“O ser humano é otimista por natureza”, foi uma das matérias em destaque nos jornais da semana que passou. Em estudo publicado na revista “Nature”, pesquisadores da Universidade de Nova York conseguiram através de ressonância magnética relacionar a tendência ao pensamento positivo a determinadas áreas do cérebro, responsáveis pela sensação de bem-estar. O estudo revela que grandes níveis de ativação na amígdala e no córtex cingulado anterior combinam com as tendências individuais ao otimismo. Tais mecanismos explicariam, portanto, a inclinação natural dos seres humanos a projetar eventos positivos para o futuro. Por outro lado, problemas de mau funcionamento nessas áreas do cérebro já foram relacionados, em estudos anteriores, a problemas de depressão ligados ao pessimismo.
A divulgação dessa pesquisa foi não apenas uma surpresa para mim, como talvez a oportunidade de elucidar um mistério com o qual venho há tempos matutando. Será que, por causa da alimentação ou talvez de herança genética, quem nasce no Brasil tem essas regiões cerebrais mais desenvolvidas que o normal? Ou o quê mais explicaria o fato de a maioria esmagadora dos brasileiros, de cidadãos cumpridores de seus deveres, acordar todos os dias, levantar e sair de casa para trabalhar? Convenhamos que viver neste país pode ser uma experiência de alto risco, pelo menos para os excluído do seleto grupo de privilegiados que vive amparado pela rede de proteção que o estado e o sistema garantem aos endinheirados e aos formadores de opinião.
Se não, vejamos o que dizem outras matérias em destaque na semana que passou:
“Neurocirurgiões abrem crânio a marteladas” A utilização de furadeiras de marcenaria em neurocirurgias é apenas um dos problemas dos hospitais públicos do Rio, onde se utilizam instrumentos ainda mais rudimentares como martelos e goivas para abrir a cabeça de pacientes com lesões cerebrais...
“Leite longa vida é adulterado até com soda cáustica” A fraude foi descoberta em cooperativas de Minas Gerais que, para ter mais lucro, misturavam soda cáustica, água oxigenada e citrato de sódio ao leite. Setenta e seis por cento do leite líquido consumido pelos brasileiros é longa vida. A Nestlé e a Parmalat teriam comprado o produto adulterado e agora a Polícia Federal fará coleta de amostras de leite em todo o país...
“Um tiro em Copacabana é uma coisa. Um tiro na favela da Coréia, no Alemão, é outra” diz secretário de segurança do Rio em entrevista à rádio CBN: “Buscar os traficantes na Zona Sul, no Dona Marta, no Pavão- Pavãozinho, estou muito próximo da população. É difícil a polícia entrar ali. Porque um tiro em Copacabana é uma coisa...
“Cabral defende aborto para frear fábrica de marginais na Rocinha” O governador Sérgio Cabral afirmou que as altas taxas de natalidade em localidades pobres, como a Rocinha, são verdadeiras fábricas de marginais...
Quer dizer, se a natureza do ser humano é ser otimista, o brasileiro comum é, dos seres humanos, o mais natural. E, se ser otimista é uma questão de ativação na amígdala e no córtex cingulado anterior, o carioca médio sofre de hiperatividade nessa região cerebral.
Razão e Sensibilidade
Embora desconfie de que ninguém agüenta mais discutir Tropa de Elite, peço licença aos meus eventuais leitores para cometer alguma inconveniência e voltar ao assunto uma última vez. Acontece que só agora consegui assistir ao filme. Então, mesmo atrasada, sinto a necessidade de tecer considerações a respeito, caso contrário fica o blog sem razão de ser, pois blog é justamente o espaço que inventaram na internet para quem quiser dizer o que pensa, é a mídia de cada um, sem censura, sem mercado, sem patrão...
Portanto, este é o lugar para contar que tentei ver o filme em casa, no aconchego do lar, e que não consegui. Não por falta de opção, mas porque meu velho aparelho de DVD é elitista e rejeitou todas as cópias piratas que comprei ou tomei emprestadas dos amigos, os quais não vou dedurar, pois se blog tem regra é a de que cada qual faz a sua, e a minha é manter a discrição.
Então, pra encurtar assunto, sou a favor da pirataria por acreditar no princípio da livre iniciativa, pois se é economia de mercado, ele, mercado, que encontre a solução para fazer chegar um produto ao maior número de pessoas, de maneira tal que a coisa se pague por essa via e ainda agregue algum valor. E produtores e distribuidores que briguem com o governo contra o imposto de 47,5%
sobre DVDs, taxa a meu ver exorbitante para produtos culturais, ainda mais num país onde o salário mínimo não passa de 250 dólares.
