Estreia Cidade de Leitores

Estreia no próximo sábado às 9h30, na Band, a nova série Cidade de Leitores. É um programa de literatura, no qual eu entrevisto escritores e especialistas no assunto, com entrevistas de 30 minutos de duração, e que promove a cada edição um diálogo da literatura com outras formas de expressão artística como cinema, teatro, artes visuais, música, histórias em quadrinhos e etc. Uma atração que não se propõe discutir a literatura ensimesmada na palavra, mas valoriza o sentido do texto, os caminhos da leitura que levam a reflexões que irão de alguma forma transformar nossas vidas. É como diz o jovem escritor português Gonçalo M. Tavares: “... um bom livro vale em média cem gramas de lucidez. “

Este é o terceiro ano do programa que volta remodelado desde o nome até o tempo de produção. Nos dois anos anteriores fizemos o programa ao vivo com participação do público. Agora, com meia hora a menos, o programa conta com duas entrevistas gravadas em locações externas. Em consequência está mais ágil, pois além de mais curto, por ser gravado permite uma edição mais interessante, com imagens de arquivo e com muito mais ritmo.

Eu sou a editora de conteúdo e roteirista do programa. Para as entrevistas que dialogam com outras expressões artísticas, conto com a colaboração inestimável dos roteiros de David França Mendes há quase um ano. Essas matérias, que podem ser acessadas no YouTub, são muito bem dirigidas, assim como o programa todo, por André Glasner. Carolina Antonutti é a nossa competentíssima produtora e Leonardo Ribeiro, nosso talentoso editor de imagem.

O Cidade de leitores faz parte de um programa mais amplo da secretaria municipal de Educação, com várias ações de incentivo à leitura, chamado Rio, uma cidade de leitores. É um exemplo da preocupação da secretária Cláudia Costin com a formação cultural de professores e alunos da rede municipal de ensino. É por aí que acompanho o trabalho da secretária desde o início de sua gestão e sou testemunha de seu esforço no sentido de melhorar e modernizar o ensino no Rio de Janeiro. Portanto, posso imaginar sua consternação com o massacre das crianças na Escola Municipal Tasso da Silveira, em Realengo. E é aí que vem ao caso o comentário de Zuenir Ventura em sua crônica de hoje. Ele observa ser mais importante do que discutir o controle de armas, neste momento, pensar uma série de iniciativas para reprimir e até impedir os casos mais agressivos de bullying nas escolas. Eu assino em baixo.

**********************************************************************************

Um certo leão-marinho

Voltar a esse blog com algum assunto leve – depois de uma temporada ininterrupta de leitura pesada e acelerada que não me deu tempo de nada além de trabalhar – é o que me leva a escrever hoje. Porque se tivesse que tratar de coisas sérias, fatos graves, confabulações metafísicas ou qualquer questão relacionada a direitos autorais, por exemplo, não me aventuraria não. Ainda mais que antes de mais nada devo encerrar a historia do mergulho no Pacífico Sul.

Então, vamos lá. Foi em Vinha Del Mar, a cidade dos festivais de música dos meus anos dourados. Um balneário formoso e organizado, como quase tudo no Chile, com uma pitada de sofisticação nostálgica que me deu a sensação de estar em algum filme dos anos 60, com trilha sonora de Pepino di Capri.
Talvez a topografia da via litorânea que nos levou de Valparaiso a Vinha Del Mar, costeando a orla de pedras escarpadas pelo mar muito azul repicado de espuma branca, tenha feito eu voltar ao tempo das comédias românticas, nas quais casais enamorados zarpavam pela cote d’azur em seus conversíveis coloridos ao som de Sapore di Sale.

