quisesse embrulhadas para presente. Pois justo na minha vez de ser atendida, chegando ao último estágio do sacrifício consumista natalino, começou a tocar no alto-falante da loja o novo LP do Roberto. A balconista então não teve dúvidas; largou minhas compras sobre as folhas de papel estampadas de Papai Noel, soltou os braços, levantou o rosto, fechou os olhos e, depois de um longo e profundo suspiro, declarou em alto e bom som: “Ah..., Roberto Carlos querido, como eu te amo”.


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Noite Feliz

Eu ontem fui ao cinema assistir a um filme que me tocou imensamente, “O menino do pijama listrado”. Tanto que me fez mudar de idéia quanto ao artigo que iria escrever para marcar a data de hoje, dia do Natal. Trata-se de uma fábula, sobre um dos mais horrendos acontecimentos da história da humanidade, contada com tal delicadeza que leva o espectador a enfrentar, desamparado, a brutalidade das situações apresentadas. O cenário é a Alemanha, em plena Segunda Guerra Mundial. A narrativa começa com a promoção e transferência de um oficial para um novo posto de comando. Com isso, sua família, que vivia numa confortável casa em Berlim, vai descobrir, na nova morada, e na própria pele, toda a monstruosidade do holocausto ignominiosamente disfarçada na ideologia do progresso e da superioridade de uns sobre outros.

A começar pela nova residência, nos arredores de Auschwitz, de arquitetura fascista, imponente e opressora, o filme - baseado no livro homônimo do irlandês John Boyne - narra de forma quase que alegórica as transformações na vida de Bruno, de oito anos. De índole aventureira, o garoto se põe a explorar as proximidades e descobre que há uma fazenda ali perto, onde vive uma gente que usa pijama listrado. Curioso, ele escapole com freqüência da vigilância da família para ir ter com o menino do título, que mora do outro lado da cerca de arame farpado. A partir daí, o curso dos acontecimentos irá mostrar que tanta crueldade só foi possível com o apoio da indiferença de uma maioria silenciosa.

Quando saí do cinema e me deparei com a cena corriqueira de uma família dormindo na rua, a metáfora de “O menino do pijama listrado” se materializou no meu íntimo. E a cerca de arame farpado se fez presente, ali, em plena Avenida Visconde de Pirajá. Entre mim e aquele garoto de aproximadamente oito anos, dormindo com a cabecinha no chão, havia um obstáculo intransponível, erguido pelo hábito da minha indiferença. O que fazer? Como viver num mundo com essa monstruosa desigualdade? Ainda mais agora que sabemos o quanto de dinheiro foi disponibilizado para resolver a crise financeira. Enquanto as crises humanitárias – como a do Zimbábue que já dura sete anos - são praticamente ignoradas.

Mas eu não quero ir tão longe. Aprendi que a preocupação com a fome em outro continente pode ser uma forma de escape. Em “Os irmãos Karamázov”, comentando os fundamentos da doutrina cristã, Dostoiévsky faz uma reflexão da maior relevância para nós aqui e agora. Entre outras belas e próprias digressões teológicas, o gênio da literatura russa comenta que amar o distante é fácil, difícil mesmo é amar o próximo. E o próximo não é a minha mãe, não são meus filhos, meus irmãos, meus sobrinhos e afilhados. Esses são os meus, assim como há os seus. Próximo é o garoto de rua da nossa rua; são os mendigos da porta do nosso escritório; é a população das favelas, com quem lidamos com irresponsável desdém. Assim, eu desejo a todos os que sabem o que significa uma Noite Feliz, um esforço para além da indiferença cúmplice. Vamos começar lançando ao nosso redor um olhar solidário. E tentar construir um mundo de paz e amor para os meus, os seus e o próximo.


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Pra dançar...

