Carminha sofre!



Nunca fui de ver novela, até porque trabalhei durante muito tempo no telejornalismo noturno, o que me impediu de pegar o hábito de assistir televisão e me fez investir as horas livres em literatura. E nem sei bem por que comecei a ver Avenida Brasil. Acho que continuei em frente à TV depois do Jornal Nacional (melhor agora com a entrada de Patrícia Poeta), e acabei por assisti o primeiro capitulo de Avenida Brasil.

Acontece que o mesmo se repetiu no dia seguinte, e no outro também, e agora assisto a pelo menos três capítulos da novela por semana. De início, o que mais me interessou foram as cenas, a la Charles Dickens, do lixão. A inversão na lógica dos núcleos, que transformou a Zona Sul em periferia do subúrbio, também é interessante. Além do mais é um subúrbio gostosíssimo o Divino, é arejado nos costumes, dispensa o moralismo da tradicional oposição entre a romantizada gente simples e a arrogante classe A, é bonito, alegre e vulgar na conta certa.

Avenida Brasil é, além disso, um corte epistemológico na veia nacional, com sua sensualidade epidérmica, o caráter flexível, a exaltação da preguiça e a esperança de mudar de vida inteiramente depositada na grande tacada, no pulo do gato, ou no se dar bem. E tem ainda uma rapaziada bonita pra chuchu. São jovens sarados, espertos, alegres, e com ótima presença em cena. As mulheres, por sua vez são todas interessantes, vividas por atrizes que chamam a atenção pela beleza ou pelo talento, ou pela combinação dos dois, ou ainda pelo carisma amplificado, como a Mãe Lucinda, de Vera Holts.

Agora, o que mais me agrada na nova trama das oito é não ter que esperar quase um ano pelo fim da novela para ver a vilã sofrer. Por que o sofrimento de Carminha na mão do amante boçal é constante. Ele arma e ela paga o pato, sem sossego, numa casa onde todos fazem o que bem entendem, menos ela, que tem de posar de filha-de-maria, de mãe amantíssima, de grande companheira, estimada nora e boa dona de casa. Só que Carminha tem índole de periguete das periguetes. Então, ela sofre.

Junte-se a isso um texto ágil, em capítulos bem resolvidos, quase circulares, em que a trama sempre avança com a resolução de alguma crise, em ritmo mais de série do que de seriado, e tem-se um bom programa para assistir. Concordam?

Sorry Salvador...

Sorry Salvador, mas o carnaval no Rio é que foi massa. A cidade recebeu mais de um milhão de turistas, a taxa de ocupação dos hotéis chegou a 95%, e não só na orla, mas no Centro, Flamengo, Catete e Botafogo. A ideia da prefeitura de espalhar os blocos pela cidade deu muito certo, pois se houve aumento do número de foliões, o trânsito ficou mais desafogado com a maior concentração da folia na região central. O lixo ainda é um problema, mas a prefeitura informa que houve considerável melhora em relação a 2011, já que muitos blocos foram seguidos por catadores de latinhas que vivem da reciclagem.

Melhor que isso, só se resolverem o problema do xixi. Este ano, mais de mil pessoas foram detidas mijando na rua e calcula-se que o número de mal educados seja, é claro, bem maior. Aproveitando a deixa, vai aí uma sugestão: deter também os donos dos cachorros que mijam o ano todo nas ruas do Rio. E muitos desses cães são grandes o suficiente para emporcalhar a cidade tanto quanto adultos de porte médio. E ainda investir em campanhas que constrangessem donos de animais a pelo menos limpar a merda de seus estimados porcalhões, pois estes são exceções. De qualquer forma, com saquinho de plástico ou não, eu acho um horror uma pessoa levar um animal para cagar e mijar na rua. Ora, se um cidadão não se adapta às regras da cidade, que vá morar no mato.

Mas voltando ao carnaval, foi mesmo o melhor dos últimos tempos. Não que eu tenha brincado em algum bloco, apenas fiquei no Rio e fiz os programas que mais gosto e que são caminhar na praia, mergulhar no mar e ir ao cinema. Este ano, a graça era ver o máximo de filmes concorrentes ao Oscar e depois acompanhar a entrega do prêmio. Valeu. As praias estavam limpinhas logo cedo, o mar tinha ótima aparência e a água estava bem gelada como gosta o carioca.

