Desta vez o luar foi sobre Varadero. Veio sem alarde e sem reclame, no último dia da nossa viagem a Cuba. Depois do jantar, fomos andar na beira da praia, e com o mar ondulando nossos passos, repassamos, encharcados da lua cheia, cada instante do pouco tempo que já dura nosso amor...
... assim acabaram-se as férias mais adoraveis de que me lembro. Antes de Varadero, foram quatro noites em Havana, todas regadas ao bom rum do Caribe e embaladas por rumbas e boleros que, desde sempre, fizeram a trilha sonora das minhas mais românticas fantasias.
De dia Havana é ainda melhor. Que cidade linda! Não há capital mais limpa em todo o planeta. Pelo menos não nesta parte do mundo onde não falta o demônio, como diria Clarice Lispector, para quem a Suíça era bonita mas sofria de ausência do danado.
E como são belas e imponentes as construções de palácios e prédios públicos que vão do estilo colonial espanhol ao modernista, percorrendo cinco séculos de história latino americana. E tal conjunto arquitetônico de valor inestimável é disposto em largas alamedas em meio a amplas e arborizadas praças, algumas das quais se percorre pisando cerâmica impecavelmente conservada.
Permeando a grandiosidade das avenidas com seus monumentos imperiais, republicanos e revolucionários há as típicas ruelas de sobrados singelos com varandas de serralheria rústica. Nelas, há quase sempre uma corda onde roupas coloridas tremulam ao vento em ritmo de salsa, talvez querendo mostrar com poesia como a vida simples do povo faz a grandeza de uma nação.
*************************************************************************************
Afinidades Eletivas
É cedo. Chove pela primeira vez no Rio de Janeiro em mais de dez dias de um calor senegalês. E eu volto a este blog depois de um longo e tenebroso inverno. A metáfora é um clichê pra lá de gasto, dele lanço mão apenas para que fique entendido que o contato com vocês me fez falta nesse período no qual trabalhei em dobro para tirar umas férias que já vão pela metade. O batente duplicado naturalmente me estressou, mas agora gozo o ócio remunerado e, estimulada pela chuvinha fina que cai lá fora e o café fumegante que sorvo aos golinhos ligeiros, vou direto às novas.
Foi um ano bom. Fechei uma série de trinta programas de televisão sobre literatura brasileira e universal, do qual sou editora de conteúdo, roteirista e apresentadora. Foi um ano de desafios, de muito estudo, trabalho duro e pouco tempo livre, mas também de grandes satisfações e algum contratempo. O importante é que o saldo é positivo, e prova disso foi o fato de poder romper com amarras emocionais há muito rotas e já desnecessárias. Os reflexos da rebeldia fizeram-se notar mais precisamente no último Natal. O primeiro da alforria. Livre, fiz o que bem entendi na noite de 24 de dezembro. Inteira, não vi meus mais genuínos desejos estilhaçados pela tirania familiar; que costuma recrudescer nessa época do ano, por mais paradoxal que seja
.
Sim, porque neste período é aberta a temporada de confraternização forçada, imposta por laços de família ou obrigações profissionais, que nem sempre coincidem com a admiração honesta, com a gratidão espontânea e o autêntico bem querer.
Porque o amor não precisa de data certa para dar demonstrações. Muito menos de presentes com preços superfaturados comprados no tumulto dos shoppings na véspera dos feriados. O amor prescinde das reuniões forçadas com parentes que passam o ano inteiro te derrubando e aproveitam a festa de “família” para te dar aquela última sacaneada do ano, regada a vinho quente e peru com farofa.
Pelo amor de Deus, amar é muito mais dar que receber ( outro clichê que me ocorre e do qual ando bastante convencida). Amar aos seus é deixá-los livres para curtir o que bem lhes aprouver, sem cobranças. Amar é entender que as carências são todas suas e que só há erros porque há acertos também. E se as carências são minhas vou tratá-las com o que tenho de melhor: senso prático.
Assim levei meus filhos e seus enteados, com as respectivas noras para uma noite de Natal diferente. Fomos todos ao cinema assistir a Avatar em 3D, com direito a jantar depois no Out Beck. E isso no dia 23 de dezembro. Que tal? Um programão, sem lembrancinhas e muito menos amigo oculto, essa coisa inventada não sei por quem, mas, em minha opinião, sem graça nenhuma. E no dia 24 fui cear com amigos queridos, na casa de um deles. Fui confraternizar com gente de quem gosto muito e com quem me apraz conversar. Gente escolhida reciprocamente ao longo da vida. Gente reunida por afinidades eletivas, como tão bem entendeu e escreveu Goethe no livro do mesmo nome.
