Está em circuito comercial no Rio e em São Paulo o filme Condor. Aproveito a ocasião para reproduzir aqui a análise crítica que fiz do documentário de Roberto Mader, publicada no livro O que o cinema vê, o que vemos no cinema; uma coletânea de depoimentos de diretores e análises críticas para estimular o debade dos filmes do
35º Festival de Cinema de Gramado.
********
As ditaduras militares marcaram a ferro a história da América Latina na última metade do século passado. Sustentadas pelo interesse dos Estados Unidos em manter a hegemonia política e econômica na região, em plena guerra fria, constituíram regimes de exceção, amordaçando a imprensa, imobilizando parlamentos, rasgando constituições e cooptando a justiça e parte da igreja.
Foi um período marcado pela violência contra vozes dissonantes; pessoas eram presas, torturadas e mortas. No campo das idéias, a regra era manter o controle sobre o imaginário popular com hinos e slogans de cunho fascista. Até mesmo a semântica foi violentada no Brasil para chamar de revolução o golpe militar de 64. Ora, em uma sociedade submetida à força da repressão, só o reconhecimento da história oral possibilitaria a investigação legítima sobre o tema, suplantando o obscurantismo desejado pelas forças reacionárias.
Recuperar o passado sombrio e construir a memória dos anos de chumbo para as gerações que não tiveram relação direta com a dolorosa experiência das ditaduras militares foi a tarefa seguinte. A ela se entregaram intelectuais, escritores, jornalistas e cineastas. Nesse contexto, surgem filmes antológicos como A História Oficial, de Luiz Puenzo, e Batalha do Chile, de Patrício Guzmán, entre outros não menos importantes.
O documentário de Roberto Mader, Condor, é mais uma obra determinada a cumprir essa missão. Por muitos anos contestada pelas forças da direita, a parceria sinistra firmada entre os governos de exceção da Argentina, Uruguai, Chile e Brasil para esmagar a mais tênue articulação de esquerda no Cone Sul – sob os auspícios dos Estados Unidos, sabe-se hoje – foi confirmada quando parte da documentação da CIA sobre o assunto tornou-se pública. Com esse material e um cuidadoso trabalho de pesquisa, o escritor norte-americano John Dinges escreveu o livro The Condor Years.
O escritor é um dos depoentes do documentário, assim como políticos, militares e ex-militantes dos dois lados, garantindo o mínimo de isenção a que se pode chegar numa questão política. Isso é bom. Pode-se conferir, por exemplo, o cacoete de apropriação indébita nas hostes direitistas em uma fala de Jarbas Passarinho. A certa altura de seu depoimento, o ex-senador fala de “nossos mortos” referindo-se às vítimas da Operação. Nossos de quem? Podemos perguntar ao lado da avó de duas crianças contrabandeadas e dadas para adoção no Chile, depois de verem seus pais serem assassinados no apartamento onde moravam na Argentina.
Esse e outros episódios trágicos relacionados à Operação Condor são contados no documentário pelas próprias vítimas, em depoimentos contundentes e cheios de humanidade. Mader junta ainda provas e documentos para montar um painel do que foi aquele teatro do absurdo, onde as evidências eram desqualificadas e somente a persistência das famílias atingidas e a diligência dos comprometidos com a verdade permitiu trazer à luz fatos por tanto tempo recalcados, contribuindo grandemente para a reconstrução da memória dos países envolvidos.
Essa é uma página da história mundial, como tantas outras, de crimes contra a humanidade, que não se deve virar: ao contrário, são episódios que devemos pesquisar, que devemos perscrutar até onde preciso para por fim às dúvidas sobre fatos e responsabilidades. E depois lembrar o que não deve ser esquecido para que não se repitam os mesmos erros. Essa função cabe cada vez mais ao cinema com a capacidade que tem de envolver corações e mentes. E, sejamos justos, neste sentido, a chamada sétima arte tem dado uma contribuição de valor inestimável também para a história da humanidade.
Leila Richers
Realidade X Ficção
Mergulhada em trabalhos com prazo em vias de vencer, ando impedida de ir ao teatro, ao cinema ou a qualquer outro evento que me proporcione assunto para este blog. Leio todos os dias o jornal, mas ali também não encontro inspiração para um artigo relevante neste final de ano com jeito de retrospectiva requentada. Então, para não desapontar meus leitores, decidi inverter novamente os gêneros neste espaço - reservado para comentar o factual, e publicar uma peça da minha pobre imaginação, inspirada no mais recentemente divulgado patrimonio cultural da Venezuela:
Suíte Zona Sul
"Que merda! A gota de vinho caiu no debrum de renda chantilly do penhoar de seda branca. Bebia a segunda garrafa do melhor vinho da adega. A boca anestesiada, a cabeça ainda a mil. Filho da puta! De caso com uma cantora, nova musa do verão. As amigas insinuaram; no Country o assunto da ruiva hype ou cool ou qualquer porra dessas foi mais do que indireta. Procurou, encontrou o fio de cabelo longo e cobreado na dobra do paletó. Canalha! Se esbaldando nas sardas da plebéia alazã enquanto ela, terceira geração de mulheres lindas e lânguidas, em baixo da barraca, sem uma manchinha de sol.
Sentiu a onda de tesão irradiar do estômago para o púbis e dali por entre as pernas... Dava agora mesmo pro porteiro mulato, e dava no elevador pra fazer escândalo na Vieira Soto. Bebeu mais vinho e acendeu outro cigarro. Abandonada nunca! Até hoje nenhum caso na família, clã da aristocracia carioca. Matava o safado primeiro. Foi do salão pro escritório, abriu a gaveta da escrivaninha e pegou a arma. Mirou na foto do marido, com os pais no dia da formatura. Patife também tem mãe! Caiu em prantos e foi tropeçando nos soluços assoar o nariz no banheiro da suíte. Passou pelo quarto e ouviu o som alto da televisão. Sentou-se na beira da cama para ver a apresentadora. Olhando nos seus olhos a loura da madrugada anunciou a notícia do próximo bloco: SOCIALITE MATA O MARIDO POR CIÚMES
Acendeu três cigarros na seqüência deixando todos pela metade. Na volta dos comerciais soube do caso em São Paulo. Foi pra janela e escancarou a vidraça. Encarou o vão negro do oceano assustador. Sentiu a maresia lamber o seu rosto, na boca o gosto de sal... Repetir a perua paulista, nem morta, que mico maior ninguém pode pagar. Suspirou fundo e planejou investir numa boa chantagem."
