Notícias do Front

Depois de uma semana fora do ar, não encontrei um assunto que me inspirasse uma postagem. Escrever sobre o quê? Qual o sentido de manter um blog com as minhas impressões e opiniões, qual a relevância disso e a quem interessaria assuntos em geral tão comezinhos?? Tentando escapar da crise de identidade que me acometeu, resolvi dar uma volta pelos blogs dos amigos, num último esforço para descobrir quais fatos os motivara a escrever e postar nos últimos dias. Constatei que a crise é geral! Desanimada, pensei em postergar a tarefa um pouco mais, quem sabe deveria primeiro botar a correspondência em dia; ou sair de casa um pouco; ou comer um sanduíche acompanhado de um copo de coca cola bem gelada... Mas antes mesmo de fechar a internet e desligar o computador cliquei – meio que de bobeira – no botão do Próximo Blog na barra superior. Foi assim que conheci Ali, médica do exército dos Estados Unidos em missão no Iraq.

Digo que conheci Ali porque ela está quase que de carne e osso em seu blog. Sem tentar revelar meandros das profundezas de sua alma, sem se valorizar como pessoa, sem pretensão literária, sem afetação, muito mais para manter uma correspondência com os seus e, talvez, reafirmar sua identidade de mãe esposa, filha, irmã e amiga ("I am a mom, wife, daughter, sister, friend and CRNA deployed to Iraq.", diz em seu perfil), num momento extremo de sua vida. No blog, Ali faz relatos freqüentes em textos bem construídos, enxutos, de leitura rápida e agradável sobre seu cotidiano na guerra. Fala das saudades dos dois filhos, de seis e onze anos de idade, do marido e da própria mãe. São poucas as informações sobre a vida no front, porém são informações preciosas para traçar um perfil mais humanizado de uma médica combatente no Iraq – mesmo que engajada no exército invasor.

Lendo o blog de Ali, podemos ainda fazer uma idéia mais precisa da impressionante capacidade logística americana nessa guerra do Iraq – ao ponto de os colegas de hospital conseguirem que um bolo confeitado viesse da Alemanha especialmente para a festa de seu aniversário. Além disso, o blog de Ali pode ser considerado uma peça emblemática de como o imperialismo americano se sustenta ao aliar o máximo de progresso capitalista ao aperfeiçoamento da democracia interna. É só ver que logo no subtítulo, revelando independência política e dispondo de liberdade de expressão, Ali assume pessoalmente um posicionamento e o torna público ao afirmar que suas idéias não refletem necessariamente as do exército americano. Coisa inaceitável, por exemplo, em qualquer instituição militar brasileira.

Enfim, Ali faz um blog objetivo, coerente e bom de ler porque escreve do mesmo jeito que vive suas experiências, com simplicidade.

* Para quem se interessar, o endereço de Ali na web é http://redsbogblog.blogspot.com


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Questão de auto-estima

Não me lembro de um mês de fevereiro com um clima tão agradável, dias tão bonitos e noites tão frescas como esse que acabou hoje. Não sei se foi por causa da antecipação do carnaval ou do aquecimento global - sempre há uma explicação para tais fenômenos-, só sei que foi bom à beça. Eu nem pude aproveitar a praia por conta de trabalhos com prazo para entregar. Mas também não passei horas e horas trancada no ar refrigerado. E hoje, com tempo de sobra, resolvi dar uma volta a pé pelas redondezas e aproveitar ao ar livre o último dia do último mês de férias.

Logo na primeira esquina, um homem que eu nunca vi mais gordo mandou uma piadinha ousada em minha direção. Eu costumo considerar esse tipo de coisa falta de respeito e, normalmente, fico até meio irritada. Porém, como a brisa da manhã enchia o ar de bom humor, acabei achando graça.Também porque me lembrei na hora de uma antiga teoria do meu pai, segundo a qual, uma moça vinda do interior perdia rapidamente a virgindade no Rio de Janeiro por mais feia que fosse, pois tinha sempre um cara no portão de uma obra pra chamá-la de “coisa linda”. É claro que quanto mais feia ela fosse menos resistiria a passar outra e mais outra vez pelo mesmo lugar, e aí...