Dito isso, vamos ao assunto principal: em minha opinião, Tropa de Elite é uma obra reacionária e até fascista na medida em que, no roteiro, no enquadramento e na fotografia, dá ao capitão Nascimento tratamento de herói (e não é à toa que o protagonista é galã de televisão). Tropa de Elite é também um filme muito bem feito e bem dirigido, ironicamente pelos mesmos motivos que o tornam eficiente ao reeditar a velha dicotomia entre o bem e o mal, sem nuances, sutilezas, sem razão e sensibilidade. Mas o pior é que neste caso, trata-se da luta entre o péssimo e o ruim. E, para mim, o mal nunca é a melhor solução, ainda mais quando se trata de ponto de vista numa cidade partida.
Ora, no filme, se de um lado está o tráfico,sem dúvida, fora da lei, do outro está uma patrulha violenta, arbitrária, torturadora e assassina que se arvora o direito de agir em nome da “lei”. No meio da ação, que ocorre à margem do direito formal, infiltra-se a mensagem totalitária de que ou você está do meu lado, ou está contra mim. E o filme se exime, ainda, de qualquer dimensão psicológica ou social ao condenar sumariamente, por exemplo, um adolescente morador da favela por não resistir ao desejo de possuir um tênis importado. Desta forma, defende a tese do livre arbítrio e se engaja numa estética maniqueísta que em nada contribui para aproximar os dois lados partidos desta cidade. É lamentável.
Portanto, este é o lugar para contar que tentei ver o filme em casa, no aconchego do lar, e que não consegui. Não por falta de opção, mas porque meu velho aparelho de DVD é elitista e rejeitou todas as cópias piratas que comprei ou tomei emprestadas dos amigos, os quais não vou dedurar, pois se blog tem regra é a de que cada qual faz a sua, e a minha é manter a discrição.
Então, pra encurtar assunto, sou a favor da pirataria por acreditar no princípio da livre iniciativa, pois se é economia de mercado, ele, mercado, que encontre a solução para fazer chegar um produto ao maior número de pessoas, de maneira tal que a coisa se pague por essa via e ainda agregue algum valor. E produtores e distribuidores que briguem com o governo contra o imposto de 47,5%
sobre DVDs, taxa a meu ver exorbitante para produtos culturais, ainda mais num país onde o salário mínimo não passa de 250 dólares.
Dito isso, vamos ao assunto principal: em minha opinião, Tropa de Elite é uma obra reacionária e até fascista na medida em que, no roteiro, no enquadramento e na fotografia, dá ao capitão Nascimento tratamento de herói (e não é à toa que o protagonista é galã de televisão). Tropa de Elite é também um filme muito bem feito e bem dirigido, ironicamente pelos mesmos motivos que o tornam eficiente ao reeditar a velha dicotomia entre o bem e o mal, sem nuances, sutilezas, sem razão e sensibilidade. Mas o pior é que neste caso, trata-se da luta entre o péssimo e o ruim. E, para mim, o mal nunca é a melhor solução, ainda mais quando se trata de ponto de vista numa cidade partida.
Ora, no filme, se de um lado está o tráfico,sem dúvida, fora da lei, do outro está uma patrulha violenta, arbitrária, torturadora e assassina que se arvora o direito de agir em nome da “lei”. No meio da ação, que ocorre à margem do direito formal, infiltra-se a mensagem totalitária de que ou você está do meu lado, ou está contra mim. E o filme se exime, ainda, de qualquer dimensão psicológica ou social ao condenar sumariamente, por exemplo, um adolescente morador da favela por não resistir ao desejo de possuir um tênis importado. Desta forma, defende a tese do livre arbítrio e se engaja numa estética maniqueísta que em nada contribui para aproximar os dois lados partidos desta cidade. É lamentável.
Rio Messiânico
O único detalhe negativo de uma viagem ao México, a meu ver – além de ter que voltar, claro –, é ter que ficar mofando no aeroporto de Guarulhos por mais de seis horas na ida e na volta. A tortura é conseqüência da ausência de vôo direto entre o Rio de Janeiro e a capital mexicana e da falta de ponte aérea entre Rio e São Paulo no aeroporto paulista, em horários mais próximos aos do vôo internacional. Se atentarmos para o fato de que desde os primórdios da aviação comercial no Brasil os vôos internacionais tinham início no Rio de Janeiro, dar-nos-emos conta de mais uma entre as inúmeras vantagens que a cidade perdeu por conta do vertiginoso esvaziamento econômico que sofre desde os anos 80.
