Mergulhada em livros

Ando mergulhada em livros. É o meu trabalho atual. Devo ler uma média de quatro por semana, e mais as pesquisas sobre os respectivos autores, e ainda teses e dissertações sobre o assunto que os reuniu e que será tratado no próximo programa da série que criei e que apresento na televisão. Quando paro de ler, está na hora de escrever. Aí é o roteiro do programa ao vivo, o roteiro das entrevistas externas gravadas, os espelhos dos roteiros, e mais um arrazoado sobre o tema, relatórios e atas de reuniões, a pauta..., reportagens... Ufa, está certo que eu gosto de ler e escrever, mas o volume de textos a construir e consumir é tal que outra noite me peguei sonhando com letras que subiam e desciam, formavam caminhos que se transformavam em labirintos. E eu, distraída, acabava me enveredando pelas alamedas de fícus frondosos e compactos, quase maciços, podados em linhas retas formando paredes intransponíveis, cada folha uma letra compondo com as mais próximas, para cima ou para baixo ou ainda para os lados, as palavras que junto a outras construídas da mesma maneira e nas mais variadas direções compunham o enigma a ser decifrado, a minha linha de Ariadne, a chave para a saída daquele bosque cubista assustador, que a essa altura pareceu-me ainda mais tenebroso, pois senti alguma vibração ao meu redor, primeiro muito sutil, umas folhas-letras se movendo levemente, parecendo vibrar ao movimento da minha respiração, mas logo percebi que mais à frente outro grupo de folha-letras se movia e as palavras que eu já havia construído e selecionado para justapor a outras, de maneira a fazerem juntas algum sentido, começavam a se embaralhar. E eu perdia o fio da meada. Segui, o pé no chão frio de terra, os olhos atentos aos significados, mais um grupo de folhas-letras se moveu, separando-se da parede verde compacta, e pude ver os galhinhos se insinuando para a frente, crescendo, num movimento ainda lento, porém contínuo, um geotropismo negativo e irregular. Ora um ramo, ora outro, e mais outro, como se fossem parte de um organismo que começava a despertar. Vou em frente, tenho pressa, já não procuro letras, não há como formar palavras, tento imaginar outra maneira de tudo fazer algum sentido quando um galho mais robusto se levanta, e vem rápido em minha direção, sua extremidade em garras estaca em frente aos meus olhos, meu coração bate forte, devo me acalmar, é só o vento. Vejo as plantas que já começam a se libertar das formas rígidas, já não formam mais um muro como os de uma prisão, porém a respiração da coisa aumenta e nesse momento o céu escurece, depois torna a clarear, olho para o alto e vejo a lua fugir das nuvens numa corrida frenética, um vai-e-vem maluco, sua luz relampejando sobre os galhos que já começam a crescer mais rapidamente e as folhas se movem chacoalhando letras que se apagam de verde escuro, muito escuro, e os galhos cada vez maiores, e o labirinto vai se transformando num bosque, um emaranhado de galhos que se fecha mais à frente e eu me volto assustada, tenho muito medo, quero retornar, mas pressinto que a coisa está me observando, talvez tenha alma de fera, quem sabe se assanha com o cheiro de pavor. Paro. Tento me controlar, quero raciocinar, buscar uma saída, penso em rezar, mas não há tempo, nem palavras de oração. Nessa hora a lua se liberta e eu vislumbro adiante uma clareira, decido ir naquela direção, me agacho e passo por entre as sebes que agora se fecham atrás de mim; vou rastejando, sempre em frente... Não é possível retornar. Essa convicção me dá um certo alívio, não há mais dúvida, não há o que decifrar, é seguir, seguir por entre as árvores agora formando unidades independentes, delineadas, com tronco e copas frondosas, crispadas, a me aterrorizar. Crio coragem, quero enfrentar suas formas tenebrosas, claudico. Uma baforada de ar quente sopra em minhas costas, viro-me para trás, sinto um cheiro ácido e úmido. É hálito, é coisa viva, não sei se é ainda pior, nem sei bem o que pensei, pois nesse momento o chão começa a se mover para cima e eu sou empurrada para a frente, obrigada a apressar o passo, e corro, corro muito, sentindo a coisa se avolumar e sua sombra quase me alcançar, e reúno forças, e corro ainda mais rápido, meus pés descalços sobre a superfície lisa da luz, olho para traz e a coisa já forma um rolo compressor de escuridão, vem devorando tudo, engolindo a própria sombra, eu ganho distância, ganho chão iluminado, olho novamente para trás, vejo a coisa-escuridão se consumindo no próprio breu, mais compacta, mais densa, a se concentrar em si mesma até desaparecer em trevas.