O fato é que não são apenas as feias que se encantam com essa lábia barata de meio fio. Dependendo do dia e da situação, ninguém escapa. Margarida, uma amiga de longa data, não perde a feira livre por nada. Ela é pesquisadora e professora universitária, lança um livro a cada 4 anos, no entanto adora ser alvo do gracejo dos feirantes. E nisso, convenhamos, eles são experts. É o único jeito de uma balzaquiana ouvir um homem dizer “e a gatinha não vai escolher nada hoje?”, parar na barraca do cara e fazer as compras ali. Margarida reclama que o marido, um intelectual e artista consagrado, não sabe dizer um inesperado “...gostosa” no seu ouvido. Sequer um “...você me deixa louco com esse rebolado.”. E, convenhamos, toda mulher precisa ouvir isso de vez em quando, até mesmo pelo bem do casamento.

Outra amiga que vai sempre à feira, ainda que por motivo diferente, é a Maria Clara. Maria Clara tem tendência para engordar e está sempre fazendo a dieta da moda ou começando um novo regime na próxima segunda-feira. Isso quer dizer que Maria Clara oscila de peso com uma freqüência absurda. É lógico que a sua auto-estima vacilaria na mesma medida se Maria Clara não fosse uma mulher de grande sabedoria. Maria Clara resolveu a questão da seguinte maneira: quando está magra, escolhe suas roupas mais elegantes e enseja elogios no country club. Quando está gorda, lança um top decotado e uma mini mini-saia e vai arrebentar na feira livre. Tanto Maria Clara quanto Margarida são mulheres normais, sensíveis, inseguras, neuróticas e etc. Seus maridos também são homens normais, exigentes, dissimulados, egoístas e etc. O que não é normal é essa irreverência – às vezes adorável, às vezes inconveniente, mas sempre sensual – do povo carioca.

Bala Perdida em Berlim

O filme tropa de elite ganhou o Urso de Ouro em Berlim e isso é bom para o cinema brasileiro, ponto. O filme tropa de elite ganhou o Urso de Ouro em Berlim e isso não é bom para os brasileiros, ponto. É ponto de vista, o meu. E vou morrer defendendo a liberdade de expressão de quem discorda de mim, ponto final.

Na ocasião do lançamento do filme no Brasil eu escrevi neste blog que considerava o filme de José Padilha muito bom, mas que, infelizmente, trazia uma mensagem fascista, expressa em vários aspectos. Pra começar, o tratamento de herói dado ao capitão Nascimento, fazendo dele uma figura simpática com a qual é fácil se identificar. E, no entanto, o personagem é um facínora, torturador, sanguinário. O filme mostra a corrupção na polícia, e isso é bom, pois talvez esteja aí a raiz do problema de toda essa violência. Porém, ele comete o grave erro de colocar no mesmo saco traficantes, usuários de droga e moradores da favela. E pau neles!

Eu rezo na cartilha de Paulo Emílio Sales Gomes, o célebre crítico de cinema, para quem o pior filme brasileiro é sempre melhor que o melhor filme estrangeiro. Digo isso como justificativa para a minha primeira assertiva aí em cima. Para explicar a segunda, evoco o mais recente e abominável episódio de criança atingida por tiro de fuzil na favela. Foi na sexta-feira passada, durante operação da Polícia Civil na Rocinha. Eu estava em São Paulo e li nas manchetes dos jornais aquela velha história que tanto excita e assusta os paulistas, a balela da "bala perdida".

Bala perdida uma ova! Vamos aos fatos. Às 13h começa uma operação da Polícia Civil na favela da Rocinha para encontrar um paiol de armas e prender o chefe do tráfico local. Uma menina de onze anos brinca de videogame com o pai, dentro de casa. Eles ouvem o movimento de carros e o pai vai à janela ver o que está acontecendo lá fora. Quando a menina coloca a cabeça na outra janela, os policiais atiram e acertam dois tiros, um no pescoço e outro no braço da criança. O pai vê de onde partiram os tiros e os próprios policiais ajudam a levar a menina para o Miguel Couto. Ágata Marques dos Santos chega ao hospital já morta. Na operação foram presos dois traficantes (pés de chinelo, é claro) e apreendidos uma pistola, maconha, crack, cocaina e munição. Precisa dizer mais?

Só pra finalizar, faço ainda duas declarações: sou terminantemente contra qualquer tipo de operação policial, civil ou militar, nas favelas e periferias das cidades enquanto os órgãos de segurança não provarem que podem agir com planejamento, inteligência, cautela e respeito pelos moradores dessas comunidades. Sou radicalmente contra qualquer mensagem de glorificação da brutalidade policial.