Mas lá se vão quase trinta anos e o carioca continua o mesmo. Depois da praia, vai fazer hora na esquina ou na mesa de um bar. Ali, entre umas e outras, vocifera contra todos, malha governantes do presente e do passado, transita com fluência pelos assuntos mais quentes das esferas federal, estadual e municipal e, de repente, pára tudo para ver uma garota gostosa passar. Então, distraído, muda de assunto para futebol e volta pra casa, satisfeito, em estado de catarse quase total. E dessa forma, docemente, vai entregando de bandeja qualidade de vida para o sumidouro das mazelas que engolfam a sua cidade. Todas já tão nossas conhecidas que nem vale a pena listar.
É verdade que de vez em quando pinta um movimento de resistência, de indignação. Mas começa vago e acaba anêmico. Aconteceu como muitos “bastas” que já vimos por aqui. É que o carioca adora uma moda, mas tem por costume abandoná-la tão logo a novidade pegue, para estigmatizá-la em seguida como aquilo que “já era”. E como por essas bandas ninguém quer “pagar um mico”, fica tudo como está, até que um novo e dramático evento catalise as atenções para mais conversa de bar e, quem sabe, um novo esboço de reação.
Já ouvi dizer que se a capital federal ainda fosse no Rio, ninguém segurava um governo assolado pelo mensalão, muito menos um presidente do Congresso Nacional afundado em escândalo de corrupção. Com perdão da rima, não sei não...
Vejo o carioca de hoje ainda mais contaminado pelo vírus do messianismo do que sempre foi o conformado nordestino. Percebi isso nas conversas sobre o filme Tropa de Elite que, segundo o entendimento de um bom número de pessoas, e para a euforia geral da cidade, oferece ao público a hipótese de um salvador, um Herói Nacional, espécie de D. Sebastião tupiniquim que, se replicado em série, devolveria ao Rio os anos dourados que não voltam mais. É mais um assunto animado pra morrer afogado nos copos de um bar.
Mas lá se vão quase trinta anos e o carioca continua o mesmo. Depois da praia, vai fazer hora na esquina ou na mesa de um bar. Ali, entre umas e outras, vocifera contra todos, malha governantes do presente e do passado, transita com fluência pelos assuntos mais quentes das esferas federal, estadual e municipal e, de repente, pára tudo para ver uma garota gostosa passar. Então, distraído, muda de assunto para futebol e volta pra casa, satisfeito, em estado de catarse quase total. E dessa forma, docemente, vai entregando de bandeja qualidade de vida para o sumidouro das mazelas que engolfam a sua cidade. Todas já tão nossas conhecidas que nem vale a pena listar.
É verdade que de vez em quando pinta um movimento de resistência, de indignação. Mas começa vago e acaba anêmico. Aconteceu como muitos “bastas” que já vimos por aqui. É que o carioca adora uma moda, mas tem por costume abandoná-la tão logo a novidade pegue, para estigmatizá-la em seguida como aquilo que “já era”. E como por essas bandas ninguém quer “pagar um mico”, fica tudo como está, até que um novo e dramático evento catalise as atenções para mais conversa de bar e, quem sabe, um novo esboço de reação.
Já ouvi dizer que se a capital federal ainda fosse no Rio, ninguém segurava um governo assolado pelo mensalão, muito menos um presidente do Congresso Nacional afundado em escândalo de corrupção. Com perdão da rima, não sei não...
Vejo o carioca de hoje ainda mais contaminado pelo vírus do messianismo do que sempre foi o conformado nordestino. Percebi isso nas conversas sobre o filme Tropa de Elite que, segundo o entendimento de um bom número de pessoas, e para a euforia geral da cidade, oferece ao público a hipótese de um salvador, um Herói Nacional, espécie de D. Sebastião tupiniquim que, se replicado em série, devolveria ao Rio os anos dourados que não voltam mais. É mais um assunto animado pra morrer afogado nos copos de um bar.
Sem dó, nem piedade.
É caminhanhando pelas ruas de uma cidade que se descobrem suas peculiaridades e as características mais aparentes de sua gente. Mesmo na cosmopolita Nova Yorque pode-se perceber a vocação da cidade para fazer com que todos sintam-se cidadãos do mundo sem precisar abrir mão de tradições e costumes originais. Assim é no Rio de Janeiro, onde Mick Jagger observou que as pessoas mais dançam do que propriamente andam nas calçadas. Assim é em todo o mundo, acredito, pois conheço menos do nosso planeta do que gostaria e deveria conhecer. E na cidade do México não é diferente. Em andanças por entre ruas e praças ensolaradas, vou colhendo as impressões mais genuínas, colecionando as lembranças mais duradouras.
Apesar de saber que passeio a pé pelas ruas da maior capital da América Latina, tenho quase sempre a sensação de estar numa cidade menor, com menos gente e menos poluída do que indicam os números oficiais. Aqui, há muito céu à vista, há sempre uma brisa no ar mechendo de leve com as folhas das árvores e a sensação do pedestre não é de calor sufocante, apesar do sol forte dessas manhãs de outono.