(Escrevi este texto ontem, dia 15, quando até minha internet estava preguiçosa)
As outras novidades vêm a seguir. Aguarde !
Foi um ano bom. Fechei uma série de trinta programas de televisão sobre literatura brasileira e universal, do qual sou editora de conteúdo, roteirista e apresentadora. Foi um ano de desafios, de muito estudo, trabalho duro e pouco tempo livre, mas também de grandes satisfações e algum contratempo. O importante é que o saldo é positivo, e prova disso foi o fato de poder romper com amarras emocionais há muito rotas e já desnecessárias. Os reflexos da rebeldia fizeram-se notar mais precisamente no último Natal. O primeiro da alforria. Livre, fiz o que bem entendi na noite de 24 de dezembro. Inteira, não vi meus mais genuínos desejos estilhaçados pela tirania familiar; que costuma recrudescer nessa época do ano, por mais paradoxal que seja
.
Sim, porque neste período é aberta a temporada de confraternização forçada, imposta por laços de família ou obrigações profissionais, que nem sempre coincidem com a admiração honesta, com a gratidão espontânea e o autêntico bem querer.
Porque o amor não precisa de data certa para dar demonstrações. Muito menos de presentes com preços superfaturados comprados no tumulto dos shoppings na véspera dos feriados. O amor prescinde das reuniões forçadas com parentes que passam o ano inteiro te derrubando e aproveitam a festa de “família” para te dar aquela última sacaneada do ano, regada a vinho quente e peru com farofa.
Pelo amor de Deus, amar é muito mais dar que receber ( outro clichê que me ocorre e do qual ando bastante convencida). Amar aos seus é deixá-los livres para curtir o que bem lhes aprouver, sem cobranças. Amar é entender que as carências são todas suas e que só há erros porque há acertos também. E se as carências são minhas vou tratá-las com o que tenho de melhor: senso prático.
Assim levei meus filhos e seus enteados, com as respectivas noras para uma noite de Natal diferente. Fomos todos ao cinema assistir a Avatar em 3D, com direito a jantar depois no Out Beck. E isso no dia 23 de dezembro. Que tal? Um programão, sem lembrancinhas e muito menos amigo oculto, essa coisa inventada não sei por quem, mas, em minha opinião, sem graça nenhuma. E no dia 24 fui cear com amigos queridos, na casa de um deles. Fui confraternizar com gente de quem gosto muito e com quem me apraz conversar. Gente escolhida reciprocamente ao longo da vida. Gente reunida por afinidades eletivas, como tão bem entendeu e escreveu Goethe no livro do mesmo nome.
(Escrevi este texto ontem, dia 15, quando até minha internet estava preguiçosa)
As outras novidades vêm a seguir. Aguarde !
Postagem pra lua
Ela saiu mansa, densa, plena. Ainda sem forma precisa, meio oval sob a bruma espessa que ofusca as luzes de Icaraí. Eu espero por esta lua há tempos, todos os meses, todos os dias marcados para serem noites de lua cheia. Mas aí nublava. E no mês seguinte chovia, e no outro um compromisso.
Agora ela aparece sobre Niterói. Deslumbrantemente laranja, suculenta e calma. A cada minuto sobe um pouco mais; aos poucos tomando forma, arredondando. Desponta uma curva meia lua, como um ombro nu. A outra metade despojada de nuvens, surge como se deixasse cair um xale diáfano a seus pés. E vem altaneira azulando o céu. E crava sua figura de luz no azul profundo e aveludado. Marca minha retina, ofusca minhas memórias. Faz do meu coração tabula rasa, pra derramar faceira um vau de ouro sobre o espelho d’água.
Ainda bem que ele ficou de vir. Vem hoje, como veio ontem e anteontem. Que venha pleno como esta lua. Que venha transbordando de beijos salgados e olhos marinhos. Que venha alegre como os golfinhos. Que dance, cante e conte piadas picantes. E no pé do ouvido me fale do Egito. Que fume, que se embriague, que queime em desejos tribais os lençois da minha cama. E depois caia no sono, em abandono largo.
Mas a noite regurgitou o bafo quente do dia, em que o sol ardeu por doze horas sem descanso. E os ânimos se exaltaram indóceis em corpos eriçados. Os copos tilintaram o cristal boêmio até pra lá da madrugada. O som do funk na varanda, as pétalas arrancadas de uma orquídea, um riso nervoso e, enfim, é dita a palavra errada.
A lua escorregou por detrás dos edifícios, e os porteiros já estão lavando os carros. Ele partiu. Não se despediu, foi desconfiado. Nunca mais um beijo amante, nem mergulhar juntos no mar. Nem vinho, nem volta, nem vontade vamos ter. Nada que possa arranjar um desnorteio como esse; que não tem conserto, nem emenda, nem soneto.