Mas acordei dessa “viagem” quando paramos num mirante e vimos um grupo de pessoas fotografando loucamente um rochedo em frente. Ao me aproximar da balaustrada, com a curiosidade aguçada pelo frenesi dos turistas, descobri uma família de leões-marinhos se esbaldando de mergulhar nas ondas revoltosas da encosta, para depois voltarem aos solavancos, cada qual ao seu lugar nas escarpas do rochedo.
Aparentemente eles fazem o maior esforço para subir, pois se jogam com todo o peso sobre as pedras e vão se arrastando para o alto em solavancos, contando apenas com o movimento ondular do corpo roliço para ajudar. Tampouco se manter ali parece fácil. A violência do mar os derruba de volta à água com frequência, e eles têm que empreender novamente, e desde o início, a maratona rochedo acima, até conseguir se firmar num lugar ao sol.

Diversão dificultosa a desses mamíferos, você diria. Qual é a graça afinal? Eu não sei bem, porque não me aventurei num mergulho naquela água gelada. Além do mais que soprava um ventinho frio e, apesar de ser verão, o clima é de sul da América do sul. Logo, uma combinação enregelante por demais.

No entanto, os leões-marinhos pareciam estar adorando o banho de mar. Posso até jurar que eles riam a valer a cada mergulho. E alguns ainda gargalhavam, tirando sarro dos mais desajeitados, aqueles que pelejavam para alcançar um encosto seguro no rochedo, tombados que eram sem cessar pela força das ondas constantes. Realidade ou fantasia? Pouco me importa. Relevante mesmo foi sentir a alegria contagiante daqueles bichos. Alegria, animação, entusiasmo, sei lá, só sei que ver a persistência de um leão-marinho mais gorducho, e mais lento que os outros, para alcançar as pedras e enfim poder descansar me animou a entrar na aula de natação no mar.

Agora, frequento a academia do campeão Luis Lima, na praia de Copacabana. Todo sábado, chova ou faça sol, lá vou eu de maiô, touca e óculos de mergulho. E, quando o mar está frio ou agitado, não me intimido não. Penso no meu leão-marinho gorducho e desajeitado, e nos muitos caldos que ele levou até alcançar seu lugar ao sol. Aí, eu entro nesse Atlântico Sul de cabeça, sem medo e sem frio, e mergulho com um sorriso no rosto e um calor danado no coração.

Mergulho no Pacífico Sul

Um mergulho no Pacífico Sul, foi como começou a conversa que nos levou ao Chile, um país que, pela diversidade topográfica e climática, oferece uma formidável variedade de passeios, com paisagens e atrativos que justificaram as cinco horas de voo e as duas semanas que passamos lá.

A cidade de Santiago frequentava o meu imaginário há muito tempo, como contei na postagem anterior. Mesmo assim, a realidade não foi totalmente desapontadora, por conta da limpeza das ruas, da organização urbana, da educação e gentileza dos moradores, e por estar incrustada na pré-cordilheira dos Andes, o que lhe dá certa atmosfera de proteção.

Imagine uma São Paulo um pouco menor, menos barulhenta, com um trânsito mais bem resolvido, e cercada por montanhas de picos nevados que compõem um visual do tipo "Shangrilá"? Seria um sonho se o fato de estar naturalmente cercada não fizesse a cidade sofrer com a frequente alta poluição do ar. Acontece que é raro chover na região e a cordilheira impede a passagem dos ventos que levariam as partículas indesejáveis de poeira para o mar.

No pouco tempo que passamos em Santiago, quatro dias ao todo, não deu para sentir essa poluição, foi tudo muito agradável. A comida é razoável, pra quem gosta de salmão é uma festa, e tem ainda um King Crab que é uma viagem. É o mesmo Santolla que se encontra na costa atlântica de Portugal, na cadeia de restaurantes Oscar, de Nova Iorque, e em todo o Canadá. Para mim, a iguaria é um tesão de sabor e contém uma quantidade de proteína que, combinada às ostras frescas da entrada, transformou-se na refeição mais afrodisíaca que jamais provei. Ainda mais que essas delícias se comem com as mãos.