Suíte Zona Sul
"Que merda! A gota de vinho caiu no debrum de renda chantilly do penhoar de seda branca. Bebia a segunda garrafa do melhor vinho da adega. A boca anestesiada, a cabeça ainda a mil. Filho da puta! De caso com uma cantora, nova musa do verão. As amigas insinuaram; no Country o assunto da ruiva hype ou cool ou qualquer porra dessas foi mais do que indireta. Procurou, encontrou o fio de cabelo longo e cobreado na dobra do paletó. Canalha! Se esbaldando nas sardas da plebéia alazã enquanto ela, terceira geração de mulheres lindas e lânguidas, em baixo da barraca, sem uma manchinha de sol.
Sentiu a onda de tesão irradiar do estômago para o púbis e dali por entre as pernas... Dava agora mesmo pro porteiro mulato, e dava no elevador pra fazer escândalo na Vieira Soto. Bebeu mais vinho e acendeu outro cigarro. Abandonada nunca! Até hoje nenhum caso na família, clã da aristocracia carioca. Matava o safado primeiro. Foi do salão pro escritório, abriu a gaveta da escrivaninha e pegou a arma. Mirou na foto do marido, com os pais no dia da formatura. Patife também tem mãe! Caiu em prantos e foi tropeçando nos soluços assoar o nariz no banheiro da suíte. Passou pelo quarto e ouviu o som alto da televisão. Sentou-se na beira da cama para ver a apresentadora. Olhando nos seus olhos a loura da madrugada anunciou a notícia do próximo bloco: SOCIALITE MATA O MARIDO POR CIÚMES
Acendeu três cigarros na seqüência deixando todos pela metade. Na volta dos comerciais soube do caso em São Paulo. Foi pra janela e escancarou a vidraça. Encarou o vão negro do oceano assustador. Sentiu a maresia lamber o seu rosto, na boca o gosto de sal... Repetir a perua paulista, nem morta, que mico maior ninguém pode pagar. Suspirou fundo e planejou investir numa boa chantagem."
Internet, praia e empadinhas...
Caros leitores, peço desculpas pela longa ausência e ainda por não ter dado satisfação alguma do motivo que me afastou tanto tempo deste blog. Acontece que por conta de uma infiltração resultante das chuvas de meados de novembro, fiquei sem internet, e isso na véspera de uma viagem à Florianópolis onde passei uma semana em Canasvieiras, uma praia de areia branquinha e mar listado de azul e verde... E quando a vida real é sombra e água fresca, só um tarado vai pensar em realidade virtual. Agora, de volta ao mundo cruel e com o problema da rede resolvido, publico aqui um conto, torcendo para que caia no agrado de vocês:
A Empadinha
O que eu menos gosto em ser velha é andar assim curvada, com a cabeça lançada pra frente, feito esganada pra abocanhar o tanto de vida que me resta. E o corpo vindo atrás, remanchando, como que apegado demais aos escassos últimos gostos.
Um pouco de sol de manhã, o sono pesado depois do almoço, lembranças ao entardecer, e a televisão no fim do dia. No meio da novela eu cochilo e muitas vezes até durmo, e aí eu ronco que só vendo. Mas ninguém vê, eu moro só. Sozinha eu vou para a cama, sozinha durmo e acordo, sozinha passo meus dias entre os quatro cantos deste apartamento. Às vezes abro a janela, mas fecho logo depois. Tenho medo do que possa entrar por ela. Um golpe de ar, uma bala perdida, o mosquito da dengue. Um ladrão só se for voando porque é andar alto, mas se vê cada coisa hoje em dia...
A janela só fica aberta quando o meu filho vem. Se não, ele reclama, diz que está abafado, que é preciso deixar ventilar, que ar fresco é bom pra saúde, e isso e aquilo. Eu não concordo com nada disso, mas finjo que sim para não perder tempo, não o meu que tenho de sobra, mas o dele que fica menos de uma hora.
Quando vem me visitar, o meu filho traz uma empadinha de palmito, a minha preferida. Só uma, porque mais o médico proíbe. Eu não acredito que possa fazer mal uma coisa tão boa como a empadinha que o meu filho traz pra mim todas as semanas, só finjo que sim porque esse é o nosso segredo, ele nos torna cúmplices na travessura de me fazer mal à saúde. E isso me faz bem ao coração.
Quando o meu filho chega, abro a porta de casa já procurando a prenda. Ele, com o braço levantado, sacode o pulso no ar fazendo balançar o saquinho de papel lustroso que segura pela ponta da dobra comprimida entre o indicador e o polegar. Então, olhamos um para o outro, e trocamos um sorriso gêmeo.
Depois, ele me beija o rosto e entra pela casa, perfumando o ambiente com o cheiro do salgado. De vez em quando eu sonho com esse cheiro e sinto na ponta da língua o farelo da farinha desmanchar, sinto a boca encerada de gordura e o gosto quente do recheio. Os pedaços moles de palmito, eu os engulo bem devagar. A azeitona eu não como, nem mesmo quando estou acordada.
É na mesinha da sala que fazemos a partilha. Lá , quando o meu filho chega, já estão os copos, a jarra de água, o prato limpo, e a faquinha bem afiada. Primeiro eu abro o saquinho, depois, com cuidado, coloco a empadinha sobre o prato e, então, corto a guloseima em dois pedaços iguais. O pedaço com a azeitona é do meu filho, o outro é para mim. Sentados comemos, bebemos, e ficamos assim quietos, olhando um para o outro, esperando o tempo passar.