E lá fomos nós, um grupo de cinqüentões, assistir ao show da Madonna no Maracanã. Somos todos amigos de longa data e já dançamos muito ao som da cantora americana, desde os idos dos anos oitenta, nos tempos da explosão do videoclipe. Época em que sua imagem loiríssima invadiu telas e telões do mundo todo instigando imaginários femininos e masculinos com sua sensualidade agressiva, e abismando os puristas do rock com sua postura assumidamente pop. Ainda que nenhum de nós seja fã de carteirinha de Madonna, fomos todos influenciados de alguma maneira por seu discurso iconoclasta. Isto aconteceu antes da ditadura do politicamente correto, portanto, um tempo em que era permitida alguma transgressão, o que nos faz de certa forma cúmplices tardios da “Material Girl”.

Éramos cinco amigos entre mulheres e homens, e cada qual tinha comprado seu ingresso em dias e locais diferentes, portanto, quando nos encontramos para “esquentar os tamborins”, antes de partir para o estádio, foi que percebemos que os horários marcados nas entradas eram diferentes. Aí começou a cisão no grupo, estava na hora se o show fosse às oito da noite, porém cedo demais se o espetáculo só começasse às nove. Em nome do coleguismo todos cederam e depois de mais uma “saideira” nos enfiamos em dois taxis que nos deixaram em frente às filas, que andavam em sentidos contrários ao redor de todo o Maracanã.

O que parecia confusão era, na verdade, organização espontânea do público que seguia disciplinadíssimo para as arquibancadas. Essas, por sua vez, estavam divididas em 1 e 2, o que para o nosso grupo foi um transtorno inesperado. Acontece que, até então, nenhum de nós sabia que o ingresso da arquibancada 1 não daria acesso à arquibancada 2. E estaríamos irremediavelmente separados nas horas seguintes não fosse a farta venda de bilhetes em frente ao Maracanã. E não eram apenas os cambistas em ação, havia gente como um casal jovem que queria vender dois bilhetes por um quarto do preço original. Com jeitinho, conseguimos que eles trocassem os seus (de nº 1) pelos nossos (de nº 2) por uma gorjeta de vinte reais. E assim entramos todos juntos, agora com bilhetes iguais.

Ainda era cedo e deu para pegar lugar em baixo da marquise. O que foi muito bom porque, dez minutos antes do show, a chuva, que ameaçava cair desde as primeiras horas da tarde, despencou sobre o estádio e não deu trégua até Madonna deixar o palco, às dez e meia da noite. Não dá pra dizer que o mau tempo não atrapalhou. É claro que ter um assistente protegendo a cantora o tempo todo com um guarda-chuva tirou um pouco da magia cênica do espetáculo que é um pouco como o “Cirque du Soleil”. Mas com uma incansável Madonna capturando os sentidos do público, como um prestidigitador que transforma em ilusão a visão de toda uma audiência.

Nas duas horas de espetáculo a loura não parou em cena. Eu diria até que se há alguém no mundo capaz de assobiar e chupar cana ao mesmo tempo deve ser Madonna. Como pode uma mulher de cinqüenta anos pular corda durante um tempão e sair cantando com o mesmo fôlego de antes, sem nem uma desafinadinha? Não que o show seja apenas um espetáculo de malabarismo. Também não é uma banda de rock. Mas tem atitude de sobra, pois Madona põe uma pitada de sacanagem em tudo o que faz. Quando a malícia não está explícita, vem no subtexto. Além disso, as projeções dialogam com a cantora o tempo todo; os efeitos visuais são deslumbrantes; os figurinos são de um tremendo bom gosto; os bailarinos são um show à parte e a música... ah, a música é pra dançar, ora bolas. E Madonna deu conta do recado: fez o público sacudir por duas horas sem parar. Ao final, fomos todos embora, inclusive o grupo dos cinqüentões, com alma de adolescentes.



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Al mare

Não sei se deu para perceber por outros textos deste blog que eu moro debruçada sobre a Baía de Guanabara. Vivo num décimo sexto andar, num ângulo tal da Avenida Rui Barbosa que o meu terraço, embora pequeno, funciona como um posto avançado sobre o mar. Daqui, vejo todos os dias a águas agitada do oceano entrar pela barra e vir calmamente se aninhar aos pés do Pão de Açúcar. Por isso, eu mesma tenho quase que como uma obrigação ir, a cada intervalo entre uma tarefa e outra, conferir o movimento no acidente geográfico mais bonito do Brasil. E como quase tudo desde esse ângulo privilegiado se transforma num acontecimento extraordinário - porque só a beleza da paisagem aqui já é um acontecimento extraordinário - , imagine você com o movimento dos barcos, os navios saindo e entrando na barra, as mudanças de luz, os efeitos climáticos e os fenômenos astronômicos.