Quem sabe em outro dia de outubro... Em outra noite de luar?
*************************************************************************************
Agora ela aparece sobre Niterói. Deslumbrantemente laranja, suculenta e calma. A cada minuto sobe um pouco mais; aos poucos tomando forma, arredondando. Desponta uma curva meia lua, como um ombro nu. A outra metade despojada de nuvens, surge como se deixasse cair um xale diáfano a seus pés. E vem altaneira azulando o céu. E crava sua figura de luz no azul profundo e aveludado. Marca minha retina, ofusca minhas memórias. Faz do meu coração tabula rasa, pra derramar faceira um vau de ouro sobre o espelho d’água.
Ainda bem que ele ficou de vir. Vem hoje, como veio ontem e anteontem. Que venha pleno como esta lua. Que venha transbordando de beijos salgados e olhos marinhos. Que venha alegre como os golfinhos. Que dance, cante e conte piadas picantes. E no pé do ouvido me fale do Egito. Que fume, que se embriague, que queime em desejos tribais os lençois da minha cama. E depois caia no sono, em abandono largo.
Mas a noite regurgitou o bafo quente do dia, em que o sol ardeu por doze horas sem descanso. E os ânimos se exaltaram indóceis em corpos eriçados. Os copos tilintaram o cristal boêmio até pra lá da madrugada. O som do funk na varanda, as pétalas arrancadas de uma orquídea, um riso nervoso e, enfim, é dita a palavra errada.
A lua escorregou por detrás dos edifícios, e os porteiros já estão lavando os carros. Ele partiu. Não se despediu, foi desconfiado. Nunca mais um beijo amante, nem mergulhar juntos no mar. Nem vinho, nem volta, nem vontade vamos ter. Nada que possa arranjar um desnorteio como esse; que não tem conserto, nem emenda, nem soneto.
Quem sabe em outro dia de outubro... Em outra noite de luar?
*************************************************************************************
Rita Cadillac e o Festival do Rio
Uma das decisões que vou tomar no próximo último dia do ano será a de tirar férias no mês do Festival do Rio. É que a programação é tão variada e a quantidade de filmes interessantes que não serão exibidos em outra oportunidade é tal que, para os cinéfilos, o festival vale como dar a volta ao mundo em quinze dias no escurinho do cinema. Pode ser melhor?
E além disso dá a maior dó o fato de ter credencial e não poder curtir todos os filmes da Première Brasil, a minha preferida porque além da oportunidade de acompanhar a produção nacional, a mostra acontece no cinema Odeon, o melhor da cidade, com seu café-bar-restaurante charmosíssimo, com vista para a Cinelândia.
Mas vamos lá. Do que eu vi, da produção nacional, foram três os filmes de longa-metragem de ficção que mais me impressionaram. “Viajo porque preciso, volto porque te amo”, de Karim Aïnouz e Marcelo Gomes é um road movie narrado em primeira pessoa pelo protagonista. Ele nunca aparece, apenas ouvimos sua voz falando como se ditasse cartas. As imagens são tomadas do seu ponto de vista durante viagem de carro pelo semi-árido nordestino. O que faz da fita uma experiência singular, porém prazerosa, pois o texto é bom e a fotografia de Heloísa Passos (troféu Redentor), excelente. Enquanto faz o levantamento topográfico da região que será inundada com transposição de águas de um rio, o herói conta o fim do seu casamento e a dor da separação; o esforço para superar a perda da mulher amada; e a procura de consolo no sexo de programa e na prostituição. A decisão final do protagonista de mergulhar no mundo em busca de um novo amor é ilustrada com uma sequência espetacular de mergulhadores profissionais de Acapulco, com trilha sonora de música mexicana, daquelas em que o naipe de sopros de tão bom pinica o coração mais redimido. O filme ganhou justamente o troféu de melhor direção.
Já “Hotel Atlântico”, de Suzana Amaral deixou a desejar. Pois apesar de condizente com a grife de qualidade em adaptação literária que Suzana inaugurou com “A Hora da Estrela”(do romance homônimo de Clarice Lispector); da produção bem-cuidada e história tecnicamente bem- conduzida, este agora não passa de um filme bem-feito. Os atores, no entanto, fazem um trabalho brilhante e há sequências muito boas também. Talvez a minha dificuldade seja com o universo de João Gilberto Noll. Diferentemente da obra de Clarice, em que personagens comuns se deparam com o mistério da existência, o autor gaúcho lança mão de protagonistas improváveis para mostrar que a vida é fria como uma lâmina.