A cidade tem ainda os vinhos chilenos ao preço de “vinho nacional”. E muito próximo, o adorável balneário de Vinha Del Mar, onde ocorreu o nosso tão esperado e propalado mergulho no Pacífico Sul. Enfim, a capital do Clile tem quase tudo para fazer de uma cidade um lugar bom para viver, a não ser por um senão. E aqui eu peço licença a Clarice Lispector - e à precisão de seu comentário sobre uma cidade da Suíça - para dizer sem hesitação: falta demônio em Santiago do Chile.

************************************************************************

Na terra de Allende

Conversa vai, conversa vem, depois de gostosos mergulhos no Atlântico Sul – comentados aqui na última postagem –, resolvemos tomar um banho de mar no Pacífico Sul, só para comparar. Em dois dias tínhamos um roteiro organizado, com passagens marcadas e hospedagem garantida no Chile. Um país que nenhum de nós conhecia, apesar de constar da lista dos lugares que um dia iríamos com certeza visitar.

Santiago para mim era e continua sendo a terra de Salvador Allende. A cidade para onde foram nossos exilados políticos quando pela primeira vez na história da América Latina um socialista marxista era eleito presidente. A cidade mais citada nas memórias desses brasileiros que participaram da luta armada ou não, militantes de esquerda ou simplesmente defensores da democracia que depois, em tempos de anistia, contaram em livros suas aventuras e desventuras no exílio. Alguns dos quais se tornaram best sellers e eu saborosamente li.

Garota meio alienada, por força da repressão que engolfava todas as instâncias da vida social e transbordava para o seio das famílias, apavoradas com a possibilidade de ter um esquerdista entre os seus, fui despertada da modorra política por um tio que costumava nos visitar. Como notasse que eu lia na revista Manchete uma reportagem sobre o novo presidente do Chile, um socialista eleito por sufrágio universal, ele vaticinou por entre o bigode cerrado,com sua voz de trovão:

__ Esse Allende vai cair. Socialista na América Latina tem que tomar o poder, tem que fazer revolução. Eleito de forma democrática, ele não se sustenta, não governa de jeito nenhum. Vão derrubá-lo, minha filha, você vai ver!

Passaram-se três anos e a maldição se confirmou. O palácio de La Moneda foi cercado e Salvador Allende morreu resistindo à investida do seu chefe das Forças Armadas e antigo homem de confiança Augusto Pinochet.

O resto da história vocês sabem. Eu também. Pois tendo a curiosidade politica revitalizada por um analista no mínimo intuitivo, passei a preferir as rodas masculinas de conversa e as colunas de política nos jornais. Sempre com interesse meio transversal porque o assunto era proibido em casa, na escola, na praia e onde mais os jovens se encontrassem, sob pena de ser tomados por subversivos. Fama pior do que a de “galinha” para uma moça de família.

Mas agora, tantos anos depois, lembrando daquela época com uma pontinha de nostalgia, eu me encontrava em frente ao palácio no qual o primeiro presidente socialista marxista da América Latina entrara para três anos depois morrer resistindo ao famigerado golpe do general Augusto Pinochet. A emoção foi imensa. E confesso que senti correr na espinha o mesmo arrepio de tempos atrás, quando ao saber da notícia da queda de Allende, fui tomada pela angústia de, de alguma maneira, ter sido conivente com as forças da repressão.