E não é para me esquivar da inveja do leitor que vou me abster de descrever o espetáculo que a lua cheia resolveu fazer bem defronte da minha sacada neste final de semana. É principalmente porque o meu talento de escritora fica muitíssimo aquém do mínimo necessário para dar conta do recado. E também porque tenho agora uma coisa mais urgente pra contar.

Voltando ao meu posto avançado, faz tempo que venho observando o aumento da freqüência de barcos de passeio turístico às voltas pela Baía de Guanabara. Antes, havia apenas um que saía aos domingos e vinha apitar bem em frente aqui de casa, às dez da manhã em ponto. Era de amargar, para mim e todos os boêmios da vizinhança, porque madrugar num dia consagrado ao descanso deixa qualquer um de bofes virados. Mas, passado o mau humor involuntário (com devem ser todos os maus humores, suponho), eu ia para o terraço com a minha xícara de café e deslumbrada pela paisagem, começava a criar coragem para ultrapassar o dia internacional da angústia e tentar chegar, sem maiores danos, à segunda-feira.

Com o tempo, começaram a aparecer outros barcos desse tipo por aqui. Primeiro passavam apenas durante o dia, e isso nunca me comoveu de todo. Mas quando começaram os passeios noturnos, com música alta, feito festa de embalo, aí minha curiosidade se aguçou e tive uma vontade enorme de estar lá, nem que fosse como uma mosquinha, ou outro inseto qualquer que, por sua característica insignificância, pode bisbilhotar nos meios mais impróprios. E aí, eu podia estar aqui escrevendo, ou conversando ao telefone, ou distraída nas páginas de um romance qualquer que, bastava ouvir o som da festa no barco, ia correndo lá pra fora devanear com o que poderia estar acontecendo naquela que eu imaginava uma orgia de prazeres sem igual.

Pois na sexta-feira eu mesma era um dos convidados da festa num barco que sairia às dez da noite da marina da Glória e seguiria seu itinerário num passeio pela orla da Baía de Guanabara até as duas e meia da manhã. Foi a festa de final de ano de uma empresa para seus clientes e fornecedores do Rio e de São Paulo. Eu fiz parte da turma dos amigos do dono que, naturalmente, contribuiu para tornar o ambiente a bordo menos formal. Se bem que num barco, em fim de ano (e um ano desses!), não há formalidade que resista a três rodadas de uísque. E assim foi que saiu uma lua do tamanho de um bonde sobre nós e a festa rolou com dança e jantar e muito papo, e a confraternização foi geral entre paulistas e cariocas, e às quatro da manhã estávamos desembarcando na marina os cerca de cem convidados mais alegres que eu já vi. Foi uma festa careta, como vocês puderam perceber. E isso é muito legal porque eu não precisei ser mosca pra comparecer, bastou um longuinho de jérsei, uma pashimina e uma rasteirinha pra me divertir a valer. E o melhor: não teve marchinha de carnaval!
Ainda bem, porque o fim de semana é de Madonna, e eu vou ficando por aqui, pois devo estar no Maracanã as oito horas em ponto. Até lá, torço para o tempo firmar!

Governo ou desgoverno?

Não sou chegada a uma sessão nostalgia, nem acredito muito nessa história de que recordar é viver. Mas quando vi no jornal, na semana passada, a fotografia de uma dona-de-casa lavando roupa na laje, no topo do Dona Marta, tendo ao fundo o corcovado redentor, senti uma tremenda saudade da cidade que o Rio de Janeiro foi um dia. Nem tanto o Rio que eu vivi, mas o Rio do meu imaginário, o “Rio, 40 Graus”, o Rio de “Orfeu do Carnaval”, o Rio dos anos dourados... da época do lotação... quando os porteiros mais antigos eram verdadeiras instituições na redondeza, e os mendigos eram poucos e folclóricos, cada bairro tinha o seu. Uma cidade na qual menino de rua era um status desconhecido da população. Tanto na Zona Sul quanto na Zona Norte, porque a Zona Oeste nem tinha propriamente população. Enfim, um Rio que não existe mais.