Como eu prefiro as sessões noturnas, passei por vários blocos no trajeto para os cinemas, e pude apreciar tanto concentrações quanto dispersões. Foi impressionante o número de gente fantasiada, principalmente os rapazes, que aderiram de vez às perucas engraçadas. A alegria reinava em Copacabana e Ipanema. A rua Visconde de Pirajá era uma festa só em quase toda a extensão, sem violência e com muito humor. Aliás, a sensação de segurança foi notória no período momesco. Atestada por quem, na falta de taxi, voltou algumas vezes pra casa de ônibus, e depois da meia noite.

Por tudo isso, a prefeitura, o carioca e os turistas estão de parabéns. Já os filmes concorrentes e a festa do Oscar eu deixo para comentar na próxima postagem, por que esta já está de bom tamanho e o assunto cinema merece um espaço maior. Um abraço e até lá.

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Do frevo ao manguebeat

Meu primeiro carnaval inesquecível foi em Recife, na casa de meus tios, junto com cinco primas adolescentes. Ainda havia corso naquela época, uma tradição portuguesa com certeza que nos levava todas as tardes, durante os quatro dias de folia, à linda Avenida Guararapes em jipes sem capota alugados, como fazia toda a sociedade local.

Ressalto o caráter português da brincadeira que misturava azaração com certa brutalidade que em muito lembra uma passagem de O Cortiço, de Aluísio de Azevedo, na qual ao se conhecerem no navio, vindo de Portugal para o Brasil, Jerônimo e Piedade começam o namoro de pisões e beliscões que os levaria ao altar.

Pois assim era o corso em Recife. Quando um rapaz estava interessado numa garota, vinha em sua direção e empapuçava-a toda com punhados de farinha de trigo, aproveitando a oportunidade para esfregar-lhe os braços e assanhar-lhe os cabelos. E as meninas por sua vez mostravam suas preferências esguichando contra eles jatos de bisnagas cheias de água e óleo de cozinha. Uma porcaria só, mas gostosa como o quê.

E assim se preparava o clima para os bailes da noite, depois de horas e horas de banho, até que se conseguisse limpar toda a gororoba. Lindas, então, íamos dançar e continuar a paquera nas festas do Country Club, do Náutico, e do Internacional. Ali, o frevo corria solto e eu, carioca de primeira viagem, ficava fascinada vendo os homens de smoking e as mulheres de longos ou fantasias de luxo, tanto jovens como velhos, afluírem ao salão em passos frenéticos ao som contagiante dos naipes de sopro tocando Capiba.

Tais lembranças me ocorreram com vivacidade não apenas por estarmos já em clima de carnaval, mas principalmente por conta do livro Do frevo ao manguebeat, que acabo de ler. Nele, o jornalista e crítico musical José Teles faz um passeio pela história da música pernambucana, passando pelos gêneros historicamente reconhecidos, como o frevo e o forró, pelo erudito e instrumental, até a música urbana contemporânea que, na versão de Chico Science e Nação Zumbi, estourou na Europa e Estados Unidos, influenciando todo o pop brasileiro dos anos 90.

Paraibano de Campina Grande, José Teles cresceu no Recife onde escreve para o Jornal do Commercio desde os anos 80. Com cerca de 20 livros publicados, é autor da biografia do Quinteto Violado, lançada agora em comemoração aos 40 anos do grupo, numa exposição no Centro Cultural dos Correios.

Fã da qualidade e diversidade da música pernambucana, que considero das mais criativas e instigantes do mundo, aproveitei a chance e fui entrevistar Marcelo Melo, remanescente da formação original do Quinteto Violado. De quebra, assisti ao espetáculo do grupo que desfila frevos, forrós e baiões numa concepção musical de interação entre o erudito e o popular que faz a gente sair do chão, de corpo e alma.

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O Rio de Janeiro e suas bicicletas voadoras

A economia do Brasil está bombando e isso se reflete diretamente no turismo do Rio de Janeiro. Na Zona Sul, principalmente, mas também no Centro e na Lapa o que mais se vê são visitantes de outros estados brasileiros. O pessoal do Centro Oeste é o mais frequente e disputa lugar nos restaurantes e bares da orla com os estrangeiros, que continuam vindo para cá aos montes e cada vez mais em grupos de jovens. Quem se aventurar a dar uma volta em Copacabana, num final de tarde qualquer, poderá conferir que o turismo no Rio já não é apenas sexual, e isso há algum tempo.