Agora tudo é luz, meus rosto inundado de luz branca e intensa...

A luz da luminária acesa na mesa de cabeceira, o livro aberto sobre o peito, meus óculos caídos no chão... Respiro fundo, vejo as horas no relógio à minha frente, são quatro da manhã. Ajeito os travesseiros, puxo a coberta mais para cima, ponho os óculos e começo a ler a segunda parte de “A espinha dorsal da memória”, o livro de Braulio Tavares. É o melhor entre os escolhidos para o próximo programa sobre ficção científica.


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Fatos e Fotos

Aí em baixo são fotos da entrevista que fiz com Moacyr Luz sobre os sambistas que fizeram a crônica da cidade. Gravamos em Santa Teresa, numa linda tarde de verão. As locações são (na ordem) o Bar do Mineiro e a Casa de Cultura Laurinda Santos Lobo. O programa vai ao ar na próxima quinta-feira, na Band Rio, e eu espero que vocês gostem.
Outra coisa que eu quero contar é que só volto a escrever neste blog daqui a uma semana, pelo menos. Peço desculpas, mas o fato é que estou com um probleminha de LER, vocês sabem, quando isso acontece é preciso evitar usar o computador por um período de tempo, fazer acupuntura e exercícios de alongamento. Prometo que vou me esforçar para ficar logo boa. Abraços.



São fotos da entrevista que fiz com Moacyr Luz sobre os sambistas do Rio. Vai ao ar no programa desta semana. Quinta-feira, às 14.00hs, na band.

Copacabana engana

Copacabana engana quem acredita que vida noturna bacana no Rio só a da Lapa ou do Leblon, para ficar nos dois extremos de gosto que fazem desses pólos de lazer e gastronomia os preferidos da mídia e, por conseguinte, os mais visitados por turistas dos outros estados do Brasil.

Ipanema há muito que anda desanimada. Quando acaba o verão, depois das seis da tarde, o bairro, facilmente comparável ao paraíso durante o dia – a praia deslumbrante com as pessoas mais bonitas, alegres e charmosas ao redor – , cai numa escuridão de dar medo. Com exceção da Farme de Amoedo, a única a enfileirar bares e restaurantes, as ruas ficam desertas e alguém em seu juízo perfeito não se arriscaria a cruzar seus quarteirões com os pertences à vista.

Botafogo conta com um bom número de bares e restaurantes. Tem cinema e teatro também. Porém distantes entre si. Não dá para ir de um lugar a outro sem ouvir soar o alerta de “perigo, perigo, perigo...”, como diria o simpático robô de Perdidos no espaço.

Já Copacabana, desprezada como opção noturna nas últimas décadas, entre outras coisas por causa da onda dos “baixos”, celebrizados em outros bairros pela juventude boêmia decidida a esticar até o dia seguinte a féerie da noite anterior, está batendo um bolão em relação aos seus congêneres da Zona Sul. Vou aqui reproduzir meu programa de ontem à noite pra você avaliar se há exagero na premissa desta crônica.