Saí do devaneio saudosista por um lampejo de otimismo trazido por outras notícias tão auspiciosas quanto a da ocupação que livrou o Dona Marta do tráfico de drogas. Uma foi o lançamento no Complexo do Alemão do projeto Território da Paz, com o objetivo de afastar os jovens da criminalidade e aproximar a polícia do dia-a-dia da comunidade. Outra é o esforço da Secretaria de Segurança para acabar com o crime organizado na Cidade de Deus, em Jacarepaguá, e devolver a comunidade aos moradores de bem. Segundo dados da própria Secretaria, a operação, com início em 11 de novembro, já mostra uma diminuição pela metade, em média, dos crimes cometidos no bairro da Zona Oeste em relação ao mesmo período do ano passado.

Seria muito bom que esse estado de coisas se efetivasse, tanto para os moradores das favelas quanto para os dos bairros adjacentes. Porém há fatores a serem examinados, porque a ocupação social que deve substituir a policial só está prevista para o morro de botafogo, bem menor do que as outras comunidades supracitadas. Ora, o sucesso da operação no Dona Marta, com população de 4.500 pessoas, é resultado de um trabalho de inteligência que reuniu agentes das Polícias Federal e Militar combinado com patrulhamento ostensivo. No entanto, para ocupar as 700 favelas do Rio e Região Metropolitana seriam necessários 70.000 policiais, segundo Milton Corrêa da Costa, um especialista na área de segurança.

Não sei qual é o efetivo a PM hoje, mas com certeza é consideravelmente menor do que o indispensável para vencer a luta contra a violência na cidade. Logo, para dar prosseguimento à política de enfrentamento, o governo do estado já teria que estar concursando e treinando policiais a toque de caixa e em número expressivo. Além de promover programas de capacitação e implementar um plano habitacional para garantir aos policiais o acesso à casa própria - como forma de valorizar a profissão. Porém, nada vai funcionar sem que seja costurado um pacto entre executivo e judiciário no sentido de promover uma limpeza em regra nas forças policiais civis e militares do Rio de Janeiro, afastando os elementos corruptos e punindo-os de forma exemplar. Pois o que há de mais preocupante agora – e seria desolador para o carioca - é a possibilidade do governo tirar o tráfico das comunidades para entregá-las de mão beijada às milícias.

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Ménage à Trois

Se estivesse almoçando com minhas amigas num restaurante em Ipanema e o assunto surgisse, começaria por dizer que a-do-ro Woody Allen. Como já devo ter feito algumas vezes, ainda mais incentivada por taças e taças de Puilly-Fumé gelado, que um Sauvignon Blanc desses leva a gente ao exagero. E não estaria mentindo, mas cometendo o pecado da heresia, pois, segundo a minha avó – que a-do-ra-va cortar a minha onda –, adorar só a Deus. E graças a Deus as admoestações de vovó serviram para ajuizar minhas avaliações e me fazer levar em conta que quando a gente escreve, faz mais do que lançar palavras ao vento nas esquinas chiques da Visconde de Pirajá.

Então, voltando ao assunto, gosto muito dos filmes de Woody Allen, mas este último, Vicky Cristina Barcelona, é menos que uma bobagem. Vamos combinar que há bobagens e bobagens adoráveis, como “Bananas”, no qual Allen satiriza tanto a CIA quanto o ativismo político de esquerda. E “O Dorminhoco”, uma crítica hilária aos governos autoritários e à submissão do homem à tecnologia. E esta é justamente a grife do diretor: além de diálogos brilhantes, um olhar inusitado e crítico sobre os temas abordados em seus filmes. O meu preferido é “Noivo neurótico, noiva nervosa”, um tratado genial sobre os relacionamentos amorosos. Mas há outros ótimos disponíveis em DVD, para assistir no aconchego do lar, em boa companhia e, quem sabe, saboreando um Pinot Noir do Vale de Casablanca.