Observando melhor percebi que a sensação agradável de amplitude e frescor deve-se à grande maioria dos prédios da capital mexicana ser de no máximo seis andares, enquanto em qualquer outra metrópole o mesmo terreno abrigaria um edifício muito maior. É que além de contar com um amplo território para crescer ao seu próprio redor, a cidade do México está sujeita à terremotos e em 1985 sofeu um de mais de 9 graus na escala Richter, o qual destruiu grande parte da cidade, levando abaixo casas, edifícios e prédios públicos, matando milhares de moradores. Com um solo instável, os prédios altos têm construção caríssima, pois precisam estar estruturados em engrenagens hidráulicas de engenharia sofisticada com compensação inversa no mesmo tamanho de sua altura exterior. É claro que se trata de um triste episódio na história da cidade. No entanto, é natural reconhecer as vantagens de ter no céu mais estrelas pra contar.
Outro detalhe importante para o bem estar dos moradores é a quantidade de parques no perímetro urbano. Para cada bairro há no mínimo dois, com muitas árvores, alamedas e jardins. Todos bem cuidados, limpos e desfrutáveis, com bancos confortáveis e sensação de segurança que a própria ocupação dos moradores garante. Andei em muitos deles e não vi população de rua, pedintes, menor abandonado ou menino explorado vendendo chiclete. Vi gente de todas as idades curtindo o espaço público com tranquilidade e postura cidadã, respeito ao próximo e cordialidade entre si.
Passeando por esses lugares, praticando o exercício do tempo largo, meu hobby favorito, percebi que por estas bandas há sempre um sorriso no ar... e um cheiro forte também. É o aroma das frituras, misturas e temperos das comidas feitas a granéu, e vendidas a varejo nas calçadas. São tantas as barracas e é tanta gente comendo ao ar livre, principalmente na hora do almoço, que fica difícil imaginar um meio-fio asseado em tamanha confusão. Mais é, acredite. Não há papel no chão, detritos ou restos de comida espalhados. Todos usam as cestas colocadas próximas às barracas e aproveitam os mais deliciosos quitutes comendo de pé, na mão, em pratinhos de plástico ou no próprio guardanapo. Páreo, só o tabuleiro da baiana, na querida Salvador.
Mas aqui a variedade é que faz a diferença. É um sem número de opções pra freguês nenhum botar defeito. Nos tacos, tortilhas, tortas, guisados, moles, frijoles, cremes, coberturas e recheios, chiles e etc, etc, etc as possibilidades de combinações diversas elevam a oferta a décima potência. E o povo da cidade do México se alimenta assim feliz... Sem culpa, sem dó, nem piedade.
Apesar de saber que passeio a pé pelas ruas da maior capital da América Latina, tenho quase sempre a sensação de estar numa cidade menor, com menos gente e menos poluída do que indicam os números oficiais. Aqui, há muito céu à vista, há sempre uma brisa no ar mechendo de leve com as folhas das árvores e a sensação do pedestre não é de calor sufocante, apesar do sol forte dessas manhãs de outono.
Observando melhor percebi que a sensação agradável de amplitude e frescor deve-se à grande maioria dos prédios da capital mexicana ser de no máximo seis andares, enquanto em qualquer outra metrópole o mesmo terreno abrigaria um edifício muito maior. É que além de contar com um amplo território para crescer ao seu próprio redor, a cidade do México está sujeita à terremotos e em 1985 sofeu um de mais de 9 graus na escala Richter, o qual destruiu grande parte da cidade, levando abaixo casas, edifícios e prédios públicos, matando milhares de moradores. Com um solo instável, os prédios altos têm construção caríssima, pois precisam estar estruturados em engrenagens hidráulicas de engenharia sofisticada com compensação inversa no mesmo tamanho de sua altura exterior. É claro que se trata de um triste episódio na história da cidade. No entanto, é natural reconhecer as vantagens de ter no céu mais estrelas pra contar.
Outro detalhe importante para o bem estar dos moradores é a quantidade de parques no perímetro urbano. Para cada bairro há no mínimo dois, com muitas árvores, alamedas e jardins. Todos bem cuidados, limpos e desfrutáveis, com bancos confortáveis e sensação de segurança que a própria ocupação dos moradores garante. Andei em muitos deles e não vi população de rua, pedintes, menor abandonado ou menino explorado vendendo chiclete. Vi gente de todas as idades curtindo o espaço público com tranquilidade e postura cidadã, respeito ao próximo e cordialidade entre si.