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Relaxa & Goza

Há um movimento no Rio, meio espontâneo, meio conduzido, no sentido de esticar o carnaval até o final de semana seguinte. Eu dou força. Primeiro porque nada acontece nos dois dias subseqüentes à quarta-feira de cinzas. Então deixa a festa continuar, pelo menos para atenuar a ansiedade de quem quer ou precisa trabalhar. Depois, porque acredito que o Rio de Janeiro deve assumir definitivamente sua vocação turística e incrementar o calendário de eventos, investir recursos e somar esforços para trazer o maior número possível de visitantes e tentar mantê-los por mais tempo aqui. No Brasil, gabinetes de turismo deveriam ter importância estratégica. Mas não, a escolha para essas pastas se faz por conchavo ou acomodações políticas. E o povo que fique no relaxa e goza, até bem apropriado no caso do Carnaval...

Mas a onda de estender a folia tem dado muito certo. É só conferir o desfile das campeãs, que faz a noite mais alegre do sambódromo. O desfile do Monobloco, hoje, em Copacabana, foi sucesso absoluto e garantiu lugar de destaque na agenda prolongada. Outro evento que está firmando tradição, e um dos que eu mais gosto, é o Balmasqué do Sofitel.

O baile existe há três anos, acontece na sexta-feira pós-carnaval, e com muito sucesso mantém a qualidade da versão original. O espaço é magnífico, um andar inteiro do hotel no posto 6, no cantinho de Copacabana, com a vista de toda a praia na grande varanda decorada com mesas e sofás, juntinho ao Forte de Copacabana, este ano com a roda-gigante colorida arrematando a paisagem.

O salão é amplo e luxuoso, com um grande palco para a orquestra, mesas de quatro, seis e até doze lugares e dois grandes camarotes. A orquestra é ótima e o repertório atende a todos os gostos no carnaval. Mais marchinhas, sambas tradicionais e um pouquinho de axé. Entre o salão e a varanda há um enorme lobby, todo decorado para a festa com muito espaço para as pessoas se encontrarem e conversarem, por onde, a cada meia hora, passa a bateria de uma escola de samba. Ali, as mesas largas e avulsas são dispostas com folga pra quem quiser sentar-se para jantar. Ah, o jantar... Esse é, há três anos, o ponto alto do baile. Um grande bufê com a maior variedade de iguarias, mantido do início ao fim da festa com as mesmas qualidades: gostoso, bem apresentado e bem servido.
Há ainda no mesmo andar três salões menores decorados como um lounge, um camarim, um boudoir, e uma boate superrefrigerada com música de discoteca. A bebida é servida com fartura. Além dos bares montados por todos os cantos, garçons experientes passam suas bandejas com constância confortável entre a gente bonita e bem vestida.
Mas essa festa não tem defeito?, você há de perguntar. Tem, e é justamente a freqüência, “boa” demais.
Ora, os poucos convidados são escolhidos a dedo e a grande maioria paga um convite de preço justo, porém alto. O traje exigido é black tie, longo ou fantasia de luxo, fato que seleciona o público ainda mais. Há muitos hóspedes estrangeiros do próprio hotel e executivos das empresas francesas sediadas no Brasil concorrendo para manter o nível igual da festa. A sociedade carioca já comparece em peso ao evento e este ano ainda havia um grupo de eminentes intelectuais.
É claro que eu me diverti e encontrei muitos amigos, gente que não via há tempos, gente boa e interessante para conversar, mas festa bacana tem que ter mistura, contraste, e aqueles convidados que por si só já são um happening, um acontecimento espontâneo e natural. Havia, sim, um Jorge Salomão aqui, uma Roberta Close acolá, mas já muito comportados, não eram os mesmos de outros carnavais. E carnaval tem que ter bagunça, bafafá, tumulto, confusão; tem que ter aquela turma prestes a perder a linha, aí o ambiente se descontrai e rola logo um legítimo relaxa e goza no salão.

Será que ele é?