**************************************************************************






******************************************

Pôr do sol no Arpoador

Depois de um longo e adorável invernico em Teresópolis, onde passamos Natal e Réveillon, resolvemos tomar uma prize de Rio de Janeiro e fomos ver o pôr do sol no Arpoador. Foi no último domingo. Já era tarde, início da noite, e no entanto o sol parecia ir ainda alto, dada a intensidade da luz. Vinhamos de Copacabana e, por volta das dezenove horas cruzamos a Francisco Otaviano, no sentido de Ipanema. Em sentido contrário vinha um mundo de gente deixando a praia. Eram grupos só de rapazes ou só de moças, outros mistos e de idades variadas, pais e filhos, famílias inteiras, avós,tios, madrinhas e padrinhos, crianças de colo ou bem pequenas se entrelaçando nas pernas dos adultos, mulheres velhas de fio dental e muito, mas muito sacolé. Enfim, uma turba barulhenta que se deslocava atabalhoadamente pelas calçadas do bairro, sem tomar conhecimento dos outros, os que vinham ordeiros rumo ao seu banho de mar. “Um choque cultural brutal para o morador de Ipanema!”, foi a primeira coisa que pensei. Mas como é de meu feitio e tendência ideológica, imediatamente tentei argumentar> “ Apenas pessoas alegres que trabalharam a semana toda e agora tem seu momento de distensão.” “...talvez mais honestas do que muitas das de nossas relações.” “Gente que respeita a família e não cobiça a mulher do próximo, por exemplo.” “Afinal, todos têm direito a essa praia, ora bolas!” E nesse exato momento passa ao meu lado uma jovem mãe falando ao celular com a criança no colo, que estica o bracinho tentando pegar o aparelho. E ela berra no ouvido do pequeno que vai levar “porrada” se continuar a "zoar". E foi tanto palavrão e grito pra criança que eu desisti na hora de defender os “visitantes”. Sem mais palavras chegamos ao nosso destino. A areia ainda apinhada de gente. Esperamos com uma cervejinha no quiosque até que vagasse lugar. E antes do pôr do sol tomamos um delicioso banho de mar. Depois vinham chegando os amigos, um papinho aqui, outro ali, na beira do mar. Cada qual contando seu réveillon. E mais um pouquinho, e pimba!, o sol caiu dentro d'água, como uma gota de ouro em veludo drapeado. Apareceu no céu um filete de lua branca e a primeira estrela despontou. Um último mergulho afogou de vez a lembrança da nossa traumática chegada. Voltamos pra casa alegres, fazendo planos de desbravar esse caudaloso Atlântico Sul.

***************************************************************************

Tropa de Elite 2

Fui das primeiras pessoas a denunciar o caráter fascista do filme Tropa de Elite, aqui mesmo neste blog. Na época, assisti ao filme numa seção da tarde, na primeira semana do lançamento, antes de ouvir outras opiniões. E fiquei indignada com a justificativa do uso da violência por uma força policial que deveria, acima de tudo, respeitar o estado de direito.

Justificativa evidente na forma como o roteiro tratava o comandante da tropa de elite da PM, como um verdadeiro “herói”. Ora, o herói é, em toda mitologia, seja ela grega, judaica, cristã ou ianomâmi, um exemplo de desafio, conquista e superação, servido aos simples mortais como modelo para ser admirado.

É aí que se dá o caráter fascista do filme: o uso da violência por quem está do lado “certo” da história contra todos os que ousam atravessar seu caminho. Mesmo um garoto de não mais que 13 anos que, seduzido pela possibilidade de comprar um par de tênis importado, vira olheiro do tráfico.

Mostrar um soldado de elite espancando um adolescente na tela e, ainda por cima, levar a plateia a aplaudi-lo é chegar ao fim da linha para uma sociedade que se quer civilizada.

Foi só por causa da insistência de um amigo no qual deposito bastante confiança que me aventurei a assistir ao Tropa de Elite 2. E volto a este blog, desta vez para declarar que o filme é muito bom, que o diretor José Padilha se redimiu perante a sociedade ao assumir, nas palavras do agora Coronel Nascimento, o caráter fascista do antigo Capitão Nascimento.

Além disso, o filme conta uma parte da história recente do Rio de Janeiro, trata da relação espúria entre a política, a polícia e o crime organizado, desmascara o projeto de poder dessa verdadeira máfia que é a milícia e ainda dá uma pernada nos que defendiam a ação dos milicianos nas comunidades como um mal menor, seja por falta de informação, má fé ou por posição ideológica.