Passeando por esses lugares, praticando o exercício do tempo largo, meu hobby favorito, percebi que por estas bandas há sempre um sorriso no ar... e um cheiro forte também. É o aroma das frituras, misturas e temperos das comidas feitas a granéu, e vendidas a varejo nas calçadas. São tantas as barracas e é tanta gente comendo ao ar livre, principalmente na hora do almoço, que fica difícil imaginar um meio-fio asseado em tamanha confusão. Mais é, acredite. Não há papel no chão, detritos ou restos de comida espalhados. Todos usam as cestas colocadas próximas às barracas e aproveitam os mais deliciosos quitutes comendo de pé, na mão, em pratinhos de plástico ou no próprio guardanapo. Páreo, só o tabuleiro da baiana, na querida Salvador.
Mas aqui a variedade é que faz a diferença. É um sem número de opções pra freguês nenhum botar defeito. Nos tacos, tortilhas, tortas, guisados, moles, frijoles, cremes, coberturas e recheios, chiles e etc, etc, etc as possibilidades de combinações diversas elevam a oferta a décima potência. E o povo da cidade do México se alimenta assim feliz... Sem culpa, sem dó, nem piedade.
Pro Dia Nascer Feliz
No texto anterior eu falei sobre identidade cultural e suas expressões mais populares, a dança em especial. Agora vou falar da comida mexicana que se para os que nasceram e cresceram neste país é a melhor do mundo, para os outros estaria entre as melhores se pudesse ser facilmente industrializada e exportada. Acontece que a genuína comida mexicana é toda feita com produtos naturais daqui ou processados aqui, de maneira muito original e de acordo com a tradição. E bota tradição nisso... Portanto, se, para quem sabe cozinhar, não há muita dificuldade em fazer, por exemplo, um “coc au vin” no Brasil, é quase impossível fazer um “pollo en mole” numa cozinha tupiniquim, mesmo que você tenha um cheff mexicano pilotando o fogão.
Pra começar, o mole, que é uma “salsa” ou molho de consistência firme como a do molho pardo, pode ter até sete cores diferentes, de acordo com o “chile” ou a pimenta correspontente, ou ainda por conta de ervas e outros ingredientes como o chocolate, que para mim faz o melhor dos moles, o vermelho. E são tantas as especiarias contidas nas receitas, algumas tão específicas e típicas que sequer aceitam tradução. Como é quase tudo fresco, ou você as encontra na feira, ou no mercado da esquina, ou então... esqueça, segure a água na boca até aparecer a oportunidade para visitar este país.
Se eu pudesse, levava comigo na volta para o Brasil uma torta mexicana. Pois não há sanduiche mais apropriado para uma viagem de tantas horas de avião, que alimente e dê tanto prazer. O pão para o acepipe tem origem andaluz, era de segunda, feito de trigo e dado aos trabalhadores. No méxico, as “teleras” , como são chamadas aqui , são feitas de farinha branca. Elas têm o tamanho da circunferência de uma mão e altura de quatro a cinco centímetros, são abertas horizontalmente para que, retirado o miolo, recebam camadas e camadas de recheios, os mais variados. A minha preferida é a tradicional, na qual se passa, num dos lados do pão, uma pasta de feijão amassado e frito coberta de tiras de dois tipos de pequenas pimentas em molho de escabeche. Depois vem uma camada de creme ácido como o nosso creme de leite, só que mais consistente e muitíssimo mais saboroso. Sobre isso vão várias camadas de presunto, frango, carne de porco e toucinho frito, uma camada de fatias de tomate e uma fatia grossa de qualquer queijo, ao gosto do freguês. O outro lado do pão é coberto com uma camada espessa de abacate amassado, temperado com sal a gosto. Junta’se então as duas partes do pão e come’se a torta com a mão, e uma profusão de guardanapos.
No dia seguinte, já de manhã, sentiria saudade das galletas, guloseima obrigatória no desjejum mexicano. Um misto de bolo e biscoito, são mais durinhas que o financier francês e mais crocantes que a cavaquinha portuguesa, são redondas, com aproximadamente 6 cm de diâmetro e meio centímetro de espessura. Como os biscoitos são assadas no forno e feitas de massa de farinha de trigo fermentada no levedo e muita manteiga também. Podem trazer salpicadas na massa pedacinhos de nozes, passas ou chocolate.
Experimente mergulhar uma galleta até a metade numa xícara de café bem quente, depois leve’a á boca e sinta a massa amanteigada se desmanchando na língua... Hummmmm! É a minha receita predileta para o dia nascer feliz.
Pra começar, o mole, que é uma “salsa” ou molho de consistência firme como a do molho pardo, pode ter até sete cores diferentes, de acordo com o “chile” ou a pimenta correspontente, ou ainda por conta de ervas e outros ingredientes como o chocolate, que para mim faz o melhor dos moles, o vermelho. E são tantas as especiarias contidas nas receitas, algumas tão específicas e típicas que sequer aceitam tradução. Como é quase tudo fresco, ou você as encontra na feira, ou no mercado da esquina, ou então... esqueça, segure a água na boca até aparecer a oportunidade para visitar este país.