Se é carnaval, nada mais natural que cair na farra, encher a cara, meter o pé na jaca e etc. e tal. Até porque isso foi combinado lá atrás, na idade média, entre a Igreja e os mortais. Seriam três dias de folia e irreverência. Homens e mulheres iriam para as ruas com total liberdade, usariam disfarces e máscaras, comeriam até fartarem-se e beberiam até cair. O objetivo era extravasar ao máximo para depois passar os 40 dias da quaresma em profundo recolhimento, jejuns, penitências e orações, e purgar as culpas e se purificar antes de reviver o período mais dramático da vida de Cristo.
A superexposição de emoções durante três dias, contra o retiro espiritual-afetivo a que somos obrigatoriamente conduzidos pela vida afora é o que mais me agrada na festa profana. E a possibilidade que as pessoas têm de realizar suas fantasias metidas em fantasias é o mais engraçado de se ver. Muito interessante ainda é observar como os homens se divertem travestidos de mulher. Lembro que, garota, fui com meus pais passear em Friburgo num dia de carnaval, e tive a forte impressão de que, naqueles dias, todos os homens da cidade iam para as ruas vestidos de mulher. Eram bandos de marmanjos de sapato alto, saia justa, sutiã, colares, pulseiras, brincos, batom, peruca e etc. Fiquei tão impressionada que desde aquele dia, e por muito tempo depois, matutei sobre porque diabos um homem gosta tanto de se fantasiar de mulher.
O tempo passou e eu aprendi com a vida, a literatura e o cinema que há mais mistérios entre o céu e a terra, e passei a me preocupar mais com assuntos comezinhos. Porém nesta semana, depois de dois dias de chuva forte o tempo se abriu pra ver a banda de Ipanema passar. E o bairro mais alegre do Rio foi pra rua comemorar o último dia de carnaval. Era gente chegando de tudo quanto é lado, descendo dos prédios, da favela, vindo em direção à praia na maior animação, transformando o calçadão na grande passarela de blocos da cidade. É claro que tinha de tudo ali, mas o que mais se via eram homens vestidos de mulher. Homens mais velhos, mais jovens, de todas as tribos, de eskatistas a mauricinhos, todos bem à vontade, passeando de um lado para o outro, alguns de mãos dadas com a namorada, outros paquerando, bebendo ou só zoando, mas todos vestidos de mulher.

Voltei a cismar com esse assunto... No próximo carnaval, vou fazer uma enquete, entrevistar antropólogos e psicólogos, falar com o povo nas ruas e tentar descobrir porque, depois de ir à lua,fazer a revolução digital, o projeto genoma e inventar o celular, o homem continua com a mesma fixação, uma espécie de misoginia ao contrário. Ao ponto de querer agora, pra completar a desgraça, gastar rios de dinheiro para criar de uma vez por todas o espermatozóide de mulher. Vai entender?

É Carnaval...

Ontem, sexta-feira, fui ao baile à fantasia do Estrela da Lapa com um ex-namorado. Ele me convidou para ser seu par e juntos acompanharmos um casal de ingleses que veio ao Rio para o carnaval. O inglês é fotógrafo de cinema e trabalhou com meu ex, ano passado, num filme comercial. A mulher é a namorada dele.
Como o baile era na lapa, numa das casas noturnas mais bonitas que eu já vi, aceitei o convite sem nem me preocupar em esclarecer em que condições iríamos, eu e meu ex, formar um par. É que a Lapa tem apelos difíceis de recusar; uma luz mágica, toda aquela gente na rua, gente de todo o tipo, inclusive gente triste que sempre gosto de olhar. Também queria conhecer a Lapa em ritmo de carnaval, os turistas excitados, os travestis cobertos de purpurina, com o mínimo coberto de paetês, as mulheres enfeitadas, inflamadas de más intenções, e os homens de sorriso largo...
Uma festa já na calçada! Entramos relutantes, mas o baile podia estar bom e não queríamos perder um minuto de diversão. Lá dentro estava bacana, do teto chovia confete e serpentina e O Galo Cantou atacava o terceiro set de sambas tradicionais e marchinhas de carnaval. Fomos levados para uma ótima mesa, nem tão perto do salão que não nos permitisse um breve aquecimento antes de cair na folia, nem tão longe que perigasse desanimar. A cerveja correu farta, bem gelada, e a caipirinha foi nota 10.
O casal de ingleses chegou enamorado e com o tempo, a cerveja, a música, a alegria, foi ficando cada vez mais apaixonado e lá pelas tantas eram duas almas num canudo só. Meu ex me olhava insinuante com seus olhos claros de cristal, mas eu só via refletido neles o meu triste desencanto. E quando ele chegou mais perto tentando me beijar, dei uma pirueta na cadeira e tirei-o pra dançar. Ele entendeu e, elegante, me seguiu pelo salão; então pulamos carnaval sem flerte e sem malícia, como só fazem os irmãos.
Voltamos pra casa alta madrugada, a Lapa já embriagada com os odores e as dores de fim de noite. Num ritmo assim dolente nosso carro cruzou os Arcos, o rádio sintonizado numa FM qualquer. “How could you mend a broken heart...” cantei distraída, acompanhando os românticos Bee Gees. O inglês, que estava com a namorada no banco de trás, percebeu um fio de melancolia em minha voz, e com a fleugma que lhes é particular, mandou essa na seqüência: “Darling, if you have a broken heart, break it again!”
Achei uma boa dica pra começar o carnaval. Boa sorte pra vocês!