Na verdade, o Rio de Janeiro está se firmando como point internacional para todo tipo de gosto, gênero e idade. Porém, para o carioca, a coisa não está tão boa assim. A começar pelos preços inflados dos serviços e moradia. Hoje, um jovem casal carioca que se casa e quer constituir família vai ter que mudar de vida mesmo. Mas para pior, porque os preços dos imóveis para compra e aluguel, no mínimo, triplicaram em menos de 5 anos. Tudo bem se os salários aqui tivessem acompanhado a euforia do mercado imobiliário. Não é o caso. Pegue uma empresa nacional e compare o contracheque de um gerente do Rio com um de São Paulo. De banco às teles, a discrepância é abissal.


Para os mais velhos, a vida no Rio também não melhorou. Acho até que está bem pior, apesar da pacificação das favelas. É inquestionável que a cidade está mais segura do ponto de vista da macroviolência, viu-se livre da barbárie do tráfico e etc. E isso contribuiu efetivamente para fomentar a euforia social e econômica em que o Rio vive hoje, aditivada ainda pelas expectativas em torno da Copa do Mundo e Olimpíadas.

Mas é do dia a dia que estou falando, do transito dos pedestres pelas calçadas, em seus próprios bairros e adjacências. E aí a coisa pega, e compromete a qualidade de vida do morador do Rio. Pois veja, numa singela ida ao supermercado um idoso morador de Copacabana corre o risco de ser atropelado, já que a avenida que corta o bairro virou corredor exclusivo de ônibus, o BRS. Está certo que o coletivo tenha prioridade, pois foi justamente a falta de transporte público rápido, barato e seguro no Rio de Janeiro a grande responsável pelo crescimento desordenado da cidade e seus perniciosos efeitos colaterais. O que falta é levar em conta a condição do pedestre de um bairro que tem, em sua maioria, moradores da terceira idade. No BRS da Av. N. S. de Copacabana, muitos sinais fazem contagem regressiva de 10 segundos no vermelho, uma verdadeira gincana para os idosos que frequentemente são vítimas de atropelamentos com um número assustador de óbitos.


Nas calçadas há perigo também. E se antes eram os entregadores do comércio com suas bicicletas e triciclos voadores a trafegar pela contramão e cortar caminho pelas calçadas levando pânico aos mais velhos, a eles se juntaram, nos últimos tempos, os ciclistas de todas as categorias, motorizados ou não, jovens ou maduros, a trabalho ou a passeio. Eu mesma seria forte candidata à vítima desses maníacos, não fosse o cuidado que tenho atualmente ao andar também pelas calçadas . E aí, ainda temos que sofrer com a merda dos cachorros, já que para cada dez donos de au-au apenas um leva o saquinho sanitário.


Bem, eu sou carioca da zona sul, adoro praia, caminhar na orla, ir a cinema de rua, tomar cafezinho no botequim e suco de fruta na lanchonete. E é por amar caminhar nas ruas do meu bairro que chamo a atenção para esses detalhes que fazem a qualidade de vida do morador.


Torço pelo Rio de Janeiro, Cidade Maravilhosa de fato, que está sim cada vez melhor. Mas nem por isso acredito que devemos nos acomodar e deixar de apontar defeitos e reivindicar iniciativas de quem por direito e dever administra o estado e a capital. É também direito e dever de todo cidadão apontar desmandos para ajudar a garantir uma satisfatória qualidade de vida para todos os moradores de sua cidade.

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A pele que habito

Bem garota, nos meus oito ou nove anos de idade, presencie uma cena que guardo até hoje como amostra da condição existencial do indivíduo, único, sozinho, abandonado em sua paixão pessoal e intransferível. Aconteceu em uma tarde preguiçosa de verão do Rio de Janeiro. Uma aparentada nossa foi recebida em casa com certa consternação, um ar inusitado de solidariedade permeando a habitual amabilidade com que meus pais costumavam receber.