A Empadinha
O que eu menos gosto em ser velha é andar assim curvada, com a cabeça lançada pra frente, feito esganada pra abocanhar o tanto de vida que me resta. E o corpo vindo atrás, remanchando, como que apegado demais aos escassos últimos gostos.
Um pouco de sol de manhã, o sono pesado depois do almoço, lembranças ao entardecer, e a televisão no fim do dia. No meio da novela eu cochilo e muitas vezes até durmo, e aí eu ronco que só vendo. Mas ninguém vê, eu moro só. Sozinha eu vou para a cama, sozinha durmo e acordo, sozinha passo meus dias entre os quatro cantos deste apartamento. Às vezes abro a janela, mas fecho logo depois. Tenho medo do que possa entrar por ela. Um golpe de ar, uma bala perdida, o mosquito da dengue. Um ladrão só se for voando porque é andar alto, mas se vê cada coisa hoje em dia...
A janela só fica aberta quando o meu filho vem. Se não, ele reclama, diz que está abafado, que é preciso deixar ventilar, que ar fresco é bom pra saúde, e isso e aquilo. Eu não concordo com nada disso, mas finjo que sim para não perder tempo, não o meu que tenho de sobra, mas o dele que fica menos de uma hora.
Quando vem me visitar, o meu filho traz uma empadinha de palmito, a minha preferida. Só uma, porque mais o médico proíbe. Eu não acredito que possa fazer mal uma coisa tão boa como a empadinha que o meu filho traz pra mim todas as semanas, só finjo que sim porque esse é o nosso segredo, ele nos torna cúmplices na travessura de me fazer mal à saúde. E isso me faz bem ao coração.
Quando o meu filho chega, abro a porta de casa já procurando a prenda. Ele, com o braço levantado, sacode o pulso no ar fazendo balançar o saquinho de papel lustroso que segura pela ponta da dobra comprimida entre o indicador e o polegar. Então, olhamos um para o outro, e trocamos um sorriso gêmeo.
Depois, ele me beija o rosto e entra pela casa, perfumando o ambiente com o cheiro do salgado. De vez em quando eu sonho com esse cheiro e sinto na ponta da língua o farelo da farinha desmanchar, sinto a boca encerada de gordura e o gosto quente do recheio. Os pedaços moles de palmito, eu os engulo bem devagar. A azeitona eu não como, nem mesmo quando estou acordada.
É na mesinha da sala que fazemos a partilha. Lá , quando o meu filho chega, já estão os copos, a jarra de água, o prato limpo, e a faquinha bem afiada. Primeiro eu abro o saquinho, depois, com cuidado, coloco a empadinha sobre o prato e, então, corto a guloseima em dois pedaços iguais. O pedaço com a azeitona é do meu filho, o outro é para mim. Sentados comemos, bebemos, e ficamos assim quietos, olhando um para o outro, esperando o tempo passar.
Bukowiski em cena
Pão com Mortadela, a adaptação para o teatro do romance Misto Quente de Charles Bukowski, entra hoje nas duas últimas semanas em cartaz, no Rio de Janeiro. Confesso que passei a temporada toda deles no Espaço Sesc, um teatro que gosto e costumo freqüentar, desdenhando a montagem do diretor João Fonseca. Tinha cá com meus botões que uma companhia com atores em torno de vinte anos de idade não poderia se aventurar pelo território devasso do “mosca de bar” a ponto de poder representá-lo em cena.
Bukowiski foi um dos heróis dos anos 70 e 80, com suas histórias autobiográficas de bebedeiras, trepadas, brigas e vadiagem. Conseguiu transformar em literatura os fatos mais corriqueiros da sua vida. Fez da adversidade o leitmotiv de sua poesia. Tratou angustias e dramas pessoais com tal crueza de imagens que logrou converter desventuras em aventuras muito engraçadas, cheias de bobagens geniais.
Como essa garotada de hoje – do mundo pós-aids, submetido à ditadura do politicamente correto – poderia entender o universo depravado e desbocado do “velho safado”, era a pergunta subjacente ao pouco crédito que eu dava ao espetáculo.
Na verdade, só aceitei o convite para ir à Casa da Gávea, às oito da noite do domingo passado, debaixo de chuva forte, porque a proposta era, depois da peça, dividir uma picanha no Hipódromo que fica em baixo do teatro e é para mim um dos melhores bares/restaurantes da cidade. Pra resumir a estória, fui ao teatro com o estômago e saí da peça de cabeça feita.
O elenco dá conta do recado; transita pelo universo do autor com desenvoltura e acerta quando opta por uma interpretação histriônica em algumas passagens, que levam a platéia a boas gargalhadas. O cenário é funcional e elegante. O figurino é agradável e eficiente, na medida em que dá suporte discreto a interpretação sucessiva de muitos personagens.
A dramaturgia de João Fonseca é feliz ao transpor para o palco as agruras da infância e adolescência de Henry Chinaski (alter ego de Bukowski, presente em quase toda a sua obra) em esquetes bem construídos, com equivalência cênica, respeitando a ordem cronológica da narrativa e dando o destaque devido a cada personagem na construção da história. Com isso e com o bom desempenho das interpretações em conjunto, a montagem de Pão com Mortadela garante a unidade do espetáculo e o prazer do espectador, do início ao fim.
Bukowiski foi um dos heróis dos anos 70 e 80, com suas histórias autobiográficas de bebedeiras, trepadas, brigas e vadiagem. Conseguiu transformar em literatura os fatos mais corriqueiros da sua vida. Fez da adversidade o leitmotiv de sua poesia. Tratou angustias e dramas pessoais com tal crueza de imagens que logrou converter desventuras em aventuras muito engraçadas, cheias de bobagens geniais.
Como essa garotada de hoje – do mundo pós-aids, submetido à ditadura do politicamente correto – poderia entender o universo depravado e desbocado do “velho safado”, era a pergunta subjacente ao pouco crédito que eu dava ao espetáculo.