Blog Spot

Saudade é uma idéia interessante..., pode ser a falta que se sente de alguém ou de alguma coisa, a nostalgia de um tempo que já foi ou a saudade do que deixou de ser depois de ser um dia. A saudade do que teria sido é ainda mais estranha, mas na verdade sentimo-la, sem nem mesmo saber se o que teria sido teria sido bom. E aí não é a saudade da coisa ou do tempo, mas simplesmente a saudade do que teria sido se assim o fora. O fato é que pensamos que tudo o que não pôde ser seria melhor se tivesse sido. E seguimos nessa marcha louca idealizando até pessoas. Ou o outro não é tão somente a idéia que fazemos dele? Mas o outro também é uma idéia interessante...
Pregou nela um par de olhos negros, olhos de jabuticaba. Chegou mais perto e convidou-a pra dançar. Seus corpos deslizaram compatíveis. Falou baixinho, ela sorriu e afastou os dentes; beijaram-se demoradamente... E foram nessa marcha louca enlaçados na trança da vida: andam juntos por caminhos separados, sequer falam a mesma língua...
Seguem os dois abismados.

Vale Tudo

Ando meio relapsa com este blog, é verdade. Mas quem consegue render bem nesse tempo louco do Rio de Janeiro? Semana passada, mal se conseguia respirar de tão quente e abafado, veio uma epidemia de gripe e esta semana a temperatura desceu a 16 graus, com garoa e o diabo. Fala sério, ninguém pode ser muito normal num clima desses. Acho até que por conta do tropical úmido quase tudo no Rio acontece de modo tão peculiar, e surpreendente. Foi assim no domingo passado, no propalado Bailinho, no novo Mistura Fina.
O programa era pra ser quase naive; a cada semana (sempre aos domingos) duas celebridades são convidadas para dar uma de DJ na festa que começa ao pôr-do-sol do Arpoador. Uma verdadeira domingueira dançante, como as de antigamente, que se derramavam pelos clubes da cidade, do Country, em Ipanema, ao Democráticos, no Lins de Vasconcellos, na tentativa de alongar ao último segundo as possibilidades do fim de semana. E muito namoro bom começava ali, onde a esperança era renovada a cada gole de cuba-libre enquanto durasse a prorrogação.
O lugar não podia ser mais simpático; o sobrado do Barril 1800, antigo Jazz Mania, onde grandes feras da música instrumental brasileira fizeram apresentações inesquecíveis e aonde as maiores atrações do Free Jazz Festival eram levadas ao fim do seu show, no teatro do Hotel Nacional, para uma esticada na noite. Só que, tarados por música, acabavam dando longas canjas, até o povo se cansar e ir embora dizendo “Ai, não agüento mais esse tal de Wynton Marsalis", ou Herbie Hancock, ou o fera da vez. É que o carioca é assim, só faz a corte de si mesmo e a tudo se acostuma.
Não foi diferente no Bailinho. A cantora Daúde e o dramaturgo e cineasta João Falcão eram os DJs convidados e uma parte do público presente era, por sua vez, de seus convidados (eu inclusive), o que só fazia aumentar a sensação nostálgica de domingueira dançante. Tinha gente de todas as idades a partir de 25 anos e mesas de 5 e 6 casais de meia idade também. Eis que, no meio dessa inquietante normalidade, começam a aparecer mulheres em pares, e de todos os tipos, uns díspares, outros afins. Duas quarentonas magras e altas aqui. Uma senhora já bem passada com uma muito jovem acolá. Uma baixinha bem mulherzinha no seu vestido rodado dançando de mãozinha dada com uma alta de coturno e tatuagens. E duas louras quase gêmeas quase se esfregando no salão. Cruzes! Eu vi, ninguém me contou. É claro que a princípio fiquei chocada pelo inusitado e inesperado da situação. Mas, assim como a vista se acostuma ao escuro, eu me acostumei àquela novidade e senti o ambiente desobrigado e me senti mais livre e fui, sem par, dançar com minhas amigas e meus amigos. E, sabe, fiquei contente de morar no Rio de Janeiro onde vale tudo, vale o que quiser, vale inclusive dançar mulher com mulher.