Fomos ao Espaço Sesc, um prédio moderno e confortável, na rua Domingos Ferreira, assistir à peça Espia uma mulher que se mata. Para assegurar dois lugares na récita das 21:30hs chegamos uma hora antes ao local. Estacionamos o carro bem pertinho e rapidamente compramos os ingressos ao preço módico de dezesseis reais a inteira. Fomos então fazer a horinha que faltava no Cafeína da Constante Ramos, a poucos metros dali. Lá, tudo é gostoso. Eu escolhi um capucino médio, servido com financier. Meu amigo pediu um rocambole de morango com suco de laranja (não há nada como malhar duas horas por dia para liberar o apetite). Um lanche perfeito para cada qual segurar a fome até depois da sessão.

Gostamos da peça, uma releitura de Tio Vânia, de Tchekhov. O texto do argentino Daniel Veronese mantém o sentido original de crítica à decadência de uma família da aristocracia rural, na Rússia do final do século XIX, no momento em que questiona o esforço para garantir a inútil pompa intelectual de um dos seus membros, que vive na cidade às custas do trabalho árduo dos que administram a propriedade no campo.

Roberto Bomtempo, na pele de Tio Vânia, mostra um belo amadurecimento como homem e ator. O resto do elenco me pareceu apenas correto. Com exceção de Mirian Freeland que faz Sônia, a sobrinha. Papel sempre cobiçado por jovens atrizes estreantes, representa uma garota romântica, ingênua e resignada, mas que tem na força de caráter um grande apelo junto ao público. A atriz desperdiça as possibilidades do personagem com uma interpretação caricata. É um detalhe que incomoda mas não chega a comprometer a direção do também argentino Marcelo Subiotto. E o melhor foi conferir a quantas anda o teatro dos “hermanos”. Vai bem, obrigado.

Às onze da noite saímos do teatro e fomos a pé escolher na redondeza um lugar para beber, comer e conversar sobre a peça. Foi quando nos surpreendemos com a quantidade de opções num mesmo quadrilátero. Logo na primeira esquina tem a pizzaria Caprichosa. Já na Avenida Atlântica, há o bar do Hotel Pestana, aberto para o mar e com uma iluminação muito bonita. Indo mais à frente tem o tradicional Dom Camilo, com a parte fechada e mesas no calçadão. Juntinho, o Copa Café, mais escurinho e bem mais sofisticado. Ao lado, o novo Devassa com o seu público jovem habitual. Aí já estávamos na esquina com a Bolivar... Então, é só voltar em direção à Avenida Copacabana para encontrar o Belmonte que, além de um chope pra ninguém botar defeito e um caldo verde dos legítimos, tem sempre lugar pra mais dois. Como se vê, boas opções para todos os gostos, propósitos e poder aquisitivo. E ainda há os restaurantes tradicionais de Copa, como o Caravelle. Tudo em dois quarteirões com os botequins repletos de gente bebendo e conversando nas calçadas. Quando Voltamos para o carro, já passava de meia-noite, foi aí que lembramos que andando na direção contrária ao mar, há na Constante Ramos a mais autêntica crêperie da cidade. Deixamos para a próxima, que sempre haverá uma oportunidade para curtir, numa boa, a princesinha do mar.


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Outono no Rio

A tempestade desabou justo na hora de sairmos para o show do João Donato no Espaço Tom Jobim, no Jardim Botânico. Havíamos combinado ir juntas naquele mesmo dia à tarde, quinta-feira passada, feriado de São Jorge. O espetáculo começaria daí a uma hora e só mesmo invocando o santo guerreiro para nos proteger da chuva torrencial e do vento forte que soprava sobre o Rio de Janeiro. Pensei que o programa tinha micado, mas em menos de meia hora o tempo melhorou. Por via das dúvidas calcei botas e, munida de guarda-chuva, fui buscar Fafá em Laranjeiras.