Mas o lado engraçado é que o pessoal da extrema direita acha o filme ruim. Diz que esse agora não tem nada a ver com o “Tropa” original, e bóia na história do personagem Diogo Fraga, baseado em Marcelo Freixo, professor de História que se tornou deputado estadual,lutou, conseguiu abrir e presidiu a CPI das milícias.

Marcelo Freixo se reelegeu no dia 3 de outubro, antes do lançamento do filme, portanto, para um segundo mandato na Assembléia Legislativa, pelo PSOL. Foi o segundo deputado mais votado no estado. E é por tudo isso, e por ser um filme bastante inteligente também, que eu recomendo aos leitores o Tropa de Elite 2.

***************************************************************************

PLAGAS TIJUCANAS

A crônica surgiu na Idade Média com a função de registrar fatos reais ao longo do tempo. E ao longo do tempo foi perdendo o caráter de documento oficial, na medida em que se aproximava do leitor. Entre nós, a crônica apareceu vinculada à imprensa e ao compromisso romântico de fundação de uma literatura nacional, para se consolidar, ao passar dos anos, como gênero literário mais apreciado pelos brasileiros.

E foi no Rio de Janeiro que a crônica caiu no gosto do povo. Pois além de se ver muitas vezes retratado em textos da mais fina tradição, o carioca reconheceu em bairros, ruas, bulevares e recantos da cidade cenários reveladores da mentalidade da época e das vivências das diferentes classes sociais.

Porém, comentar cenas do cotidiano, lançando um olhar poético sobre personagens, hábitos e costumes em determinado tempo e espaço não é privilégio da literatura. O cinema tem dado demonstração de grande vocação para a crônica, e Amarcord, de Fellini, é o exemplo mais corriqueiro e universal.

E foi justamente buscando exemplos nacionais de crônicas cinematográficas para levar aos meus telespectadores que fui parar na Praça Xavier de Brito, numa manhã gelada de sol. Foi o dia mais frio de outubro desde 96, segundo o jornal O Globo. Talvez pelo inusitado do clima, talvez pelo azul puríssimo do céu, a experiência tenha me parecido mágica; e boa de contar.

O lugar fica na Tijuca, um dos bairros do Rio mais mencionados nas páginas literárias e tão esquecido do cinema nacional. É a praça dos cavalinhos. Não sei se você já a conhece ou se dela já ouviu falar. Se tiver a oportunidade de visitá-la, não perca. Vai encontrar um espaço com tudo o que há de bom num grande centro urbano: lazer e diversão ao ar livre ou ao rés do chão para todos os gostos e idades.

E o chão de areia rústica das pistas que se cruzam na arquitetura da praça guardava ainda os arabescos de piaçava do pessoal da COMLURB que acabara de passar; para minha grata recepção. Olhando para o alto, vi as árvores frondosas que sombreiam o lugar. E me pareceu serem elas os mimos e cuidados do departamento de parques e jardins, tal a variedade de adornos vegetais pendendo de seus galhos generosos.

A praça ainda tem coreto, monumento e chafariz. Tem também área coberta com mesinhas para o carteado da turma da terceira idade. Mulheres jovens e nem tão jovens, mas charmosas, praticando o jogging diário; e a mãe empurrando o carrinho do bebê e papeando no celular.

Se você gosta de chope gelado, no entorno da praça é o que não falta. Experimente o do Bar do Pavão. Tome quantos copos agüentar e depois vá almoçar no Rei do Bacalhau, ali do lado. Mas, cuidado, não faça muito barulho que o lugar é tranqüilo por demais. Não há muito trânsito, ninguém corre, nem buzina. Leve a sua namorada e vá sentar-se com ela num dos bancos da praça dos cavalinhos. Espere desafobado o anoitecer, e faça um pedido à primeira estrela que aparecer. Você pode até não voltar lá. Mas mesmo que o seu desejo não se realize, você nunca vai esquecer a tarde que passou ligeira nas doces plagas tijucanas.