O fato me chamou a atenção e passei a acompanhar de perto a visita. Tratava-se de uma mulher, magra e muito curvada. Não pela idade, que não devia passar dos quarenta e tantos anos, mas pela intensa aflição que lhe pesava como um fardo. E lhe ardia pelos poros, engelhava-lhe o rosto e fazia saltar-lhe as veias das mãos que alisavam mecânica e nervosamente a alça da bolsa de couro roto que trazia no colo.

Essa triste figura passava pelo desgosto de ter o marido preso por conta de uma refrega num bar, na qual atirou em um homem com uma arma que nem era sua. Era um boêmio inveterado, mas muito querido dos meus pais e alegre e carinhoso conosco, crianças, a quem costumava segredar com muita verve diabruras da infância. Seu nome era Odraude, o contrário de Eduardo, e pelo vaticínio de nascimento vê-se logo o porquê de, em toda uma família de biografias exemplares, ter sido ele o único a sair ao desvio.

Mas o que me fez mergulhar assim no profundo das minhas lembranças foi assistir ao mais recente filme de Pedro Almodóvar, A pele que habito. E aproveito para dizer que não entendo como o filme não foi um sucesso estrondoso logo na noite de abertura do Festival do Rio. Acreditando-se que o público ali era de, senão de cinéfilos, gente interessada em cinema, convidada para fruir o que a sétima arte produziu de melhor no último ano. Ou as pessoas vão a uma estréia mais para ver e serem vistas, somente para fotos e flashes?

Perderam!, pois A pele que abito é um filmaço-aço-aço. Quem saiu no meio da sessão no Odeon para esperar a festa no barzinho ao lado perdeu uma aula de cinema. Um roteiro ousado e ao mesmo tempo preciso, adaptado de uma história originalíssima, que fala de alterações nas várias camadas do sentimento humano e na delicada estrutura de identidade do indivíduo. Uma direção de arte que brinda o olhar da audiência a cada enquadramento e ao acompanhar a ação, valorizada pela atuação de um Antônio Banderas surpreendente.

Ora, essa história plausível e fantástica ao mesmo tempo, contada com excelência cinematográfica, é uma metáfora da condição existencial de todo ser humano. E me envia diretamente ao momento em que percebi pela primeira vez na vida o que seria sentir na pele a falta do marido, o desamparo dos filhos e a humilhação social. Leva-me àquela tarde e à resposta da mulher ao comentário desdenhoso de um cunhado indiferente ao seu infortúnio: “Você diz isso, fulano, porque não está na minha pele.”

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Salomão e o Festival do Rio

Dizem que a economia por aqui está bombando, muito por conta das escolhas acertadas nos investimentos sociais da era Lula, a despeito da crise internacional. Ou talvez por isso mesmo, como acreditam outros, os europeus estejam investindo pesado no Rio de Janeiro, e daí a recente alta espetacular nos preços dos imóveis nos últimos dois anos. Há os que apontam ainda a expectativa de forte injeção de grana na economia carioca por conta da Copa do Mundo e das Olimpíadas vindouras. Eu, sinceramente, não sei fazer um diagnóstico nem mesmo impreciso do que ocorre, mas percebo os sintomas de um Rio de Janeiro eufórico e angustiado ao mesmo tempo.


Noto uma população tão animada que chega a ser ansiosa no afã, perdoem o pleonasmo, de aproveitar ao máximo toda a oportunidade de diversão que lhe é apresentada. Foi assim na última Bienal do Livro, no Riocentro que fez recorde de público. Nunca se viu tanto visitante no evento, ao ponto de ter sido necessária a intervenção da Defesa Civil, para controlar a lotação do espaço no último dia. Mas a Bienal tem entrada franca e é programa para toda a família, dirá você. Sim, no entanto, foi sempre dessa forma e nunca houve, nas quatorze edições anteriores, tanta gente interessada em ver livros assim.