No carro, fomos conversando assuntos relacionados ao show que iríamos assistir, como as histórias que João Donato me contara um dia, numa entrevista. Uma delas relatava o fato de ele ter trocado o acordeon pelo piano, lá atrás, quando veio do Pará e tocava na orquestra do Goldem Room do Copacabana Palace. Na época, ele e João Gilberto eram camaradas e costumavam se encontrar depois do expediente para beber e tocar pelo Beco das Garrafas e boates da Avenida Princesa Isabel. Acontece que João Donato passava da conta e só no dia seguinte dava falta do instrumento, largado em algum inferninho visitado na noite anterior. Foi João Gilberto quem lhe sugeriu, pelas razões óbvias, e ele concordou, num rasgo de sensatez, que o melhor seria tocar piano. E foi assim que graças à contração da inteligência minimalista de João Gilberto com o talento descomunal de joão Donato, somos brindados há décadas com o teclado suingado do músico paraense.

A essa altura, a chuva arrefecera ainda mais, porém o trânsito não estava nada bom. O jeito era continuar jogando conversa fora. Lembrado que estávamos a caminho do Espaço Tom Jobim, Fafá contou que conhecera o músico há muito tempo, quando, no frescor dos seus dezessete anos, acompanhava vez por outra o tio boêmio pela noite da cidade. Uma vez, já bem tarde, no Degrau, o dono do restaurante desceu a porta de correr que dava para a rua decretando a lotação da casa. De repente, ouviu-se uma batida na ondulação reverberante do aço e em seguida a voz do lado de fora dizendo que era o Antônio. Imagina se vão abrir a porta para um Antônio qualquer?, pensou Fafá. Mas o dono foi até lá e deu passagem a Antônio Carlos Jobim que adentrou o recinto calmamente e, para alegria da jovem, sentou-se ao seu lado. Fafá conta que o maestro só falava de Shakespeare, por quem andava obcecado ultimamente. Foi chato?, perguntei. De forma alguma, respondeu Fafá. Inclusive minha amiga guardou por muito tempo um guardanapo onde o compositor de Garota de Ipanema reproduzira os versos do bardo inglês de que mais gostava. Estava claro que aquela fora mais uma das célebres obsessões passageiras de Tom Jobim. Chato é o sujeito que fica com a mesma mania a vida inteira, concluímos rindo gostosamente enquanto estacionávamos o carro dentro do Jardim Botânico.

Pensei até que encontraria uma plateia vazia, pela facilidade que foi encontrar uma vaga sobre o chão de pedrinhas britadas, entre as árvores frondosas da alameda que leva ao teatro. Pois o moderno auditório, amplo e todo revestido de madeira (com selo de boa procedência, é claro) estava lotado. Sentamo-nos na última fila de cadeiras super confortáveis, também de madeira, desenhadas por João Bird, um arquiteto amigo de Fafá. A luz logo se apagou e, sob aplausos entusiasmados, os músicos tomaram seu lugar no palco. João Donato, ao piano, apresentou o grupo: nada menos do que Luiz Alves no baixo e Robertinho Silva na bateria. Tinha ainda percussão, saxofone, flauta e trompete. Eles atacaram de Amazonas, Café com Pão e Tardes de Verão. Que delícia! Donato anunciou um bolero que acabara de compor em parceria com Nelsinho Mota. A letra é fraquinha, mas o que importa a letra no som de João Donato? Como se tivesse me ouvido e quisesse dirimir minha dúvida, o músico mandou em seguida seu clássico Bananeira.

Mais algumas pérolas e Paulinho Jobim entrou no palco, pegou o violão, e disse que iriam tocar uma música inédita que ele havia encontrado no baú do pai, feita em parceria com João Donato, que nem se lembrava do fato. Quando eu me lembro... é o nome da canção, anunciou Donato às gargalhadas fazendo alusão a suas conhecidas distração e falta de memória. Ótima de letra e música. Saiu Paulinho Jobim, entrou Jacques Morelembaum que tocou lindamente. Chamaram ao palco Paula Morelembaum. Aproveitei para ir comprar amendoim... Quando voltei, a cena era desconcertante. Ao som da hiperdançante Porque nasci para bailar, Paula e Paulinho cometiam passos, os mais desengonçados, enquanto faziam o vocal justamente do refrão ( "Porque nasci, nasci para bailar...") De quem foi a idéia? Desta vez não houve resposta. Mais duas músicas e um único bis deram por encerrado o show que abriu as comemorações de 60 anos de carreira de João Donato que, na minha opinião, faz disparado o melhor som da MPB. A clássica mistura de bossa nova e jazz, aperfeiçoada na longa temporada em que morou nos Estados Unidos, com forte influência da música caribenha, região que frequentou por anos, tocando em navios de cruzeiro, no início da carreira.