Programa Tupinambá

A posse do novo secretário do audiovisual, Silvio Da-Rin, com as respectivas promessas e empenhos por parte das autoridades presentes foi amplamente divulgada nos jornais de sábado passado que comentaram inclusive a presença maciça da classe cinematográfica brasileira na solenidade seguida de coquetel no Palácio Gustavo Capanema, sede carioca do Minc. Portanto, vou restringir esse artigo às minhas impressões e experiência pessoais naquela tarde luminosa no Rio de Janeiro.
E viva esse Rio que tem no seu patrimônio um monumento ícone da arquitetura moderna brasileira e mundial, projetado por um grupo de feras como Lúcio Costa, Oscar Niemeyer e Affonso Eduardo Reidy, entre outros, sob a supervisão de Lê Courbusier. O prédio oferece ainda um grande número de obras de arte para a fruição do visitante, a começar pelos painéis de azulejos de Portinari com motivos marinhos dispostos do lado interno e externo do térreo sobre pilotis. Isto quer dizer que um quarteirão inteiro no centro do rio se transforma em praça pública permitindo a passagem de pedestres em todas as direções, e uma notável circulação de ar que faz do logradouro um verdadeiro oásis de frescor em meio à canícula do carioca.
Por essas e outras – como a abertura das amplas portas de vidro do salão onde estávamos para um lindo jardim suspenso projetado por Roberto Burle Marx – é que um compromisso social ou profissional que a princípio parece mais um “programa de índio”, no Rio de tamoios e tupinambás pode até se transformar em boa pedida para matar uma tarde de trabalho.
E foi exatamente o que me aconteceu, pois o celular tocou e era um amigo convidando para assistir a um filme da Mostra Helena Ignez na recém inaugurada Caixa Cultural. Dei um beijo nos mais próximos e saí. Fui andando em direção à esquina da Rio Branco com Almirante Barroso, onde fica o centro cultural com mais de 6.000 m2 distribuídos entre três galerias, dois cinemas, um teatro de arena, uma livraria e um café que deixa a gente pasmada de tão bonito. E o silêncio... e o ar refrigerado... Não resisti e tirei uma fotografia:


Nesse espaço deslumbrante aí de cima, eu e meu amigo tomamos um corretíssimo expresso duplo e fomos assistir A Grande Feira, de Roberto Pires. O filme, de 1961, manifesta a influência do neorealismo italiano no Cinema Novo. Nele, o diretor conta –com longos planos seqüência em tomadas externas de registro documental - a história dos feirantes de Água dos Meninos, em Salvador, ameaçados de despejo por uma empresa imobiliária. Helena Ignez faz o papel de uma dondoca, desprezada pelo marido rico, em busca de aventuras pelos cabarés dos arredores da feira. Quando se apaixona pelo marinheiro(Geraldo Del Rey), está formado o triangulo amoroso que, junto à luta dos moradores para conservar o terreno, representa a estrutura social brasileira dividida entre os ricos e o povo marginalizado.
O filme é bom e o trabalho de Helena Ignez é estupendo. A atriz, aos dezenove anos na época, já demonstra todo o potencial do seu talento de se apropriar dos personagens, como poucas vezes se viu no cinema mundial. Os outros personagens têm nomes: Maria, Chico Diabo, Tonho, Lalá, etc. Helena Ignez é sempre Helena Ignez, porém em perfeita simbiose com a figura dramática que representa.
Com a exibição de 25 filmes em que atuou, o público pode conferir o trabalho autoral desta atriz que inaugurou um estilo de interpretação cinematográfica personalíssimo, de vanguarda mesmo. Um bom exemplo é a sua construção da loura fatal em A Mulher de Todos, de Rogério Sganzerla. Quem viu sua atuação deliciosa dançando por quase dez minutos com uma JunkBox nunca se esquece e pode rever a cena agora nesta programação da Caixa Cultural. Quem não viu, não deve perder a oportunidade na mostra que vai até o dia 20 de Janero, num dos espaços mais bonitos da cidade. Por tudo isso, pego carona na propaganda e faço agora um convite irrecusável ao querido leitor: "Vem pro centro você também!"