Na verdade, só aceitei o convite para ir à Casa da Gávea, às oito da noite do domingo passado, debaixo de chuva forte, porque a proposta era, depois da peça, dividir uma picanha no Hipódromo que fica em baixo do teatro e é para mim um dos melhores bares/restaurantes da cidade. Pra resumir a estória, fui ao teatro com o estômago e saí da peça de cabeça feita.
O elenco dá conta do recado; transita pelo universo do autor com desenvoltura e acerta quando opta por uma interpretação histriônica em algumas passagens, que levam a platéia a boas gargalhadas. O cenário é funcional e elegante. O figurino é agradável e eficiente, na medida em que dá suporte discreto a interpretação sucessiva de muitos personagens.
A dramaturgia de João Fonseca é feliz ao transpor para o palco as agruras da infância e adolescência de Henry Chinaski (alter ego de Bukowski, presente em quase toda a sua obra) em esquetes bem construídos, com equivalência cênica, respeitando a ordem cronológica da narrativa e dando o destaque devido a cada personagem na construção da história. Com isso e com o bom desempenho das interpretações em conjunto, a montagem de Pão com Mortadela garante a unidade do espetáculo e o prazer do espectador, do início ao fim.
...é melhor ser alegre que ser triste
Um feriadão com muita chuva, como o que passou, até que é bom, de vez em quando, pra gente colocar em dia alguma coisa pendente como uma leitura determinada, um texto devido, a organização de gavetas, enfim, qualquer tarefa corriqueiramente menosprezada, basta fazer tempo bom. E no Rio de Janeiro, faz sol quase que o ano inteiro. Então, por mais disciplinada que seja a pessoa, convenhamos, esta cidade é um convite à gazeta, no mínimo à dispersão.
Lembrei-me, à propósito (pois foi justamente o dolce fa niente do final de semana que me levou a revê-lo), do documentário Vinícius, de Miguel Faria Jr., onde ouvi que o João Cabral de Melo Neto costumava dizer que um escritor com a sua disciplina e o talento de Vinicius de Morais seria, sem dúvida, o maior poeta do século. Se Vinícius não levou esse título, outro ninguém pode lhe negar: o poetinha ( sem menosprezo, por favor) foi, sem dúvida, o mais carioca dos cariocas de todos os tempos. Pois, que outros versos traduzem mais precisamente o estado de espírito do povo desta cidade do que “é melhor ser alegre que ser triste, a alegria é a melhor coisa que existe”
Eu sei que muitos vão discordar, com argumentos procedentes até certo ponto: “... o Rio não é mais o mesmo do tempo do Vinícius de Morais”, “...o carioca vive num bode só ”, “...a violência acabou com o Rio boêmio” e etc. Eu continuo achando que o carioca antes de mais nada quer se divertir, aposta quase todas as fichas no prazer imediato, é um otimista por índole, um cordial por mentalidade e um azarador por cacoete. Mas pra você que, antes de tudo é meu leitor, e que também é saudosista como os nortistas, melancólico como os paranaenses e nostálgico como os paulistas, vai aí um brinde dos tempos áureos da verdadeira Cidade Maravilhosa, e aquele abraço!
(http://www.oglobo.com.br/blogs/largman/post.asp?cod_post=79049)
Lembrei-me, à propósito (pois foi justamente o dolce fa niente do final de semana que me levou a revê-lo), do documentário Vinícius, de Miguel Faria Jr., onde ouvi que o João Cabral de Melo Neto costumava dizer que um escritor com a sua disciplina e o talento de Vinicius de Morais seria, sem dúvida, o maior poeta do século. Se Vinícius não levou esse título, outro ninguém pode lhe negar: o poetinha ( sem menosprezo, por favor) foi, sem dúvida, o mais carioca dos cariocas de todos os tempos. Pois, que outros versos traduzem mais precisamente o estado de espírito do povo desta cidade do que “é melhor ser alegre que ser triste, a alegria é a melhor coisa que existe”
Eu sei que muitos vão discordar, com argumentos procedentes até certo ponto: “... o Rio não é mais o mesmo do tempo do Vinícius de Morais”, “...o carioca vive num bode só ”, “...a violência acabou com o Rio boêmio” e etc. Eu continuo achando que o carioca antes de mais nada quer se divertir, aposta quase todas as fichas no prazer imediato, é um otimista por índole, um cordial por mentalidade e um azarador por cacoete. Mas pra você que, antes de tudo é meu leitor, e que também é saudosista como os nortistas, melancólico como os paranaenses e nostálgico como os paulistas, vai aí um brinde dos tempos áureos da verdadeira Cidade Maravilhosa, e aquele abraço!
(http://www.oglobo.com.br/blogs/largman/post.asp?cod_post=79049)
Marilyn, O Mito
Fui hoje ao Museu de Arte Moderna ver a exposição de fotos de Marilyn Monroe, uma das mulheres mais desejadas de todos os tempos, um ícone de Hollywood, um mito universal... Por que uma atriz mediana conquistou títulos assim superlativos em tão breve existência (ela morreu aos 36 anos), é possível descobrir dedicando às fotografias de Bert Stern parcimoniosa atenção. Sim, não é necessário e não se deve mesmo vasculhar a Marilyn deste último ensaio, feito num hotel de Los Angeles para a revista Vogue. Basta lançar um olhar sobre a loura figura diáfana e seminua e a retina guardará renitente a impressão da própria sensualidade, transformando em concreto o que era abstrato.
De todas as fotos a minha preferida é a de Marilyn nua deitada de bruços sobre os lençóis, um braço solto pra fora da cama, o queixo apoiado na outra mão. No rosto, o eterno sorriso maroto, prenhe de ambigüidade, meio criança, meio mulher. Essa marca da diva, poderosa e sutil, de conjugar um jeito ingênuo com a malícia do olhar sincopado em fortuitas piscadelas, está registrada em todas as fotos da exposição Marilyn Monroe, o Mito, que de resto é deliciosa de ver e fica até o dia 25 de novembro no MAM. Programa imperdível para quem vai ficar o feriado na cidade.