Saímos andando devagarzinho junto com a audiência que parecia estar de alma lavada. Via-se pela calma nas atitudes e leveza das fisionomias ao nosso redor que a música de João Donato além de boa faz bem. Fomos nos dirigindo para o carro, respirando o ar puro com cheirinho de mato e terra molhada do Jardim Botânico. Na volta pra casa, quase não falamos. O que dizer depois de curtir uma autêntica noite de outono no Rio de Janeiro?

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Para Augusto

O TriBoz fica na cabeceira da Lapa, e como tal se comporta. Não é mais uma casa de samba, como outras tantas e boas que proliferam nas transversais da Mem de Sá, a verdadeira coluna vertebral do bairro boêmio do Rio. Localizado na esquina da Rua Conde de Lages com a Rua Taylor, portanto mais para a Glória do que para o Centro da Cidade, o bar, que também tem nome de Centro Cultural Brasil-Austrália, é um lugar de Jazz e Bossa Nova.

Que novidade! Um programa mais leve, pra quem quer sair com os amigos, tomar um drinque e conversar, sem a azaração e a superlotação costumeiras dos bares daquela região nos fins de semana. E sem trânsito atravancado para os que vêm da Zona Sul. Mas com o charme de estar no Rio Antigo, de passear pelas balaustradas centenárias de ferro batido do Largo da Glória, sob as luminárias em estilo colonial, por entre o casario da redondeza, com suas fachadas de pedra de cantaria. Porque ir para este lado da cidade à noite já é parte do programa. Penetrar em suas ruas sombrias, reduto tradicional dos travestis que desfilam sobre os paralelepípedos úmidos de sereno a sua elegância indiscra, de humor barato e picardia afiada, é curtir, já no caminho, o folclore do lendário bairro carioca.

E faz bem quem vai de taxi, pois apesar de ter estacionamento rotativo bem próximo ao local, ninguém está livre de se deparar na volta com uma blitz da Lei Seca que anda rondando o Centro do Rio em qualquer dia da semana. E também ninguém merece encarar um bafômetro como anticlímax de um programa tão legal. Ainda mais sábado à noite, como a de ontem, quando fui encontrar amigos para ouvir o piano personalíssimo de Mávio Ceribelli junto com uma turma de bons músicos, e a canja de jovens cantoras que salpicavam a noite com brilhos na roupa e na voz.

O dono do TriBoz é o Mike Ryan, um músico australiano PhD em Etnomusicologia, pela Universidade de Sydney. Sua tese de doutorado foi sobre contribuições da música e cultura brasileiras para a Austrália, no período de 1971 a 1984. Pesquisa de campo realizada entre imigrantes brasileiros em Sydney. Mike mora desde 1991 na mesma Rua Taylor onde montou seu bar, foi professor da Escola de Música da UFRJ, que fica pertinho dali, e desenvolve programas sociais de oficina de músicas com a comunidade local.

Além disso, Mike é bom trompetista e cantor afinado, com suingue e tom aveludado na voz de tenor. Ele recebe pessoalmente cada freguês na entrada até a lotação da casa por volta de dez da noite. Depois, é aproveitar o som, mas sem fanatismos. Dá pra conversar à vontade durante os longos e gostosos sets de repertório variado entre standards americanos e o melhor da MPB. E a postura dos frequentadores é bem essa. Nada de psius dos aficionados de jazz. Mas também sem a irreverência estúpida do público de churrascaria. O TriBoz é um lugar elegante, com um bom ar-condicionado, serviço ágil, cardápio adequado (só frios), mesas e cadeiras confortáveis e decoração leve. Se eu tivesse que mexer em alguma coisa ali, diminuiria um pouco a luz. E só.