***************************************************************************

O país do desperdício

São Paulo é tudo de bom para uma visita rápida. Foi no mês de maio, do tradicional tempo bom. Independentemente da estação, seja inverno ou verão, o clima no mês das noivas costuma ser de sol e temperatura amena em quase todo o planeta. Então, não tem muito erro na hora de fazer a mala, o que já alivia bastante a má vontade do carioca em relação à capital paulista. Porque do contrário, a gente nunca sabe o tempo que pode fazer na terra da garoa. E aí é que a coisa pega, pois para não ser pego de calça curta, deve-se carregar duas vezes mais roupas, para inverno (se chover), e para verão (em dias de sol). Mas em maio não, em maio os dias são limpinhos, azulzinhos, faz friozinho, e à noite é mais frio ainda, mas sem aquela umidade enjoada no ar.

Eu fui à cidade principalmente para ver duas exposições de artes plásticas que me interessavam sobremaneira. A primeira, uma retrospectiva em homenagem ao Hélio Oiticica, um artista que cada vez mais se torna referência para a compreensão da arte contemporânea. Um intelectual que refletia sobre seu trabalho, registrando em texto suas experiências artísticas, suas intenções com cada obra. E esclarecendo, sempre que tinha a oportunidade, em entrevistas e depoimentos, seu processo criador.

A mostra põe à disposição do público o pensamento e inúmeras obras de Oiticica, entre elas o Parangolé (“Tudo começou com a formulação do Parangolé, em 1964, com toda a minha experiência com o samba, com a descoberta dos morros, com a arquitetura orgânica das favelas cariocas ...”), na sede do Itaú Cultural na Avenida Paulista. E ainda distribui, em locais de grande fluxo na cidade, obras da série Penetráveis, construídas de forma a serem penetradas pelo espectador. Não poderia ser melhor a ilustração de um dos principais conceitos elaborados por Hélio Oiticica, o de que a arte só se completa com a participação das pessoas.

A outra exposição foi Andy Warhol, Mr. América, na Estação Pinacoteca. O espaço é formidável e merece uma postagem especial, já que entre outras coisas abriga uma homenagem às vítimas do DoiCodi, na época da ditadura militar. Mas voltando à mostra de Warhol, a maior exposição do gênio da arte pop já feita no Brasil nos revela um artista enraizado no seu tempo e, por isso mesmo, capaz de traduzir em comentários perspicazes e nos trabalhos violentamente poéticos, o pathos da América da segunda metade do século XX.

Na mostra estão desde as Latas de Sopa Campbell’s aos retratos de Mohamed Ali e Pelé. Ao lado deste último um comentário do artista do dia em que fotografou o rei do futebol, em sua casa, em Nova York. Warhol diz que uma das coisas mais interessantes que viu na vida foi o fato de que no Brasil há pessoas de várias cores diferentes na mesma família.

É mesmo assim o nosso país, tão cheio de possibilidades que ainda não conseguimos entendê-lo muito bem. Quanto tempo perdido na discussão de cotas raciais! Quanto tempo perdido em disputas inócuas. Veja só, temos duas cidades como Rio e São Paulo, há menos de uma hora de avião uma da outra, as duas com aeroportos próximos ao centro, cada uma com mais atrações que a outra e em vez de promover o entrosamento cada vez maior entre elas e seus moradores, um intercâmbio comercial, cultural, artístico e turístico, que favoreceria as duas, estamos sempre a compará-las numa competição que não leva a nada.

É mesmo o país do desperdício esse Brasil.