*****************
Pelos comentários de dois leitores no blog anterior, percebi que não dei conta do recado, ou seja, não ficou claro o que eu queria dizer: que o povo brasileiro, inclusive a maioria da população carioca, que mora fora da restrita área da zona sul, tem um otimismo exacerbado porque mesmo sendo maltratado, como foi naquela semana pelo secretário de segurança e pelo governador, não se revolta, continua a ir trabalhar todos os dias, e quase todos levando um sorriso no olhar. Lembra da sua diarista, do acessorista, do porteiro, do boy, do garagista...
De todas as fotos a minha preferida é a de Marilyn nua deitada de bruços sobre os lençóis, um braço solto pra fora da cama, o queixo apoiado na outra mão. No rosto, o eterno sorriso maroto, prenhe de ambigüidade, meio criança, meio mulher. Essa marca da diva, poderosa e sutil, de conjugar um jeito ingênuo com a malícia do olhar sincopado em fortuitas piscadelas, está registrada em todas as fotos da exposição Marilyn Monroe, o Mito, que de resto é deliciosa de ver e fica até o dia 25 de novembro no MAM. Programa imperdível para quem vai ficar o feriado na cidade.
*****************
Pelos comentários de dois leitores no blog anterior, percebi que não dei conta do recado, ou seja, não ficou claro o que eu queria dizer: que o povo brasileiro, inclusive a maioria da população carioca, que mora fora da restrita área da zona sul, tem um otimismo exacerbado porque mesmo sendo maltratado, como foi naquela semana pelo secretário de segurança e pelo governador, não se revolta, continua a ir trabalhar todos os dias, e quase todos levando um sorriso no olhar. Lembra da sua diarista, do acessorista, do porteiro, do boy, do garagista...
Saldo Semanal
“O ser humano é otimista por natureza”, foi uma das matérias em destaque nos jornais da semana que passou. Em estudo publicado na revista “Nature”, pesquisadores da Universidade de Nova York conseguiram através de ressonância magnética relacionar a tendência ao pensamento positivo a determinadas áreas do cérebro, responsáveis pela sensação de bem-estar. O estudo revela que grandes níveis de ativação na amígdala e no córtex cingulado anterior combinam com as tendências individuais ao otimismo. Tais mecanismos explicariam, portanto, a inclinação natural dos seres humanos a projetar eventos positivos para o futuro. Por outro lado, problemas de mau funcionamento nessas áreas do cérebro já foram relacionados, em estudos anteriores, a problemas de depressão ligados ao pessimismo.
A divulgação dessa pesquisa foi não apenas uma surpresa para mim, como talvez a oportunidade de elucidar um mistério com o qual venho há tempos matutando. Será que, por causa da alimentação ou talvez de herança genética, quem nasce no Brasil tem essas regiões cerebrais mais desenvolvidas que o normal? Ou o quê mais explicaria o fato de a maioria esmagadora dos brasileiros, de cidadãos cumpridores de seus deveres, acordar todos os dias, levantar e sair de casa para trabalhar? Convenhamos que viver neste país pode ser uma experiência de alto risco, pelo menos para os excluído do seleto grupo de privilegiados que vive amparado pela rede de proteção que o estado e o sistema garantem aos endinheirados e aos formadores de opinião.
Se não, vejamos o que dizem outras matérias em destaque na semana que passou:
“Neurocirurgiões abrem crânio a marteladas” A utilização de furadeiras de marcenaria em neurocirurgias é apenas um dos problemas dos hospitais públicos do Rio, onde se utilizam instrumentos ainda mais rudimentares como martelos e goivas para abrir a cabeça de pacientes com lesões cerebrais...
“Leite longa vida é adulterado até com soda cáustica” A fraude foi descoberta em cooperativas de Minas Gerais que, para ter mais lucro, misturavam soda cáustica, água oxigenada e citrato de sódio ao leite. Setenta e seis por cento do leite líquido consumido pelos brasileiros é longa vida. A Nestlé e a Parmalat teriam comprado o produto adulterado e agora a Polícia Federal fará coleta de amostras de leite em todo o país...
“Um tiro em Copacabana é uma coisa. Um tiro na favela da Coréia, no Alemão, é outra” diz secretário de segurança do Rio em entrevista à rádio CBN: “Buscar os traficantes na Zona Sul, no Dona Marta, no Pavão- Pavãozinho, estou muito próximo da população. É difícil a polícia entrar ali. Porque um tiro em Copacabana é uma coisa...
“Cabral defende aborto para frear fábrica de marginais na Rocinha” O governador Sérgio Cabral afirmou que as altas taxas de natalidade em localidades pobres, como a Rocinha, são verdadeiras fábricas de marginais...
Quer dizer, se a natureza do ser humano é ser otimista, o brasileiro comum é, dos seres humanos, o mais natural. E, se ser otimista é uma questão de ativação na amígdala e no córtex cingulado anterior, o carioca médio sofre de hiperatividade nessa região cerebral.
A divulgação dessa pesquisa foi não apenas uma surpresa para mim, como talvez a oportunidade de elucidar um mistério com o qual venho há tempos matutando. Será que, por causa da alimentação ou talvez de herança genética, quem nasce no Brasil tem essas regiões cerebrais mais desenvolvidas que o normal? Ou o quê mais explicaria o fato de a maioria esmagadora dos brasileiros, de cidadãos cumpridores de seus deveres, acordar todos os dias, levantar e sair de casa para trabalhar? Convenhamos que viver neste país pode ser uma experiência de alto risco, pelo menos para os excluído do seleto grupo de privilegiados que vive amparado pela rede de proteção que o estado e o sistema garantem aos endinheirados e aos formadores de opinião.
Se não, vejamos o que dizem outras matérias em destaque na semana que passou:
“Neurocirurgiões abrem crânio a marteladas” A utilização de furadeiras de marcenaria em neurocirurgias é apenas um dos problemas dos hospitais públicos do Rio, onde se utilizam instrumentos ainda mais rudimentares como martelos e goivas para abrir a cabeça de pacientes com lesões cerebrais...