Chovia muito na noite em que foi exibido “Os inquilinos”, de Sérgio Bianchi. E eu só fui ao Odeon, depois de um longo dia de trabalho, porque gostei muito de “Cronicamente Inviável” e “Vale quanto pesa, ou é por quilo?”, dois filmes anteriores de Sérgio, e que como este último dão um soco bem dado no estômago do espectador. Naqueles, o golpe é uma crítica contundente à mentalidade mesquinha, violenta, gananciosa, porém dissimulada da sociedade brasileira. Neste, é o retrato da realidade assustadora da nossa classe média, oprimida entre a violência que deixou crescer e ausência da cidadania que não se esforça para construir. O filme ganhou o Redentor de melhor roteiro.
Dos documentários, eu vi e não gostei de “ Alô, Alô Teresinha”, de Nelson Hoineff. Nelson fez sucesso na década de 1990, com o programa televisivo de reportagens Documento Especial, da extinta TV Manchete. É um grande jornalista e ótimo teórico de comunicação. Foi meu editor durante seis anos no Jornal da Manchete, e eu credito grande parte do sucesso que tive naquela ocasião à qualidade do programa.
Não posso dizer o mesmo deste documentário sobre Chacrinha. É desrespeitoso com a memória do Velho Guerreiro e humilhante para as chacretes, que estão aí, têm família, e admiradores. O incrível é que o diretor conseguiu levar todas elas à estréia do filme, no Odeon. Como são ignorantes! São destratadas na tela e comparecem à exibição do filme sentindo-se homenageadas! Quer dizer, deixaram-se humilhar também ao vivo. Uma tristeza. Até Roberto Carlos está mal na fita. O rei aparece desprovido de carisma, mal fotografado, mal enquadrado, desperdiçado, enfim.
Apenas duas pessoas Nelson Hoineff não conseguiu maltratar no seu longa: Fábio Júnior e Rita Cadillac. Talvez porque sejam muito autênticos e banquem, sem culpa, sua condição existencial, por mais estranha que seja. Talvez porque tenham sacado tudo e resolveram ser mais sacanas que o diretor.
Bem, é isso aí. No mais, palmas para a organização do Festival do Rio. Da seleção de filmes à cerimônia de premiação, foi um evento impecável. Ilda Santiago e Walkyria Bargosa estão de parabéns. Parabéns também para Lílian Hargreaves que cuidou da imprensa com profissionalismo e atenção.
**************************************
E além disso dá a maior dó o fato de ter credencial e não poder curtir todos os filmes da Première Brasil, a minha preferida porque além da oportunidade de acompanhar a produção nacional, a mostra acontece no cinema Odeon, o melhor da cidade, com seu café-bar-restaurante charmosíssimo, com vista para a Cinelândia.
Mas vamos lá. Do que eu vi, da produção nacional, foram três os filmes de longa-metragem de ficção que mais me impressionaram. “Viajo porque preciso, volto porque te amo”, de Karim Aïnouz e Marcelo Gomes é um road movie narrado em primeira pessoa pelo protagonista. Ele nunca aparece, apenas ouvimos sua voz falando como se ditasse cartas. As imagens são tomadas do seu ponto de vista durante viagem de carro pelo semi-árido nordestino. O que faz da fita uma experiência singular, porém prazerosa, pois o texto é bom e a fotografia de Heloísa Passos (troféu Redentor), excelente. Enquanto faz o levantamento topográfico da região que será inundada com transposição de águas de um rio, o herói conta o fim do seu casamento e a dor da separação; o esforço para superar a perda da mulher amada; e a procura de consolo no sexo de programa e na prostituição. A decisão final do protagonista de mergulhar no mundo em busca de um novo amor é ilustrada com uma sequência espetacular de mergulhadores profissionais de Acapulco, com trilha sonora de música mexicana, daquelas em que o naipe de sopros de tão bom pinica o coração mais redimido. O filme ganhou justamente o troféu de melhor direção.
Já “Hotel Atlântico”, de Suzana Amaral deixou a desejar. Pois apesar de condizente com a grife de qualidade em adaptação literária que Suzana inaugurou com “A Hora da Estrela”(do romance homônimo de Clarice Lispector); da produção bem-cuidada e história tecnicamente bem- conduzida, este agora não passa de um filme bem-feito. Os atores, no entanto, fazem um trabalho brilhante e há sequências muito boas também. Talvez a minha dificuldade seja com o universo de João Gilberto Noll. Diferentemente da obra de Clarice, em que personagens comuns se deparam com o mistério da existência, o autor gaúcho lança mão de protagonistas improváveis para mostrar que a vida é fria como uma lâmina.