E o que dizer do Rock’nRio? Outro estouro da boiada. Filas de seis horas para andar na roda-gigante, quatro horas para a montanha russa e outras tantas para outras atrações. É muita vontade de dar voltas e reviravoltas no ar, ou eu estou mesmo ficando velha e não sou capaz de avaliar o grau de satisfação proporcionado por esses brinquedos.
Então vejamos o tipo de diversão mais apropriado para a minha idade e estilo de vida: cinema. Sempre acompanhei o Festival do Rio, com qualquer nome que tenha tido, não perdi uma de suas várias edições. Fui assídua frequentadora da plateia do Odeon e fiz bons amigos no café do teatro, gente que conheci ou reencontrei durante os intervalos das sessões. E, com crachá ou convite, sempre consegui assistir aos filmes que quis, muitas vezes um seguido do outro, como propõe a própria programação do evento.
Acontece que este ano a coisa mudou. Ou venderam mais ingressos do que a lotação do Odeon, ou em anos anteriores não havia a euforia de que falei mais acima. Só sei que com tempo bom ou com chuva as filas eram imensas e quem saísse de uma sessão não conseguiria lugar na sessão seguinte, mesmo que ficasse mais de meia hora na fila. Aliás, a média foi de 45 minutos de fila por filme exibido. A estimativa é minha, baseada em experiência própria ou no depoimento de amigos. Uma pena para os verdadeiros cinéfilos e uma falha para com os que estavam ali a trabalho, como o Salomão Azaria.

Salomão é um dos camaradas que fiz no café do Odeon, há alguns anos, numa edição do festival. Ele me foi apresentado por uma amiga em comum e desde então somos companheiros da maratona cinéfila. Hoje, mais do que isso, somos amigos. Salomão faz o Festival de Cinema Brasileiro de Israel, e o faz como ninguém. Todos os anos leva uma seleção dos nossos melhores filmes para a mostra que ocorre nas três principais cidades do país, Tel-aviv, Haifa e Jerusalém. Acompanhando os quinze longas-metragens, sendo dez de ficção e cinco documentários, vão diretores ou atores dos respectivos filmes que junto com jornalistas ou críticos formam a delegação de brasileiros convidados pelo festival. Eu mesma fui convidada em 2008 e fiz a cobertura do festival para o Jornal do Brasil.

É claro que Salomão precisa assistir a todos os filmes, caso contrário a seleção seria tendenciosa, ou no mínimo injusta, ao recair apenas sobre parte das obras inscritos no festival. Pois acreditem, a disposição de Salomão é tanta que ele chegou a assistir a um filme sentado no chão. Foi Sudoeste, logo a vedete do festival. Saímos juntos do filme anterior e entramos diretamente no fim da fila que dava a volta no quarteirão, mas não conseguimos um assento. Eu fui embora. Salomão sentou-se na escada, no fundo da plateia, e assistiu impávido ao filme até o fim. Eu morri de pena de não ver Sudoeste. Salomão adorou o filme que já está na lista dos que serão exibidos no Festival do Cinema Brasileiro em Israel.
Moral da história: No final dá tudo certo, mas dessa vez foi por um triz. E

E assim caminha a humanidade...

No Aurélio, xodó quer dizer envolvimento amoroso, namoro, paixão. Ou ainda, por metonímia, indivíduo por quem se estabelece um vínculo de afeto, estima, apreço, afeição. Desta forma, alguém pode dizer que fulano ou fulana é seu xodó. Só que eu não vou tratar de gente aqui. Tampouco é para falar sobre animais de estimação que eu volto a esse blog, depois de longo inverno. Até porque eles são considerados gente para muitos de seus donos e eu, que nunca entendi direito isso de achar que bicho é gente, prefiro não entrar nessa seara.

Portanto, eu quero mesmo é falar de coisas que são ou foram um xodó para mim, coisas das quais eu tive que me desfazer, não sem sofrimento, quando as contingências me obrigaram. Como quando mudei de um casarão em Santa Teresa, onde vivi por muito tempo. Além de perder o convívio em um dos bairros mais adoráveis do Rio, com suas ruas de paralelepípedo, a legião de inofensivos bichos-grilos e a alegria do sobe e desce do bondinho, deixei para trás alguns objetos que foram meus verdadeiros xodós. Desta forma, lá ficou um lindo anjo de madeira rústica que, postado à entrada de casa, parecia proteger bravamente nossa existência.