Por tudo isso, o programa foi um sucesso. Ao final da noitada, estávamos todos muito alegres por curtir um bom som, e satisfeitos em botar o papo em dia. Fomos embora prometendo voltar lá pra semana. Não sei se o faremos, mas nossa expressão foi sincera e o desejo mais do que justificado; pois quem trabalha de segunda a sexta, seu sábado não pode e não vai desperdiçar.


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O coração pode se regenerar !

“Não vou à festa hoje. Acordei machucada, com os olhos inchados e corpo doído; minha alma ralada já purga o afeto desfeito em inúmeras tentativas de se tornar amor. Não suportaria, com a moral assim surrada, ver seus olhos caçadores. De sentidos aguçados pela dor, rapidamente descobriria sua próxima presa para em seguida invejá-la, ainda que sabedora de seus prováveis futuros infortúnios.

E na festa haveria a contradança que não poderia aceitar com os sentimentos desse jeito estropiados pela memória de outras baladas de passos acertados, rostos colados e desejos prometidos que não se entrelaçariam na coreografia estéril de corações agora desencantados.

E se a tudo sobrevivesse, trazendo no rosto um sorriso simulador da indiferença postiça recorrente nos salões, ainda assim não teria fôlego para enfrentar a emoção de sentir nossos corpos compatíveis para em seguida experimentar a vertigem abismal da indiferença afiada do seu humor excêntrico.

Sinto uma tristeza imensa... “


Uma declaração como a do texto transcrito acima mostra um coração partido. O tom é exagerado, como é exagerada a emoção das pessoas normais no momento em que percebem que tudo acabou e a relação não tem volta. “Have a broken hart? Brake it again”, disse-me, um dia, um calejado conhecedor das dores do amor. Pois não é que ele estava absolutamente certo, como um vencedor de “O céu é o limite", de Jota Silvestre. Se ainda me restava alguma dúvida a respeito do cínico ditado anglo-saxão, dissipei-a ao ler no jornal de ontem o seguinte título: SUECOS DESAFIAM DOGMA E MOSTRAM QUE O CORAÇÃO PODE SE RENOVAR. A matéria, na página de Ciência do Globo, diz que foi quebrada a convicção da medicina de que o músculo cardíaco é incapaz de produzir novas células. Afirma ainda que cerca de metade delas são trocadas ao longo da vida, e conclui que o coração, diferentemente do que se imaginava, é capaz de se regenerar.

Desta forma, e respeitando a metáfora que associa o órgão vital à sede dos sentimentos, saúdo a todos os que não pouparam emoção ao longo da vida e, por intuição ou mesmo condição existencial, apaixonaram-se a valer. Por terem aproveitado ao máximo o potencial de recuperação das suas células afetivas, convoco-os a regozijar-se agora. Propondo ainda que, de cabeça erguida, digam aos que um dia os acusaram de ser volúveis como a roleta, que nesses tempos de pós-tudo a vida é mesmo assim; morre-se hoje mil vezes. E com a certeza de que terão amanhã o coração renovado, convido-os a cantar comigo o clássico de Cole Porter: Let’s do it, let’s fall in love”


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Blecaute ecológico

Escrevo às vinte e uma horas e dois minutos. Acabo de voltar da varanda do apartamento, de onde vejo o bairro da Urca e Niterói. Embaixo, o parque do Flamengo está inteiramente às escuras e me parece tenebroso nesta noite chuvosa. A Urca tem cerca de oitenta por cento das luzes apagadas, e vê-se que o pessoal que mora no finalzinho do bairro, o mais animado, é antenado com os movimentos de conscientização ecológica como o desta noite, pois os últimos prédios da Avenida João Luiz Alves desapareceram na escuridão. Os moradores da Avenida Portugal, a primeira da orla e onde mora o rei Roberto Carlos, também aderiram totalmente ao apagão da ecologia deixando um rastro de breu aos pés do Pão de Açúcar, que vejo às escuras pela primeira vez.