Se eu pudesse, levava comigo na volta para o Brasil uma torta mexicana. Pois não há sanduiche mais apropriado para uma viagem de tantas horas de avião, que alimente e dê tanto prazer. O pão para o acepipe tem origem andaluz, era de segunda, feito de trigo e dado aos trabalhadores. No méxico, as “teleras” , como são chamadas aqui , são feitas de farinha branca. Elas têm o tamanho da circunferência de uma mão e altura de quatro a cinco centímetros, são abertas horizontalmente para que, retirado o miolo, recebam camadas e camadas de recheios, os mais variados. A minha preferida é a tradicional, na qual se passa, num dos lados do pão, uma pasta de feijão amassado e frito coberta de tiras de dois tipos de pequenas pimentas em molho de escabeche. Depois vem uma camada de creme ácido como o nosso creme de leite, só que mais consistente e muitíssimo mais saboroso. Sobre isso vão várias camadas de presunto, frango, carne de porco e toucinho frito, uma camada de fatias de tomate e uma fatia grossa de qualquer queijo, ao gosto do freguês. O outro lado do pão é coberto com uma camada espessa de abacate amassado, temperado com sal a gosto. Junta’se então as duas partes do pão e come’se a torta com a mão, e uma profusão de guardanapos.
No dia seguinte, já de manhã, sentiria saudade das galletas, guloseima obrigatória no desjejum mexicano. Um misto de bolo e biscoito, são mais durinhas que o financier francês e mais crocantes que a cavaquinha portuguesa, são redondas, com aproximadamente 6 cm de diâmetro e meio centímetro de espessura. Como os biscoitos são assadas no forno e feitas de massa de farinha de trigo fermentada no levedo e muita manteiga também. Podem trazer salpicadas na massa pedacinhos de nozes, passas ou chocolate.
Experimente mergulhar uma galleta até a metade numa xícara de café bem quente, depois leve’a á boca e sinta a massa amanteigada se desmanchando na língua... Hummmmm! É a minha receita predileta para o dia nascer feliz.
A mulher e a Dança no Mexico
A forte identidade cultural mexicana não me surpreendeu, uma vez que, como quase todo o mundo, aprendi na escola o grau de desenvolvimento das civilizações pré´hispanicas e o quanto a herança do desenvolvimento social de Mayas e Astecas contribuiu para a formação desta identidade. Obviamente têm importância fundamental em tal fromação a cultura do colonizador espanhol, assim como a dos resistentes indígenas mexicanos. Há, inclusive, uma pitada da indole francesa, com a vinda do imperador Maximiliano e seu exercito de trinta mil homens, em meados século XIX. Naturalmente que esse processo é vivo, dinämico e reflete ainda as consequéncias do intercambio cultural, social, politico e economico mais recente entre paises da america latina, principlamente na segunda metade do seculo passado.
Toda essa gama de crenças, costumes e tradições, impostas ou não pelo elemento dominador de turno, tomadas ou cambiadas entre as nações vizinhas revela’se, de uma forma ou de outra, nas diferentes manifestações culturais e artisticas das quais a capital mexicana é prodiga.
Das expressões mais populares, a dança está em toda parte por aqui. Nos festejos da Independencia havia palcos com orquestra e cantores montados onde hovesse comemoração, oficial ou não. Numa tarde de sãbado, vi aulas de dança de salão ao ar livre. Eram vãrias classes espalhadas por entre as ãrvores e jardins de uma praça. Ao som de aparelhos do tipo mini’sistem portateis, professores e alunos ensaiavam coreografias bem elaboradas. Em formação, disciplinados senhores alunos esperavam a sua vez de dar a mão as mestras bailarinas. Eram vãrios grupos como esse espalhados pela praça, os sons se embricando ao ouvido do visitante flanador.
Fui a outros lugares de dança. Todos com musica ao vivo executada por ótimas bandas e orquestras, muitas de origem cubana: o que vem acrescentar ainda mais sabor e suingue ao programa. Alguns desses lugares são mais sofisticados, talvez com diferenças sutis dentro de um perfil cosmopolita. Nos mais autênticos e nos mais populares, pude perceber um traço comum no comportamento de homens e mulheres que me fez pensar ... aqui, cabe ao homem entreter a mulher. É dele o espetáculo. Sempre consiente no seu posto de conquista, ele se esmera nos passos, evolui faceiro sua coreografia, percebe o olhar de seus pares e estufa com satisfação o peito. Enquanto isso, a dama o acompanha na mais discreta performance. Náo chega a ser sisuda, mas apenas sorri levemente, aprovando, quando o espetaculo dele é excepcional. E o homem, por mais gabola que seja, estã sempre consciente da corte. Ela de ser cortejada. Confesso a vocês que, com excessão das porta’bandeiras, nunca vi mulheres com postura mais digna num salão, quase indiferentes.