Li recentemente que o Deepak Chopra acredita ser o amor uma constante que permeia o Universo. Meu cunhado, o Bi, costuma dizer que o amor é a costura do mundo, é ele que nos une a tudo que prezamos, e seria ele ainda o responsável por nossa longa convivência com, por exemplo, uma certa cadeira que nos acompanha para onde quer que nos mudemos, ou aquela jaqueta de jeans que usamos raramente mas da qual nunca conseguimos nos desfazer, ou mesmo um copo de cristal que está na família desde o tempo da bisavó. Amor, apego, carinho ou xodó? Chame como quiser, o fato é que há mesmo uma liga, um tanto misteriosa, entre nós e alguns objetos.

Mas há que deixam saudades por motivos diferentes, como o meu antigo aparelho de televisão, de muitas polegadas, comprado e inaugurado no dia da morte de Airton Senna, vejam só há quanto tempo. Pois dele me desfiz há pouco. Troquei-o por um moderníssimo monitor de mais algumas polegadas, alta definição, visão lateral e outras modernidades aproveitadas apenas em conexão com outros aparelhos, porque para assistir à programação da nossa rede aberta não dá. Para ver a novela da Globo, por exemplo, é preciso fazer um ajuste na tela, já que a produção global é captada em medida diferente. E com o ajuste necessário, a tela fica reduzida ao padrão do antigo aparelho. Resumo da ópera: o arrependimento de ter perdido sem grandes motivos uma TV tão querida e familiar, ao ponto do meu filho cumprimentá-la solenemente quando vinha me visitar.

Além disso, eu desconfio que existe o xodó inverso, ainda mais misterioso, pois se trata do amor que alguns objetos demonstram por nós. Falo daqueles artefatos que nos acompanham desde sempre, e quase que independentemente da nossa vontade. Algo sem muito valor, beleza ou serventia, mas que, sabe-se lá porque, não quebra apesar de ser de vidro e não some apesar da dimensão reduzida e das muitas mudanças da vida.

É o caso de uma tigela de vidro verde escuro, da qual eu nunca me lembro, e que entrou em minha vida como um presente de casamento. Ela fica lá, quietinha, no fundo de um armário e raramente é utilizada. Mas gosto dela mesmo assim. Não porque seja especial, bonita ou de valor, mas simplesmente porque há anos está lá e, mesmo esporadicamente, tem ajudado a servir gostosas saladas aos filhos e amigos e, o mais interessante, só agora me dou conta do quanto conto com ela para servir receitas ainda mais saborosas aos netos que terei um dia.


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Um jeito tupinambá de ser

Outro dia, numa entrevista para o programa Cidade de Leitores sobre a obra de Darcy Ribeiro, o professor Bessa Freire contou uma passagem ótima de se contar ocorrida com os tupinambás, que formavam a grande maioria entre as nações indígenas brasileiras na época do Descobrimento. E desde então, a idéia que a história encerra me serve de parâmetro quando estou às voltas com algum opressor de plantão, daqueles que não faltam no mundo de hoje, e que fazem da cobrança um exercício constante, quase um cacoete.


Foi na época da Invasão Holandesa, quando um português, autoridade na região, combinou com um chefe tupinambá uma investida contra os inimigos em comum. A batalha ocorreria em determinada hora e local, dali a um mês, tempo necessário para os preparativos. Ficou acertado que os índios, guerreiros notáveis, viriam em grande número se juntar ao contingente de brasileiros e portugueses que tentavam sem sucesso a expulsão dos intrusos.


Acontece que no dia da batalha os tupinambás não apareceram, não mandaram aviso, desculpas, uma justificativa se quer. O que além de decepcionar, provocou muita raiva no portuga, poi teve que adiar o combate e ainda por cima dar satisfações à metrópole.

Passada uma lua do incidente, aparece na cidade para uma visita à mesma autoridade o ditoso chefe tupinambá, com seu séquito, seus belos adornos e sua atitude mais que altiva, marrenta até. Interpelado pelo rabugento político, o índio respondeu que não comparecera ao encontro porque tivera melhor coisa pra fazer e que para governo dos brancos seria bom que soubessem que um tupinambá não é escravo sequer da própria palavra.

Moral da história: não me chamem pra roubada que eu sou tupinambá. E quem quiser conhecer mais sobre a história e cultura desses indígenas – conhecidos no Rio de Janeiro como Tamoios –, os quais contribuíram e muito para a formação da mentalidade carioca, deve ler Meu destino é ser onça, de Alberto Mussa.