Agora, de volta ao xis da questão, menos que uma bobagem, “Vicky Cristina Barcelona” é uma chatice feita de encomenda para divulgar o turismo na região da Catalunha. Se bem que para apreciar as deslumbrantes locações da fita vale uma ida ao cinema numa quarta-feira, quando a entrada custa metade do preço. Já que o diretor colocou seu reconhecido dom de revelar fotogenias metropolitanas a serviço da cidade do título. E fez a arquitetura inspirada de Gaudí e a arte de Miró contracenar com atores bonitos que bebem vinho o tempo todo. Dá até vontade de abrir um ALTO, de Ribera Del Duero, aquele tinto com gosto de férias na Espanha.



De resto, o filme mostra uma gente que consome muito, e coisas caras. São hotéis de luxo, iates, carros conversíveis e até avião particular para contar a breve história de um triângulo amoroso pouco convincente. Pode-se dizer que Javier Barden dá conta do recado ao encarnar um pintor blasé dependente de companhia feminina. Scarlett Johansson (linda de morrer) faz o que pode para dar algum brilho à superficialidade da jovem americana em busca de aventuras mediterrâneas. Já Penélope Cruz (muito linda também), no papel da ex-esposa neurótica, consegue apenas fazer a caricatura da artista espanhola de sangue quente.

Pena que Woody Allen tenha desperdiçado a sua vez de abordar um tema que já foi tratado com maestria por alguns dos grandes cineastas. Para escolher apenas um, fico com Jules e Jim, de François Truffaut, com Jeanne Moreau na pele de Catherine, uma mulher para dois. Passado na Paris do início do século XX, o filme narra com poesia a evolução de um triângulo amoroso antes e depois da Primeira Guerra Mundial. E evoca, em menos de duas horas de projeção, desde as frivolidades da belle époque até as cicatrizes do pós-guerra. Não é só mais uma historinha de ménage à trois, como “Vicky Cristina...”. Ao contrário, é uma bela homenagem ao amor e à amizade. E os personagens de Truffaut, saídos do romance de Henri-Pierre Roché, não são feitos apenas de aparência e hedonismo. São alegres, sim, porém controvertidos, e capazes de sentimentos de renúncia e compaixão. Porque a vida é mais do que um pilequinho de Dom Pérignon num sarau ao luar.

Espetáculo carioca

O sol, enfim, apareceu para colorir as águas plácidas da Baía de Guanabara. O Pão de Açúcar despontou da neblina, enigmático e liso. Qual esfinge bruta, a pedra monumental montou guarda sobre a entrada da barra... Um cargueiro preguiçoso apitou sua chegada . A manhã já vinha alta. O horizonte limpo revelou a curva branca de Niterói para o Rio, que há dias jazia imerso em nuvens carregadas.

O albatroz cortou o céu de brilho transparente e convidou-me para um passeio à beira-mar. Aceitei o chamado da alegria e deixei todo o resto para depois. Vesti um biquíni estampado e fui sentir de perto o espetáculo carioca.

Atravessei o parque por entre as árvores de restinga... No deque da praia, o grupo dos mais velhos saudosos de sol cocoricava excitado, como fazem no terreiro as aves de vôo curto. Na primeira curva enrocada, encontrei Mara Mineira, catadora de mariscos, com sua cavadeira e luvas de operário. Ela me disse que entrava na briga das pedras contra o mar, contando tirar a féria de uma semana no primeiro dia de calmaria.

Caminhei pela beirinha, a água salgada gelando meus pés... Fui de um lado para outro vendo as crianças brincar... Passei pelo pescador de primeira viagem lutando com um caniço que teimava em esticar uma linha de todo má. Desviei rápido, para fugir da degola, e fui me esticar sobre a canga bem junto ao mar. Deitei de bruços e deixei maresia entrar pelos sete buracos da minha cabeça. Um avião riscou o céu levando meus pensamentos para Havana. Escrevi com a ponta do dedo o nome dele na areia, a onda veio e lambeu as quatro letrinhas de amor.

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