Chovia muito na noite em que foi exibido “Os inquilinos”, de Sérgio Bianchi. E eu só fui ao Odeon, depois de um longo dia de trabalho, porque gostei muito de “Cronicamente Inviável” e “Vale quanto pesa, ou é por quilo?”, dois filmes anteriores de Sérgio, e que como este último dão um soco bem dado no estômago do espectador. Naqueles, o golpe é uma crítica contundente à mentalidade mesquinha, violenta, gananciosa, porém dissimulada da sociedade brasileira. Neste, é o retrato da realidade assustadora da nossa classe média, oprimida entre a violência que deixou crescer e ausência da cidadania que não se esforça para construir. O filme ganhou o Redentor de melhor roteiro.
Dos documentários, eu vi e não gostei de “ Alô, Alô Teresinha”, de Nelson Hoineff. Nelson fez sucesso na década de 1990, com o programa televisivo de reportagens Documento Especial, da extinta TV Manchete. É um grande jornalista e ótimo teórico de comunicação. Foi meu editor durante seis anos no Jornal da Manchete, e eu credito grande parte do sucesso que tive naquela ocasião à qualidade do programa.
Não posso dizer o mesmo deste documentário sobre Chacrinha. É desrespeitoso com a memória do Velho Guerreiro e humilhante para as chacretes, que estão aí, têm família, e admiradores. O incrível é que o diretor conseguiu levar todas elas à estréia do filme, no Odeon. Como são ignorantes! São destratadas na tela e comparecem à exibição do filme sentindo-se homenageadas! Quer dizer, deixaram-se humilhar também ao vivo. Uma tristeza. Até Roberto Carlos está mal na fita. O rei aparece desprovido de carisma, mal fotografado, mal enquadrado, desperdiçado, enfim.
Apenas duas pessoas Nelson Hoineff não conseguiu maltratar no seu longa: Fábio Júnior e Rita Cadillac. Talvez porque sejam muito autênticos e banquem, sem culpa, sua condição existencial, por mais estranha que seja. Talvez porque tenham sacado tudo e resolveram ser mais sacanas que o diretor.
Bem, é isso aí. No mais, palmas para a organização do Festival do Rio. Da seleção de filmes à cerimônia de premiação, foi um evento impecável. Ilda Santiago e Walkyria Bargosa estão de parabéns. Parabéns também para Lílian Hargreaves que cuidou da imprensa com profissionalismo e atenção.
**************************************
Festival do Rio
A noite de abertura do Festival do Rio foi um estouro. Não que o tempo estivesse bom e o programa tenha começado na hora, evitando a já tradicional aglomeração desconfortável no exíguo e abafado saguão do Odeon. Não, quase todos os erros das vezes anteriores foram repetidos. Como, por exemplo, deixar por muito tempo a imprensa esperando do lado de fora, enquanto as estrelas e personalidades do cinema nacional e internacional chegavam e iam se acomodando no café e no restaurante anexos à sala de projeção. Pior, chovia a cântaros, e os pobres dos fotógrafos e jornalistas responsáveis pela cobertura do evento ficaram ao desabrigo, à mercê da intempérie por quase uma hora.
Até os seguranças se protegiam debaixo dos sombreiros montados na entrada, que por sinal ficava muito afastada da única possível parada dos carros. Logo, os convidados ou portavam guarda-chuvas ou chegavam ao cinema encharcados. Eu, de minha parte, enfrentei a travessia com a cabeça coberta por uma pashmina, como fazem as muçulmanas. Deu no jornal que foi para proteger o penteado, e foi mesmo.
Mas como pode ter sido um estouro uma noite que começa mal? Elementar, caro leitor. É só ir melhorando no decorrer do período. Coisa que não aconteceu com a chuva que só piorou. No entanto, passados os contratempos do começo, o evento foi indo de bom a melhor. O auge foi a projeção do filme Woodstock, de Ang Lee. Um primor de fita, uma história bem contada sob todos os pontos de vista. Bom roteiro, bons atores e a excelência da batuta do taiwanês radicado nos Estados Unidos. Mas o melhor do filme é contar como aquele festival de música, marco das transformações culturais mais profundas e contagiantes do planeta no século passado, processou tais transformações no microcosmo de uma família careta, numa cidade idem. É hilário na variedade de situações inusitadas, é sensível ao mostrar a felicidade proporcionada pelas liberdades individuais respeitadas, é humano na construção de personagens que costumam ser tratados como caricaturas (vide o travesti), é, enfim, um filme delicioso de assistir.