Toda essa gama de crenças, costumes e tradições, impostas ou não pelo elemento dominador de turno, tomadas ou cambiadas entre as nações vizinhas revela’se, de uma forma ou de outra, nas diferentes manifestações culturais e artisticas das quais a capital mexicana é prodiga.
Das expressões mais populares, a dança está em toda parte por aqui. Nos festejos da Independencia havia palcos com orquestra e cantores montados onde hovesse comemoração, oficial ou não. Numa tarde de sãbado, vi aulas de dança de salão ao ar livre. Eram vãrias classes espalhadas por entre as ãrvores e jardins de uma praça. Ao som de aparelhos do tipo mini’sistem portateis, professores e alunos ensaiavam coreografias bem elaboradas. Em formação, disciplinados senhores alunos esperavam a sua vez de dar a mão as mestras bailarinas. Eram vãrios grupos como esse espalhados pela praça, os sons se embricando ao ouvido do visitante flanador.
Fui a outros lugares de dança. Todos com musica ao vivo executada por ótimas bandas e orquestras, muitas de origem cubana: o que vem acrescentar ainda mais sabor e suingue ao programa. Alguns desses lugares são mais sofisticados, talvez com diferenças sutis dentro de um perfil cosmopolita. Nos mais autênticos e nos mais populares, pude perceber um traço comum no comportamento de homens e mulheres que me fez pensar ... aqui, cabe ao homem entreter a mulher. É dele o espetáculo. Sempre consiente no seu posto de conquista, ele se esmera nos passos, evolui faceiro sua coreografia, percebe o olhar de seus pares e estufa com satisfação o peito. Enquanto isso, a dama o acompanha na mais discreta performance. Náo chega a ser sisuda, mas apenas sorri levemente, aprovando, quando o espetaculo dele é excepcional. E o homem, por mais gabola que seja, estã sempre consciente da corte. Ela de ser cortejada. Confesso a vocês que, com excessão das porta’bandeiras, nunca vi mulheres com postura mais digna num salão, quase indiferentes.
A Festa em Coyoacan
A gente não parava de chegar pelos quatro cantos de Coyoacan. Muitos jovens, muita criança pequena com pais e avos ao lado, muitos casais de namorados... todos indo em direção a praça do bairro mais brejeiro da cidade para festejar o dia da independencia e dar o Grito da Liberdade. E todos, de todas as idades, de alguma forma, traziam no corpo as cores da bandeira. Fosse na roupa, no adereço ou na cara pintada, nas mascaras ou nos chapeus, o verde-branco e vermelho estava sempre aa mostra, evidente e leve, sem arrogancia, sem exagero, mas com muito bom humor. Como de resto estavam todos naquela noite, cantando distraidos os boleros que a orquestra levava com grandiloquencia no alto do coreto armado especialmente para a ocasião.
Ao redor da praça, e nas ruas de acesso ao local, perfilava’se uma autentica quermesse, com barracas de tiro ao alvo e desafios similares, os premios os mais variados pendendo do teto, inclusive os enormes sombreiros tricolores. Havia tambem um sem numero de barracas de comida, e doces de todos os tipos formavam piramides multicoloridas nos tabuleiros salpicados por entre as outras atrações.
De todas as coisas da festa, não sei dizer o que havia de mais atraente, se as cores, os aromas os sabores... so sei que tudo isso junto me inebriou ao ponto de me fazer, aos berros, dar vivas ao Mexico, aa sua independencia, aa liberdade da nação e vivas mais eu daria, ate mesmo ao diabo se o danado ali fosse invocado. E nesse transe juvenil regressivo, trepada numa mureta, estiquei o corpo o mais que pude, ate quase cair, para ver melhor os fogos de artiificio que começavam a estourar por tras da torre da igreja.
Ao redor da praça, e nas ruas de acesso ao local, perfilava’se uma autentica quermesse, com barracas de tiro ao alvo e desafios similares, os premios os mais variados pendendo do teto, inclusive os enormes sombreiros tricolores. Havia tambem um sem numero de barracas de comida, e doces de todos os tipos formavam piramides multicoloridas nos tabuleiros salpicados por entre as outras atrações.
De todas as coisas da festa, não sei dizer o que havia de mais atraente, se as cores, os aromas os sabores... so sei que tudo isso junto me inebriou ao ponto de me fazer, aos berros, dar vivas ao Mexico, aa sua independencia, aa liberdade da nação e vivas mais eu daria, ate mesmo ao diabo se o danado ali fosse invocado. E nesse transe juvenil regressivo, trepada numa mureta, estiquei o corpo o mais que pude, ate quase cair, para ver melhor os fogos de artiificio que começavam a estourar por tras da torre da igreja.