***************************************************************************

Jogando para a plateia

Fiquei Abismada quando ouvi o presidente Lula afirmar que é muito difícil para as autoridades retirar os moradores de áreas de risco porque eles voltam sempre. Pior foi Lula falar em tom de solidariedade ao governador Sérgio Cabral, ao seu lado num evento no dia seguinte às chuvas que provocaram a situação de calamidade no Rio de Janeiro no início do mês. Quando o que era de se esperar, por Lula cultivar a imagem de presidente que mais fez pelos despossuídos na história desse país, seria além da mensagem de pesar, a promessa de empenho em ajudar a dar condições para que toda a população do Rio possa morar e trabalhar com dignidade.

Mas Lula falou com naturalidade apesar de saber que ninguém mora em área de risco porque quer. O presidente tem consciência, pela própria história de militância na esquerda, que a origem e crescimento das favelas no Rio de Janeiro têm a ver com financiamento para a construção de conjuntos habitacionais para a população de baixa renda, e transporte seguro, rápido e barato para levar que essas pessoas ao trabalho a um custo que lhes caiba no orçamento.

Então, por que o comentário leviano sobre a índole dessa gente despossuída de tudo, ao ponto de ir morar sobre um lixão? Porque Lula conhece o eleitorado do Rio. Porque, com o senso de oportunidade que lhe é peculiar, o presidente sabe que, aqui, a classe média é a grande formadora de opinião. E essas pessoas não têm compaixão. Em meio ao desespero das famílias e vizinhos das vítimas soterradas em lama e chorume, o que se ouvia no trabalho, na praia, no bar da esquina e na fila dos cinemas da Zona Sul era a voz da censura e do rancor disfarçada por entre expressões não propriamente de tristeza, mas, no máximo, de chateação.

Pois a classe média carioca é reacionária, exclusivista, insensível e preguiçosa. Para falar apenas de um detalhe emblemático da situação que se criou na cidade, essa gente insensível nunca abriu mão da doméstica para lhe servir de manhã à noite, e sem hora para ir dormir no cubículo claustrofóbico chamado até hoje de quarto-de-empregada. E por isso mesmo nunca se preocupou em reivindicar transporte adequado para que pudessem morar dignamente com suas famílias nos subúrbios e periferias da cidade e vir trabalhar na Zona Sul gastando menos de três a quatro horas do seu tempo de sono e descanso e de trinta por cento do seu salário.

Assim nasceram e cresceram as favelas que tanto incomodam o morador do asfalto. Ciente desse desconforto frívolo, tipicamente carioca, Lula preferiu censurar a parte fraca, pôs-se do lado em que a corda nunca arrebenta, e se absteve de apontar a irresponsabilidade histórica da elite do Rio de Janeiro em aceitar que políticos e governantes tratem grande parte da população como criaturas de segunda classe, e não como cidadãos.


************

Cuba Libre

A recente viagem a Cuba foi uma das melhores que já fiz na vida. Primeiro porque era um sonho antigo acalentado desde o início da minha carreira no jornalismo, quando só os diretores de jornais, os editores-chefes e os colunistas renomados eram convidados a visitar a ilha de Fidel. Nessa época, as delegações brasileiras eram recebidas com pompa e circunstância pelo regime castrista, de resto fechado ao turismo de um modo geral. E os chefes voltavam à redação contando maravilhas da viagem, deixando-nos, os simples operários da notícia, invejosos daquele privilégio.


O tempo passou e não houve uma oportunidade igual para mim, mesmo depois da abertura do país para o turismo. Hoje Havana é uma das cidades mais visitadas do Caribe, tem hotéis excelentes, um dos mais belos conjuntos arquitetônico da América Latina, os melhores músicos do mundo e os drinques mais saborosos do planeta. Mas o segundo motivo de minha extraordinária satisfação em visitar a ilha socialista não foi de interesse profissional, cultural ou artístico, mas por motivo fútil. Vou fazer uma volta no tempo para contar uma passagem da minha vida que talvez revele a origem de eu ter um temperamento rebelde.