A prostituição é mais antiga do que o ser humano

De todas as notícias dessa virada de ano a que mais me interessou foi uma pesquisa publicada na “New Scientist” demonstrando que a prostituição é mais antiga do que o ser humano. Nela, o cientista Michael Gumert, da Universidade Tecnológica de Cingapura, revela que macacos também pagam por sexo. Durante os 20 meses que estudou o comportamento de 50 indivíduos de uma espécie indonésia, ele observou que as fêmeas aceitavam se acasalar em troca de cafuné. Elas, que costumavam fazer sexo uma vez e meia por hora, depois que recebiam o carinho dos machos passavam para uma média de 3,5 vezes por hora. E mais: ficavam menos propensas a se oferecer para outros machos que não os seus parceiros. Ora, disse-me um amigo com quem comentei a notícia, isso não é prostituição, é técnica de sedução, de resto tão antiga quanto a mais antiga das profissões. Pode ser, inclusive há estudos respeitados sobre a evolução do “altruísmo recíproco” entre os macacos, no qual participantes de uma relação podem obter vantagens mutuas se cooperarem entre si. Mas a teoria do altruísmo é o resultado de estudo em comunidades confinadas. A novidade é que esta última pesquisa focalizou um grupo sujeito a movimentos migratórios no qual havendo fêmeas em número suficiente o valor do sexo é menor. Nessa circunstância, um macho poderia “comprar” uma fêmea por oito minutos de cafuné. Quando existiam poucas fêmeas, tinha que fazer o dobro do tempo de carinho para acasalar. Desta forma, o valor do negócio dependeria do contexto, como commodities em economia de mercado.
O assunto caiu como uma luva na indolência dos primeiros dias do ano e, contemplando a vista do Pão de Açúcar da varanda aqui de casa, eu e meu amigo passamos a divagar sobre todo o tipo de negociação que envolve as relações amorosas entre homens e mulheres. Foi então que eu me lembrei de um encontro com uma amiga no aeroporto Santos Dumont, numa manhã em que a forte neblina provocou um atraso de mais de três horas nos vôos da Ponte Aérea. Fomos colegas de ginástica do professor Gaspar (aquele que batia com um bastão no bumbum das alunas) por quase uma década e não nos víamos há alguns anos. Conseguimos duas cadeiras juntas no saguão lotado e tratamos de pôr o papo em dia. Sylvia logo me contou que tinha trocado de marido, estava casada com um rico empresário paulista, que mandara as duas filhas adolescentes estudar na Europa e que depois de uma longa viagem de lua de mel por países exóticos do oriente, voltou a São Paulo para uma vida nova na suntuosa mansão do casal nos Jardins. Fiquei maravilhada com a sorte da colega de malhação. Sorte sim, porque Sylvia não era exatamente uma beldade, apesar de ter a aparência agradável, um sorriso meigo e uma conversa razoável, sem muito brilho, porém plena de feminilidade. Eu sempre a admirei, lembrei-me, talvez por ela transparecer sinceridade. E foi então que lhe disse também muito francamente: “Parabéns amiga, você tirou a sorte grande”. Nesse instante, Sylvia baixou a cabeça, olhou para a mão esquerda com o anel de brilhante quase do tamanho de uma caixa de fósforos e murmurou entre os dentes: “Não é bem assim..., é tudo muito difícil.” Ainda sem fala – meio assombrada com a visão de jóia tão preciosa àquela hora da manhã – apenas ergui as sobrancelhas em sinal de indagação. "Sim", continuou, “ quando chegamos de viagem, no primeiro dia de casados, sentamos à mesa para jantar. Eu, radiante de felicidade, quis contar-lhe o meu dia e mal comecei a falar fui bruscamente interrompida. Com rispidez, ele me disse que havia trabalhado muito, estava cansado e queria silêncio na hora do jantar. Eu emudeci, e assim permaneço durante as refeições.”
Confesso que essa história sempre me comove. E ainda desta vez não consegui conter a emoção. Foi então que o meu amigo chegou bem perto de mim, segurou a minha cabeça com as mãos, passou de leve cada polegar no canto dos meus olhos e perguntou baixinho, só pra eu ouvir: "Quanto tempo você quer de cafuné?"