Mas antes do filme teve a abertura da cerimônia com um discurso rápido e eficiente do prefeito que, diga-se de passagem, foi muito aplaudido na subida ao palco e aplaudidíssimo ao final, ao dar por oficialmente aberto o festival. Christiane Torloni não gostou. Mestre de cerimônias, junto com Toni Ramos, a bela demonstrou francamente sua contrariedade com o prefeito. Coisa que ninguém na platéia entendeu.
E aí chamaram ao palco a diva da Nouvelle Vague, Jeanne Moreau. Linda, aos oitenta e seis anos, a atriz fez um discurso tão bom que dispensou tradução para o português. Pois os que não entendem francês, entenderam a entonação e, seja por conta da sintaxe semelhante entre as duas línguas, seja pela modulação da voz bem treinada de intérprete de La Moreau, a mensagem foi transmitida com sucesso.
Elegantíssima, a protagonista de Jules e Jim vestia um conjunto parecido com um jogging de malha branca com brilho, botas brancas e um redingote longo e negro, aberto na frente, com uma imensa flor branca na lapela. Divina!
Depois do filme veio a festa. Como as anteriores, teve comida e bebida à vontade, salão de dança e DJs. O ambiente estava agradável, encontrei pessoas conhecidas, outras amigas e uma queridíssima. Lá pelas tantas, estava com meu prato na mão, conversando com amigos, ao lado de uma mesa alta que servia de pouso para os drinques, quando um lindo rapaz, alto, de terno branco e camisa preta, cabelos negros gomalinados e olhos claros de cristal, se aproximou num rodopio e lançou um “Leila Richers você é linda!” Eu quase tomei um susto, mas cheguei a perguntar seu nome para agradecer o elogio. O moço não esperou, assim como veio ele se foi, com um pivô de bailarino russo, fazendo ventania atrás de si. Alguém da turma comentou: “Foi embora rápido, antes que virasse homem!”. Como vocês sabem, uma festa não é completa se faltar maldade no salão.
*************************************************************************************
Até os seguranças se protegiam debaixo dos sombreiros montados na entrada, que por sinal ficava muito afastada da única possível parada dos carros. Logo, os convidados ou portavam guarda-chuvas ou chegavam ao cinema encharcados. Eu, de minha parte, enfrentei a travessia com a cabeça coberta por uma pashmina, como fazem as muçulmanas. Deu no jornal que foi para proteger o penteado, e foi mesmo.
Mas como pode ter sido um estouro uma noite que começa mal? Elementar, caro leitor. É só ir melhorando no decorrer do período. Coisa que não aconteceu com a chuva que só piorou. No entanto, passados os contratempos do começo, o evento foi indo de bom a melhor. O auge foi a projeção do filme Woodstock, de Ang Lee. Um primor de fita, uma história bem contada sob todos os pontos de vista. Bom roteiro, bons atores e a excelência da batuta do taiwanês radicado nos Estados Unidos. Mas o melhor do filme é contar como aquele festival de música, marco das transformações culturais mais profundas e contagiantes do planeta no século passado, processou tais transformações no microcosmo de uma família careta, numa cidade idem. É hilário na variedade de situações inusitadas, é sensível ao mostrar a felicidade proporcionada pelas liberdades individuais respeitadas, é humano na construção de personagens que costumam ser tratados como caricaturas (vide o travesti), é, enfim, um filme delicioso de assistir.
Mas antes do filme teve a abertura da cerimônia com um discurso rápido e eficiente do prefeito que, diga-se de passagem, foi muito aplaudido na subida ao palco e aplaudidíssimo ao final, ao dar por oficialmente aberto o festival. Christiane Torloni não gostou. Mestre de cerimônias, junto com Toni Ramos, a bela demonstrou francamente sua contrariedade com o prefeito. Coisa que ninguém na platéia entendeu.
E aí chamaram ao palco a diva da Nouvelle Vague, Jeanne Moreau. Linda, aos oitenta e seis anos, a atriz fez um discurso tão bom que dispensou tradução para o português. Pois os que não entendem francês, entenderam a entonação e, seja por conta da sintaxe semelhante entre as duas línguas, seja pela modulação da voz bem treinada de intérprete de La Moreau, a mensagem foi transmitida com sucesso.
Elegantíssima, a protagonista de Jules e Jim vestia um conjunto parecido com um jogging de malha branca com brilho, botas brancas e um redingote longo e negro, aberto na frente, com uma imensa flor branca na lapela. Divina!