“Leite longa vida é adulterado até com soda cáustica” A fraude foi descoberta em cooperativas de Minas Gerais que, para ter mais lucro, misturavam soda cáustica, água oxigenada e citrato de sódio ao leite. Setenta e seis por cento do leite líquido consumido pelos brasileiros é longa vida. A Nestlé e a Parmalat teriam comprado o produto adulterado e agora a Polícia Federal fará coleta de amostras de leite em todo o país...
“Um tiro em Copacabana é uma coisa. Um tiro na favela da Coréia, no Alemão, é outra” diz secretário de segurança do Rio em entrevista à rádio CBN: “Buscar os traficantes na Zona Sul, no Dona Marta, no Pavão- Pavãozinho, estou muito próximo da população. É difícil a polícia entrar ali. Porque um tiro em Copacabana é uma coisa...
“Cabral defende aborto para frear fábrica de marginais na Rocinha” O governador Sérgio Cabral afirmou que as altas taxas de natalidade em localidades pobres, como a Rocinha, são verdadeiras fábricas de marginais...
Quer dizer, se a natureza do ser humano é ser otimista, o brasileiro comum é, dos seres humanos, o mais natural. E, se ser otimista é uma questão de ativação na amígdala e no córtex cingulado anterior, o carioca médio sofre de hiperatividade nessa região cerebral.
Razão e Sensibilidade
Embora desconfie de que ninguém agüenta mais discutir Tropa de Elite, peço licença aos meus eventuais leitores para cometer alguma inconveniência e voltar ao assunto uma última vez. Acontece que só agora consegui assistir ao filme. Então, mesmo atrasada, sinto a necessidade de tecer considerações a respeito, caso contrário fica o blog sem razão de ser, pois blog é justamente o espaço que inventaram na internet para quem quiser dizer o que pensa, é a mídia de cada um, sem censura, sem mercado, sem patrão...
Portanto, este é o lugar para contar que tentei ver o filme em casa, no aconchego do lar, e que não consegui. Não por falta de opção, mas porque meu velho aparelho de DVD é elitista e rejeitou todas as cópias piratas que comprei ou tomei emprestadas dos amigos, os quais não vou dedurar, pois se blog tem regra é a de que cada qual faz a sua, e a minha é manter a discrição.
Então, pra encurtar assunto, sou a favor da pirataria por acreditar no princípio da livre iniciativa, pois se é economia de mercado, ele, mercado, que encontre a solução para fazer chegar um produto ao maior número de pessoas, de maneira tal que a coisa se pague por essa via e ainda agregue algum valor. E produtores e distribuidores que briguem com o governo contra o imposto de 47,5%
sobre DVDs, taxa a meu ver exorbitante para produtos culturais, ainda mais num país onde o salário mínimo não passa de 250 dólares.
Dito isso, vamos ao assunto principal: em minha opinião, Tropa de Elite é uma obra reacionária e até fascista na medida em que, no roteiro, no enquadramento e na fotografia, dá ao capitão Nascimento tratamento de herói (e não é à toa que o protagonista é galã de televisão). Tropa de Elite é também um filme muito bem feito e bem dirigido, ironicamente pelos mesmos motivos que o tornam eficiente ao reeditar a velha dicotomia entre o bem e o mal, sem nuances, sutilezas, sem razão e sensibilidade. Mas o pior é que neste caso, trata-se da luta entre o péssimo e o ruim. E, para mim, o mal nunca é a melhor solução, ainda mais quando se trata de ponto de vista numa cidade partida.
Ora, no filme, se de um lado está o tráfico,sem dúvida, fora da lei, do outro está uma patrulha violenta, arbitrária, torturadora e assassina que se arvora o direito de agir em nome da “lei”. No meio da ação, que ocorre à margem do direito formal, infiltra-se a mensagem totalitária de que ou você está do meu lado, ou está contra mim. E o filme se exime, ainda, de qualquer dimensão psicológica ou social ao condenar sumariamente, por exemplo, um adolescente morador da favela por não resistir ao desejo de possuir um tênis importado. Desta forma, defende a tese do livre arbítrio e se engaja numa estética maniqueísta que em nada contribui para aproximar os dois lados partidos desta cidade. É lamentável.
Portanto, este é o lugar para contar que tentei ver o filme em casa, no aconchego do lar, e que não consegui. Não por falta de opção, mas porque meu velho aparelho de DVD é elitista e rejeitou todas as cópias piratas que comprei ou tomei emprestadas dos amigos, os quais não vou dedurar, pois se blog tem regra é a de que cada qual faz a sua, e a minha é manter a discrição.
Então, pra encurtar assunto, sou a favor da pirataria por acreditar no princípio da livre iniciativa, pois se é economia de mercado, ele, mercado, que encontre a solução para fazer chegar um produto ao maior número de pessoas, de maneira tal que a coisa se pague por essa via e ainda agregue algum valor. E produtores e distribuidores que briguem com o governo contra o imposto de 47,5%
sobre DVDs, taxa a meu ver exorbitante para produtos culturais, ainda mais num país onde o salário mínimo não passa de 250 dólares.
Dito isso, vamos ao assunto principal: em minha opinião, Tropa de Elite é uma obra reacionária e até fascista na medida em que, no roteiro, no enquadramento e na fotografia, dá ao capitão Nascimento tratamento de herói (e não é à toa que o protagonista é galã de televisão). Tropa de Elite é também um filme muito bem feito e bem dirigido, ironicamente pelos mesmos motivos que o tornam eficiente ao reeditar a velha dicotomia entre o bem e o mal, sem nuances, sutilezas, sem razão e sensibilidade. Mas o pior é que neste caso, trata-se da luta entre o péssimo e o ruim. E, para mim, o mal nunca é a melhor solução, ainda mais quando se trata de ponto de vista numa cidade partida.