Como toda adolescente, eu colecionava fotografias de artistas de cinema e, em vez de álbum, colava as fotos recortadas das revistas do lado de dentro da porta do meu armário. Era o espaço mais reservado possível na casa onde eu vivia com meus pais, irmãos e avó. E como as fotos eram presas com durex, eram trocadas logo que as revistas da semana anterior fossem substituídas pelas mais novas. Desta forma se mantinha atualizada minha galeria de galãs.


Um belo dia, folheando a revista Manchete ou O Cruzeiro, vi um rosto tão bonito quanto os de Alain Delon e Paul Newman, porém com um quê a mais, um certa aura de mártir; um ar romântico e ao mesmo tempo desafiador. À doçura do olhar, ele combinada uma postura altiva, quase arrogante. Tratava-se de um homem jovem, de pele clara e cabelos negros revoltos. A barba escura contrastava com as feições suaves, e o bigode hesitante delineava uma boca quase feminina. Belo como as mais cobiçadas estrelas de Hollywood, e ao mesmo tempo tão diferente, tão fora de padrão.


A foto em preto e branco, de página inteira, estava em destaque no centro da revista, onde só as celebridades mais importantes da atualidade tinham lugar. E, dali, meu ídolo mais recente foi direto para o meu recanto idílico de menina moça. Colei a foto na altura um pouco acima do meu rosto, de forma que pudéssemos cruzar o olhar sem dificuldade. E eu falseava, buscava não me dar conta da sua existência, abria o armário distraída, procurando apressada uma calcinha, um par de meias ... Para em seguida me surpreender e até mesmo corar sob o olhar daquele herói romântico, descobridor dos meus desejos mais íntimos.


Pena que o namoro durou pouco. Minha mãe, eleitora da UDN e fã de Carlos Lacerda, em sua inspeção periódica ao meu quarto, e num de seus arroubos cotidianos de voluntarismo, arrancou o recorte da porta do armário e rasgou o meu Che Guevara em pedacinhos. Transtornada, ela batia no peito e alardeava suas convicções patrióticas e religiosas, na casa de quem jamais entraria foto de um COMUNISTA. Eu ainda levei uns tapas quando argumentei que a foto do COMUNISTA havia sido recortada da revista que ela mesma comprava e lia todas as semanas.


Foi um trauma. Nunca mais quis saber de fotografias de artistas de cinema. Em compensação vi crescer em todo o mundo a admiração pelo moço proibido de entrar em minha casa, e passei a experimentar o agradável sabor da revanche a cada pôster, botton ou camiseta estampada com a imagem de Che Guevara. Imagem esta que se espalhou rapidamente pelo mundo como símbolo maior de coragem, abnegação e coerência.


Agora vocês podem imaginar qual não foi o meu prazer ao me deparar, em Cuba, a toda hora, com a imagem daquele meu primeiro amor. Impresso em outdoors com mensagens educativas ao longo das estradas, nos saguões dos prédios públicos, nas entradas de museus, nas paredes das lojas, nos caixas dos bares, ou na monumental figura esculpida em bronze na fachada do Ministério do Interior, na Praça da Revolução.
Muito mais do que Fidel Castro, e mesmo José Marti, poeta e herói da independência, em Cuba, é Che Guevara a personalidade mais cultuada. Assim como no México há imagens de Nossa Senhora de Guadalupe por todo canto e recanto, em Havana, a célebre imagem de Che, clicada pelo fotojornalista Alberto Korda, paira sobre os cidadãos como um padroeiro, um padim Cícero em Juazeiro.


Por isso, mais uma vez e em grande estilo, eu fui à forra daquele dia em que dormi sem beijar meu ídolo de papel. Mas só eu sei que sonhei com seu olhar romântico noites seguidas e, até hoje, tenho a convicção de que Che Guevara, com sua aura de Santo Guerreiro, foi o homem mais sexy que eu conheci.



*****************************************