Depois do filme veio a festa. Como as anteriores, teve comida e bebida à vontade, salão de dança e DJs. O ambiente estava agradável, encontrei pessoas conhecidas, outras amigas e uma queridíssima. Lá pelas tantas, estava com meu prato na mão, conversando com amigos, ao lado de uma mesa alta que servia de pouso para os drinques, quando um lindo rapaz, alto, de terno branco e camisa preta, cabelos negros gomalinados e olhos claros de cristal, se aproximou num rodopio e lançou um “Leila Richers você é linda!” Eu quase tomei um susto, mas cheguei a perguntar seu nome para agradecer o elogio. O moço não esperou, assim como veio ele se foi, com um pivô de bailarino russo, fazendo ventania atrás de si. Alguém da turma comentou: “Foi embora rápido, antes que virasse homem!”. Como vocês sabem, uma festa não é completa se faltar maldade no salão.
*************************************************************************************
Clarice Lispector e o aniversário de criança
*
Minha amiga passou de taxi e fomos assistir ao espetáculo Simplesmente eu. Clarice Lispector, no CCBB. No caminho ela contou que vinha de um aniversário de criança. Quis saber se sua filha, que eu gosto muito, tinha se divertido bastante. Impossível uma criança não se divertir numa festa de aniversário hoje em dia, com a quantidade de atrações que os pais contratam para tais ocasiões. É teatrinho, animadores e pula-pula, no mínimo, porque a maioria prefere alugar casas de festas, e aí há sempre um incontável número de atividades! Mas as crianças brincam umas com as outras?, perguntei. Mais brigam, porque ficam tão excitadas com a descomunal oferta de diversão que disputam com o coleguinha ao lado até um balão de gás de cor diferente!
Pais angustiados, filhos mais angustiados ainda, e assim caminha a humanidade... No meu tempo era diferente!, contei-lhe num transe saudosista. As festas de aniversário eram sempre na casa dos aniversariantes e invariavelmente nos fins de semana, porque no dia mesmo era um bolo no colégio e olhe lá. Mas havia muito encanto nessas ocasiões e nós aproveitávamos pra valer. Tinha sempre um adulto por perto, quase sempre o mais camarada da família, para organizar as brincadeiras de pêra-uva-e-maçã. Enquanto os pais se mantinham distraídos no uísque com gelo, para as mães era uísque com guaraná.
Essas comemorações varavam a tarde, entravam pela noite e costumavam ter dança depois do parabéns. A música era a da preferência do anfitrião, pos naquela época não havia a ditadura da criança. Lembro que as melhores festas eram na casa de um Alagoano que adorava Jackson do Pandeiro. Eu não desgostava, mas quase não podia me concentrar na dança, só pensando no pescoço rotativo da Alzira que “pulava que nem uma guariba. E gritava a e i o u ipslone.”
Havia ainda outro fato que me afligia. Eram os dois irmãos que usavam terno e gravata nos aniversários, embora não passassem dos dez e doze anos de idade. O mais velho então ficava sinistro daquela maneira, parecia a miniatura do pai. E por mais que me incomodasse o tecido áspero com cheiro de naftalina, não nos seria permitido recusar um convite para dançar feito com gentileza por outros convidados. E assim, com o passar dos anos, peguei até amizade aqueles irmãos. Além, é claro, do gosto pela dança de salão.
Bom mesmo é que na época, bastava um disco na vitrola e estava garantida a diversão. Acho até que aquelas festinhas nos preparavam para uma vida mais feliz, o individualismo era combatido e a camaradagem estimulada de maneira muito natural.
Hoje, a sociedade adota o discurso hipócrita de aprovar a diversidade, mas está cada vez mais massificada, tendo todos que se enquadrar nos padrões determinados de beleza, sucesso e comportamento. Tudo regido pelo consumo e a vaidade, inclusive as relações interpessoais. Não há tempo a perder, e o outro deve ser descartado ou aproveitado rapidamente e com sofreguidão, pois “a fila tem que andar.”
Pensava nisso enquanto esperava o teatro lotar e a peça sobre a vida e obra de Clarice Lispector começar. Pensava como teriam sido essas festinhas no tempo de Clarice, em Pernambuco, onde a escritora passou a infância. Mas o tempo de Clarice é tão único, e corre em outro ritmo, o da subjetividade feminina. Por isso sua literatura é revolucionária, por abrir novos caminhos para a prosa, e Clarice escreve por inteiro, envolvendo a realidade, os objetos e as personagens com todo o corpo, oferecendo aos leitores uma visão alternativa da realidade.