Batalha do Barulho
No dia do grito, sabado a noite, evitamos a praça da constituiçao, onde fica o Palãcio Nacional, a catedral e outros impotantes predios publicos, por conta de uma disputa politica que quase levou o local a ser palco de uma batalha campal. Acontece que ali montavam guarda, ha dias, os seguidores de Lopez Obrador, candidato derrotado nas eleiçõs do ano passado aa presidencia da republica. Tentaval impedir que o presidente Felipe Calderon cumprisse o ritual da celebração, dando ele mesmo o Grito de Independencia, ãs 23 horas, como reza o costume nacional.
Do lado de Calderon, que ganhou a eleições no tapetão, segundo leio nos jornais, estavam as forças da repressão, com fileiras de soldados vestidos de civis misturados aa multidão. Mas não foi isso que mais nos assustou porque, no fundo no fundo, acho que ninguem apostava no confronto generalizado. A verdadeira razão de buscarmos uma comemoração alternativa foi a batalha do som. Eh que para a festa do Grito, o governo madou vir um equipamento de som considerado o mais potente da America Latina. Do outro lado, a turma do ˜voto a voto˜, que acusa de ilegitimo o governo atual, levantou altos recursos e espalhou pela praça equipamentos que em conjunto superavam em muitos decibeis a parafernalia oficial. Dizem que o barulho era tanto que na noite anterior, quando os dois lados testavam o audio de suas respectivas artilharias, ninguem podia conversar num raio de cem metros de distancia do local.
Fomos, então, felizes da vida para Coyoacan, bairro tradicional com jeito de Santa Teresa e onde morou Frida Kallo, assistir a comemoração de independencia mais bacana que jã vi. Depois eu conto mais...
Do lado de Calderon, que ganhou a eleições no tapetão, segundo leio nos jornais, estavam as forças da repressão, com fileiras de soldados vestidos de civis misturados aa multidão. Mas não foi isso que mais nos assustou porque, no fundo no fundo, acho que ninguem apostava no confronto generalizado. A verdadeira razão de buscarmos uma comemoração alternativa foi a batalha do som. Eh que para a festa do Grito, o governo madou vir um equipamento de som considerado o mais potente da America Latina. Do outro lado, a turma do ˜voto a voto˜, que acusa de ilegitimo o governo atual, levantou altos recursos e espalhou pela praça equipamentos que em conjunto superavam em muitos decibeis a parafernalia oficial. Dizem que o barulho era tanto que na noite anterior, quando os dois lados testavam o audio de suas respectivas artilharias, ninguem podia conversar num raio de cem metros de distancia do local.
Fomos, então, felizes da vida para Coyoacan, bairro tradicional com jeito de Santa Teresa e onde morou Frida Kallo, assistir a comemoração de independencia mais bacana que jã vi. Depois eu conto mais...
O Grito de Dolores
os mexicanos também tem seu grito de independencia, o Grito de Dolores, que como o nosso do Ipiranga faz referencia ao lugar onde ocorreu o ato. onde foi tomada a decisao de náo se submeter jamais aos designinos do colonizador. um símbolo nacional de soberania e autodeterminacáo que aqui tem identidade popular. Diferentemente do brado retumbante do portuguës, filho do rei --- äs margens de um rio palulista que ninguém sabe onde fica, e que teve como testemunha uma dúzia de soldados e seu tutor político e marqueteiro mor José bonifácio –––, o Grito de Dolores saiu da boca do povo e por ele foi ouvido. Mobilizado, é claro, por membros da elite religiosa e política da colonia, mas engajado de corpo e alma na luta pela liberdade, o mexicano fez sua independencia, e isso faz a diferenca.
Mexico Urgente
cheguei a cidade do mexico ontem de madrugada, depois de quinze horas de viagem, contando rio-são paulo e sp-mexico. ontem mesmo, a noite, levaram-me para ver o movimento no centro, onde serão realizados os festejos do dia da independencia. muita gente, a maioria familia com pais, filhos e avõs, acorria ao local das comemorações para ver a decoracção dos predios publicos, espetáculos musicais e de fogos de artificio e, principlamente, a mim pareceu, para dar expressao a um forte sentimento de patriotismo. nao impota tanto se sabem ou náo a história da independëncia e o papel de cada um dos heróis retratados em formas gigantes desenhadas por milhares de lampadas suspensas em fios presos nos vaos entre os predios em torno da praca do palácio do governo federal. mais interessante é que tenham gana em comemorar uma data que representa a conquista de sua soberania. ...
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