No livro, Mussa, um carioca da gema, reconstitui a mitologia dos antigos tupinambás juntando a pesquisa de documentos históricos com relatos de alguns dos nossos primeiros cronistas. Entre eles André Thevet, um frade católico que veio para o Brasil, por volta de 1550, durante a ocupação da Baía de Guanabara pelos franceses e, acompanhado de um intérprete, conviveu com os indígenas registrando vários aspectos da cultura tupi.

E é com uma porção dessa cultura, salpicada de pitadas da tradição afro-brasileira (que conhece bem) que Mussa cria a saborosa narrativa de O senhor do lado esquerdo. Um romance do gênero policial, de prosa ágil e ao mesmo tempo manhosa, como a ginga do capoeirista Aniceto, personagem central e originalíssimo, que dá ao mais novo livro de Alberto Mussa, um sabor quase afrodisíaco.




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MEIA-NOITE EM PARIS

Em São Paulo o melhor programa no feriado de Corpus Christi foi assistir ao filme novo do Woody Allen, “Meia-noite em Paris”. E foi um programão, porque todo filme do diretor suscita uma boa conversa depois da sessão, nem que seja para “tocar o pau”. Foi o que aconteceu com Vicky Cristina Barcelona, uma chatice que, no entanto, me rendeu uma crônica para a Gazeta Mercantil no tempo que ela existia. No mais, três atores jovens e bonitos jogando muita conversa jogada fora.

Já esse novo “Woody Allen” não tem tanto apelo sensorial (e sensual), mas é muito mais inventivo, aproveita melhor a atmosfera onírica da projeção numa sala de cinema e mexe mais com as fantasias de viagens reais e imaginárias que habitam quase todos os mortais, ou pelo menos os não caretas. Então, dá papo para um jantar, ou mesmo um vinhozinho depois do cinema, qualquer que seja a sua companhia (menos os caretas, é claro!).

Um amigo meu discorda. Ele acredita que só quem sabe quem é Georges Braque ou Luiz Buñuel pode aproveitar o filme. Os outros seriam como burros olhando pra palácio. Discordo. Cinema bom é bom para todo mundo, independentemente do nível cultural, social ou econômico. Lembro que levei meu filho Guilherme quando ele tinha dez anos para ver Ladrões de Bicicletas, de Vittório De Sica, na Cinemateca do MAM, e do impacto que o filme provocou nele. Tenho certeza de que até hoje a sua maneira de ver o mundo foi influenciada pelo realismo italiano de De Sica.

Agora, para quem já esteve e curtiu a capital da França, aí sim, Meia noite em Paris faz diferença. E logo no início do filme tem uma deliciosa sequência de planos da cidade que, em beleza arquitetônica é campeã. As tomadas sobre o Sena, o bateau mouche passando sob as centenárias pontes da cidade; o Trocadero, onde, num café e restaurante, pode-se, ao final da tarde, saborear macarrons e uma taça de champanhe enquanto se espera a chegada da noite para ver a Torre Eiffel iluminada.

Bem, são apenas reminiscências parisienses que eu já contei aqui mesmo neste blog, um tempo atrás, ao recordar os alegres e diuturnos passeios de bicicleta pela cidade luz. Portanto, para mim, qualquer oportunidade de ver Paris, mesmo que na telona, é um bom programa. E além do mais estávamos em São Paulo e, depois do cinema, fomos destrinchar o filme e saborear um vinhozinho tinto na Mercearia do Conde, que ninguém é de ferro e fazia frio naquela noite.

No dia seguinte, a boa era almoçar no Mercado Municipal. E como nos arredores fica a Rua 25 de março, não deu para resistir e fomos às compras. E aí é que eu fiquei mesmo besta. No mesmo Shopping 25 de Março, onde alguns anos atrás houve a grande e escandalosa apreensão das “moambas”, que levou à cadeia o contrabandista chinês, do qual não me lembro mais o nome, eram oferecidas bolsas e acessórios falsificados por preços módicos mesmo. E os guardas nas esquinas orientando os turistas com a maior tranquilidade:
_ Seu guarda, por favor, onde fica o Shopping 25 de Março?
_ Na próxima esquina, bem em frente à guarita da polícia.
_ Ah..., bom. Obrigada!