Adoro essas mobilizações cívicas e além de me engajar - sempre de leve e sem pregação, é claro - gosto de ver tanta gente com o mesmo sentimento, em congraçamento, um aconchego até. É como se dissessem uns aos outros: "Hei, você não está sozinho, bicho!"

E por falar em bicho, volto da varanda, de onde fui me certificar de que Niterói (terra dos queridos minhocos, além de Araribóia) arrebentou na Hora do Planeta. Normalmente, vistas daqui, Icaraí e Itaipú formam duas meias-luas de brilhantes, de tão intensa que é a luz na capital fluminense. Pois para governo dos indiferentes ao aquecimento global e à crise de energia que se avizinha, as duas praias estão totalmente apagadas. Só se vê a tênue iluminação pública. UM show!(mesmo que às avessas)

Bem, vou me despedindo por aqui porque não quero perder o espetáculo das luzes acendendo todas ao mesmo tempo. Até mais.

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Viagem

Uma das coisas que gosto de fazer é navegar no Google Earth. Passo horas descobrindo os lugares mais distantes e interessantes. Quando leio nos jornais ou em algum livro o nome de uma cidade ou país desconhecido, ou ainda se alguma informação renova em mim o interesse por um lugar já visitado, vou ao programa que permite ao internauta um passeio instantâneo mundo afora. Faço isso à noite, com as luzes apagadas, tendo apenas a tela do computador como janela de onde parto para a misteriosa viagem pelo espaço sideral. Dali, mergulho em direção ao planeta Terra. Detenho-me a certa distância, de onde posso admirar o recorte dos continentes pousados sobre a superfície imóvel dos oceanos. Aos poucos vou me aproximando enquanto giro o globo terrestre para localizar meu destino; encontro o país desejado e vou descendo mais, devagarzinho, no intuito de conhecer a divisão política, divisar os estados ou províncias, observar os acidentes geográficos, as montanhas e os rios, alguma escarpa, o litoral, se houver. Desço mais um pouco até que apareçam os nomes das cidades, parto para a escolhida e me ponho a flanar por entre ruas, alamedas e praças. Procuro tenazmente os chafarizes – meus monumentos preferidos por alegres e generosos que são. Se encontro um espelho d'água me encanto com a imagem das nuvens duplicada, um pedaço do céu no chão.

Há ainda as estações de trens; prédios largos com dois ou três andares e frontispício imponente. Fico cismando com tudo o que pode acontecer ali; as tramas de alegrias e tristezas trançadas em chegadas e partidas, a desolação de quem fica e a angústia da espera – a dor da separação; a atmosfera de humores diversos, fusão de medo e cansaço, e o cheiro perturbador de ansiedade no ar. Mas sempre haverá mais encontros do que desencontros numa estação de trens. Essa convicção me anima a seguir as grandes avenidas para ver onde vão dar. Nos bairros suburbanos há os parques e florestas, os campos de futebol, os terrenos baldios e as casas com quintal. Diviso a única com uma árvore frondosa nos fundos. Dentro dela mora um homem solitário de hábitos frugais e modos silenciosos. Quantos amores penou, que segredos esconde, quais memórias rumina em sua poltrona puída de saudade e solidão? Prefere os licores aos destilados; tem os olhos secos, os punhos cerrados, o coração corroído de desgostos e a boca torta de tanto negar? Se algum acesso me permitisse esgueirar-me por entre as carcomidas paredes desse mundo, entraria solene em sua fortaleza de indiferenças e o tiraria pra dançar.

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