Ora, no filme, se de um lado está o tráfico,sem dúvida, fora da lei, do outro está uma patrulha violenta, arbitrária, torturadora e assassina que se arvora o direito de agir em nome da “lei”. No meio da ação, que ocorre à margem do direito formal, infiltra-se a mensagem totalitária de que ou você está do meu lado, ou está contra mim. E o filme se exime, ainda, de qualquer dimensão psicológica ou social ao condenar sumariamente, por exemplo, um adolescente morador da favela por não resistir ao desejo de possuir um tênis importado. Desta forma, defende a tese do livre arbítrio e se engaja numa estética maniqueísta que em nada contribui para aproximar os dois lados partidos desta cidade. É lamentável.
Rio Messiânico
O único detalhe negativo de uma viagem ao México, a meu ver – além de ter que voltar, claro –, é ter que ficar mofando no aeroporto de Guarulhos por mais de seis horas na ida e na volta. A tortura é conseqüência da ausência de vôo direto entre o Rio de Janeiro e a capital mexicana e da falta de ponte aérea entre Rio e São Paulo no aeroporto paulista, em horários mais próximos aos do vôo internacional. Se atentarmos para o fato de que desde os primórdios da aviação comercial no Brasil os vôos internacionais tinham início no Rio de Janeiro, dar-nos-emos conta de mais uma entre as inúmeras vantagens que a cidade perdeu por conta do vertiginoso esvaziamento econômico que sofre desde os anos 80.
Mas lá se vão quase trinta anos e o carioca continua o mesmo. Depois da praia, vai fazer hora na esquina ou na mesa de um bar. Ali, entre umas e outras, vocifera contra todos, malha governantes do presente e do passado, transita com fluência pelos assuntos mais quentes das esferas federal, estadual e municipal e, de repente, pára tudo para ver uma garota gostosa passar. Então, distraído, muda de assunto para futebol e volta pra casa, satisfeito, em estado de catarse quase total. E dessa forma, docemente, vai entregando de bandeja qualidade de vida para o sumidouro das mazelas que engolfam a sua cidade. Todas já tão nossas conhecidas que nem vale a pena listar.
É verdade que de vez em quando pinta um movimento de resistência, de indignação. Mas começa vago e acaba anêmico. Aconteceu como muitos “bastas” que já vimos por aqui. É que o carioca adora uma moda, mas tem por costume abandoná-la tão logo a novidade pegue, para estigmatizá-la em seguida como aquilo que “já era”. E como por essas bandas ninguém quer “pagar um mico”, fica tudo como está, até que um novo e dramático evento catalise as atenções para mais conversa de bar e, quem sabe, um novo esboço de reação.
Já ouvi dizer que se a capital federal ainda fosse no Rio, ninguém segurava um governo assolado pelo mensalão, muito menos um presidente do Congresso Nacional afundado em escândalo de corrupção. Com perdão da rima, não sei não...
Vejo o carioca de hoje ainda mais contaminado pelo vírus do messianismo do que sempre foi o conformado nordestino. Percebi isso nas conversas sobre o filme Tropa de Elite que, segundo o entendimento de um bom número de pessoas, e para a euforia geral da cidade, oferece ao público a hipótese de um salvador, um Herói Nacional, espécie de D. Sebastião tupiniquim que, se replicado em série, devolveria ao Rio os anos dourados que não voltam mais. É mais um assunto animado pra morrer afogado nos copos de um bar.
Mas lá se vão quase trinta anos e o carioca continua o mesmo. Depois da praia, vai fazer hora na esquina ou na mesa de um bar. Ali, entre umas e outras, vocifera contra todos, malha governantes do presente e do passado, transita com fluência pelos assuntos mais quentes das esferas federal, estadual e municipal e, de repente, pára tudo para ver uma garota gostosa passar. Então, distraído, muda de assunto para futebol e volta pra casa, satisfeito, em estado de catarse quase total. E dessa forma, docemente, vai entregando de bandeja qualidade de vida para o sumidouro das mazelas que engolfam a sua cidade. Todas já tão nossas conhecidas que nem vale a pena listar.
É verdade que de vez em quando pinta um movimento de resistência, de indignação. Mas começa vago e acaba anêmico. Aconteceu como muitos “bastas” que já vimos por aqui. É que o carioca adora uma moda, mas tem por costume abandoná-la tão logo a novidade pegue, para estigmatizá-la em seguida como aquilo que “já era”. E como por essas bandas ninguém quer “pagar um mico”, fica tudo como está, até que um novo e dramático evento catalise as atenções para mais conversa de bar e, quem sabe, um novo esboço de reação.
Já ouvi dizer que se a capital federal ainda fosse no Rio, ninguém segurava um governo assolado pelo mensalão, muito menos um presidente do Congresso Nacional afundado em escândalo de corrupção. Com perdão da rima, não sei não...
Vejo o carioca de hoje ainda mais contaminado pelo vírus do messianismo do que sempre foi o conformado nordestino. Percebi isso nas conversas sobre o filme Tropa de Elite que, segundo o entendimento de um bom número de pessoas, e para a euforia geral da cidade, oferece ao público a hipótese de um salvador, um Herói Nacional, espécie de D. Sebastião tupiniquim que, se replicado em série, devolveria ao Rio os anos dourados que não voltam mais. É mais um assunto animado pra morrer afogado nos copos de um bar.
Sem dó, nem piedade.
É caminhanhando pelas ruas de uma cidade que se descobrem suas peculiaridades e as características mais aparentes de sua gente. Mesmo na cosmopolita Nova Yorque pode-se perceber a vocação da cidade para fazer com que todos sintam-se cidadãos do mundo sem precisar abrir mão de tradições e costumes originais. Assim é no Rio de Janeiro, onde Mick Jagger observou que as pessoas mais dançam do que propriamente andam nas calçadas. Assim é em todo o mundo, acredito, pois conheço menos do nosso planeta do que gostaria e deveria conhecer. E na cidade do México não é diferente. Em andanças por entre ruas e praças ensolaradas, vou colhendo as impressões mais genuínas, colecionando as lembranças mais duradouras.