Isso é Brasil.

E depois de dar uma volta no bazar da contravenção, formos almoçar no Marcado Municipal. O lugar estava lotado, mas o seu Elídio, dono de um dos restaurantes no segundo andar, foi com a nossa cara e nos serviu no balcão mesmo uma caipiríssima mais do que honesta, verdadeiramente generosa! Enquanto a mesa não saía, e a nossa senha era de vários dígitos, fomos nos divertindo como os petiscos que, de tão fartos e gostosos, nos saciaram o apetite. O jeito era ceder a mesa para o casal seguinte e voltar para o hotel feliz da vida com as compras e o efeito da vodka tirando a gente um pouco do chão.

Não sei se foi por conta da euforia etílica, porém, ao passar por uma esquina, ao pé da ladeira que leva a multidão à entrada do metrô, me deslumbrei com a voz de uma menina que, em seus magrelos 15 anos, chamava à porta de uma galeria para a remarcação relâmpago de bolsas ao final do corredor. Pelo timbre da voz, pelo physique du rôle, pelos plenos pulmões com que anunciava o saldo, lembrou-me Edith Piaf cantando na rua para ganhar uns tostões.

E ela era bonita, e era esguia, e colocava talento no que fazia. Seria com certeza uma bela cantora, se alguém lhe descobrisse o dom e lhe ajudasse a burilar a voz. Um coral de igreja aos finais de semana e a garota estaria no caminho do estrelato. Não era ainda um esbanjamento, pela tenra idade. Nem um caso perdido pelo mesmo motivo. Mas que dá pena ver tanto potencial desperdiçado numa esquina fria da Pauliceia, ah, isso dá.

E isso também é Brasil.

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Estreia Cidade de Leitores

Estreia no próximo sábado às 9h30, na Band, a nova série Cidade de Leitores. É um programa de literatura, no qual eu entrevisto escritores e especialistas no assunto, com entrevistas de 30 minutos de duração, e que promove a cada edição um diálogo da literatura com outras formas de expressão artística como cinema, teatro, artes visuais, música, histórias em quadrinhos e etc. Uma atração que não se propõe discutir a literatura ensimesmada na palavra, mas valoriza o sentido do texto, os caminhos da leitura que levam a reflexões que irão de alguma forma transformar nossas vidas. É como diz o jovem escritor português Gonçalo M. Tavares: “... um bom livro vale em média cem gramas de lucidez. “

Este é o terceiro ano do programa que volta remodelado desde o nome até o tempo de produção. Nos dois anos anteriores fizemos o programa ao vivo com participação do público. Agora, com meia hora a menos, o programa conta com duas entrevistas gravadas em locações externas. Em consequência está mais ágil, pois além de mais curto, por ser gravado permite uma edição mais interessante, com imagens de arquivo e com muito mais ritmo.

Eu sou a editora de conteúdo e roteirista do programa. Para as entrevistas que dialogam com outras expressões artísticas, conto com a colaboração inestimável dos roteiros de David França Mendes há quase um ano. Essas matérias, que podem ser acessadas no YouTub, são muito bem dirigidas, assim como o programa todo, por André Glasner. Carolina Antonutti é a nossa competentíssima produtora e Leonardo Ribeiro, nosso talentoso editor de imagem.

O Cidade de leitores faz parte de um programa mais amplo da secretaria municipal de Educação, com várias ações de incentivo à leitura, chamado Rio, uma cidade de leitores. É um exemplo da preocupação da secretária Cláudia Costin com a formação cultural de professores e alunos da rede municipal de ensino. É por aí que acompanho o trabalho da secretária desde o início de sua gestão e sou testemunha de seu esforço no sentido de melhorar e modernizar o ensino no Rio de Janeiro. Portanto, posso imaginar sua consternação com o massacre das crianças na Escola Municipal Tasso da Silveira, em Realengo. E é aí que vem ao caso o comentário de Zuenir Ventura em sua crônica de hoje. Ele observa ser mais importante do que discutir o controle de armas, neste momento, pensar uma série de iniciativas para reprimir e até impedir os casos mais agressivos de bullying nas escolas. Eu assino em baixo.

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