Apesar de saber que passeio a pé pelas ruas da maior capital da América Latina, tenho quase sempre a sensação de estar numa cidade menor, com menos gente e menos poluída do que indicam os números oficiais. Aqui, há muito céu à vista, há sempre uma brisa no ar mechendo de leve com as folhas das árvores e a sensação do pedestre não é de calor sufocante, apesar do sol forte dessas manhãs de outono.
Observando melhor percebi que a sensação agradável de amplitude e frescor deve-se à grande maioria dos prédios da capital mexicana ser de no máximo seis andares, enquanto em qualquer outra metrópole o mesmo terreno abrigaria um edifício muito maior. É que além de contar com um amplo território para crescer ao seu próprio redor, a cidade do México está sujeita à terremotos e em 1985 sofeu um de mais de 9 graus na escala Richter, o qual destruiu grande parte da cidade, levando abaixo casas, edifícios e prédios públicos, matando milhares de moradores. Com um solo instável, os prédios altos têm construção caríssima, pois precisam estar estruturados em engrenagens hidráulicas de engenharia sofisticada com compensação inversa no mesmo tamanho de sua altura exterior. É claro que se trata de um triste episódio na história da cidade. No entanto, é natural reconhecer as vantagens de ter no céu mais estrelas pra contar.
Outro detalhe importante para o bem estar dos moradores é a quantidade de parques no perímetro urbano. Para cada bairro há no mínimo dois, com muitas árvores, alamedas e jardins. Todos bem cuidados, limpos e desfrutáveis, com bancos confortáveis e sensação de segurança que a própria ocupação dos moradores garante. Andei em muitos deles e não vi população de rua, pedintes, menor abandonado ou menino explorado vendendo chiclete. Vi gente de todas as idades curtindo o espaço público com tranquilidade e postura cidadã, respeito ao próximo e cordialidade entre si.
Passeando por esses lugares, praticando o exercício do tempo largo, meu hobby favorito, percebi que por estas bandas há sempre um sorriso no ar... e um cheiro forte também. É o aroma das frituras, misturas e temperos das comidas feitas a granéu, e vendidas a varejo nas calçadas. São tantas as barracas e é tanta gente comendo ao ar livre, principalmente na hora do almoço, que fica difícil imaginar um meio-fio asseado em tamanha confusão. Mais é, acredite. Não há papel no chão, detritos ou restos de comida espalhados. Todos usam as cestas colocadas próximas às barracas e aproveitam os mais deliciosos quitutes comendo de pé, na mão, em pratinhos de plástico ou no próprio guardanapo. Páreo, só o tabuleiro da baiana, na querida Salvador.
Mas aqui a variedade é que faz a diferença. É um sem número de opções pra freguês nenhum botar defeito. Nos tacos, tortilhas, tortas, guisados, moles, frijoles, cremes, coberturas e recheios, chiles e etc, etc, etc as possibilidades de combinações diversas elevam a oferta a décima potência. E o povo da cidade do México se alimenta assim feliz... Sem culpa, sem dó, nem piedade.
Apesar de saber que passeio a pé pelas ruas da maior capital da América Latina, tenho quase sempre a sensação de estar numa cidade menor, com menos gente e menos poluída do que indicam os números oficiais. Aqui, há muito céu à vista, há sempre uma brisa no ar mechendo de leve com as folhas das árvores e a sensação do pedestre não é de calor sufocante, apesar do sol forte dessas manhãs de outono.
Observando melhor percebi que a sensação agradável de amplitude e frescor deve-se à grande maioria dos prédios da capital mexicana ser de no máximo seis andares, enquanto em qualquer outra metrópole o mesmo terreno abrigaria um edifício muito maior. É que além de contar com um amplo território para crescer ao seu próprio redor, a cidade do México está sujeita à terremotos e em 1985 sofeu um de mais de 9 graus na escala Richter, o qual destruiu grande parte da cidade, levando abaixo casas, edifícios e prédios públicos, matando milhares de moradores. Com um solo instável, os prédios altos têm construção caríssima, pois precisam estar estruturados em engrenagens hidráulicas de engenharia sofisticada com compensação inversa no mesmo tamanho de sua altura exterior. É claro que se trata de um triste episódio na história da cidade. No entanto, é natural reconhecer as vantagens de ter no céu mais estrelas pra contar.
Outro detalhe importante para o bem estar dos moradores é a quantidade de parques no perímetro urbano. Para cada bairro há no mínimo dois, com muitas árvores, alamedas e jardins. Todos bem cuidados, limpos e desfrutáveis, com bancos confortáveis e sensação de segurança que a própria ocupação dos moradores garante. Andei em muitos deles e não vi população de rua, pedintes, menor abandonado ou menino explorado vendendo chiclete. Vi gente de todas as idades curtindo o espaço público com tranquilidade e postura cidadã, respeito ao próximo e cordialidade entre si.
Passeando por esses lugares, praticando o exercício do tempo largo, meu hobby favorito, percebi que por estas bandas há sempre um sorriso no ar... e um cheiro forte também. É o aroma das frituras, misturas e temperos das comidas feitas a granéu, e vendidas a varejo nas calçadas. São tantas as barracas e é tanta gente comendo ao ar livre, principalmente na hora do almoço, que fica difícil imaginar um meio-fio asseado em tamanha confusão. Mais é, acredite. Não há papel no chão, detritos ou restos de comida espalhados. Todos usam as cestas colocadas próximas às barracas e aproveitam os mais deliciosos quitutes comendo de pé, na mão, em pratinhos de plástico ou no próprio guardanapo. Páreo, só o tabuleiro da baiana, na querida Salvador.
Mas aqui a variedade é que faz a diferença. É um sem número de opções pra freguês nenhum botar defeito. Nos tacos, tortilhas, tortas, guisados, moles, frijoles, cremes, coberturas e recheios, chiles e etc, etc, etc as possibilidades de combinações diversas elevam a oferta a décima potência. E o povo da cidade do México se alimenta assim feliz... Sem culpa, sem dó, nem piedade.
Assinar:
Postagens (Atom)