Para a autora de Perto do Coração Selvagem, o tempo maior é o dos pequenos instantes de epifania, que provocam o crescimento emocional e psicológico das personagens, como a grã-fina que experimentam um turbilhão de emoções ao pisar num rato morto, distraída, em seu passeio por Copacabana. Esta Clarice, autora, está no palco do CCBB, muito bem representada por Beth Goulart. Também a Clarice pessoa, das cartas e entrevistas, desfilando o elegante figurino dos anos cinquenta,em meio a um amplo e belo cenário, iluminada com arte e precisão. Clarice, a mulher que gostava de ser apreciada acima de tudo pela beleza física. A mãe que trabalhava sentada no sofá, com a máquina de escrever no colo, os filhos pequenos ao seu redor.
É um monólogo, um corte e colagem de tempos e espaços, um retrato com claros, escuros e nuances da escritora, mãe e mulher. Um texto bem ao estilo de Clarice, em palimpsesto.
Parabéns para Beth Goulart!
*************************************************************************************
Minha amiga passou de taxi e fomos assistir ao espetáculo Simplesmente eu. Clarice Lispector, no CCBB. No caminho ela contou que vinha de um aniversário de criança. Quis saber se sua filha, que eu gosto muito, tinha se divertido bastante. Impossível uma criança não se divertir numa festa de aniversário hoje em dia, com a quantidade de atrações que os pais contratam para tais ocasiões. É teatrinho, animadores e pula-pula, no mínimo, porque a maioria prefere alugar casas de festas, e aí há sempre um incontável número de atividades! Mas as crianças brincam umas com as outras?, perguntei. Mais brigam, porque ficam tão excitadas com a descomunal oferta de diversão que disputam com o coleguinha ao lado até um balão de gás de cor diferente!
Pais angustiados, filhos mais angustiados ainda, e assim caminha a humanidade... No meu tempo era diferente!, contei-lhe num transe saudosista. As festas de aniversário eram sempre na casa dos aniversariantes e invariavelmente nos fins de semana, porque no dia mesmo era um bolo no colégio e olhe lá. Mas havia muito encanto nessas ocasiões e nós aproveitávamos pra valer. Tinha sempre um adulto por perto, quase sempre o mais camarada da família, para organizar as brincadeiras de pêra-uva-e-maçã. Enquanto os pais se mantinham distraídos no uísque com gelo, para as mães era uísque com guaraná.
Essas comemorações varavam a tarde, entravam pela noite e costumavam ter dança depois do parabéns. A música era a da preferência do anfitrião, pos naquela época não havia a ditadura da criança. Lembro que as melhores festas eram na casa de um Alagoano que adorava Jackson do Pandeiro. Eu não desgostava, mas quase não podia me concentrar na dança, só pensando no pescoço rotativo da Alzira que “pulava que nem uma guariba. E gritava a e i o u ipslone.”
Havia ainda outro fato que me afligia. Eram os dois irmãos que usavam terno e gravata nos aniversários, embora não passassem dos dez e doze anos de idade. O mais velho então ficava sinistro daquela maneira, parecia a miniatura do pai. E por mais que me incomodasse o tecido áspero com cheiro de naftalina, não nos seria permitido recusar um convite para dançar feito com gentileza por outros convidados. E assim, com o passar dos anos, peguei até amizade aqueles irmãos. Além, é claro, do gosto pela dança de salão.
Bom mesmo é que na época, bastava um disco na vitrola e estava garantida a diversão. Acho até que aquelas festinhas nos preparavam para uma vida mais feliz, o individualismo era combatido e a camaradagem estimulada de maneira muito natural.
Hoje, a sociedade adota o discurso hipócrita de aprovar a diversidade, mas está cada vez mais massificada, tendo todos que se enquadrar nos padrões determinados de beleza, sucesso e comportamento. Tudo regido pelo consumo e a vaidade, inclusive as relações interpessoais. Não há tempo a perder, e o outro deve ser descartado ou aproveitado rapidamente e com sofreguidão, pois “a fila tem que andar.”
Pensava nisso enquanto esperava o teatro lotar e a peça sobre a vida e obra de Clarice Lispector começar. Pensava como teriam sido essas festinhas no tempo de Clarice, em Pernambuco, onde a escritora passou a infância. Mas o tempo de Clarice é tão único, e corre em outro ritmo, o da subjetividade feminina. Por isso sua literatura é revolucionária, por abrir novos caminhos para a prosa, e Clarice escreve por inteiro, envolvendo a realidade, os objetos e as personagens com todo o corpo, oferecendo aos leitores uma visão alternativa da realidade.
Para a autora de Perto do Coração Selvagem, o tempo maior é o dos pequenos instantes de epifania, que provocam o crescimento emocional e psicológico das personagens, como a grã-fina que experimentam um turbilhão de emoções ao pisar num rato morto, distraída, em seu passeio por Copacabana. Esta Clarice, autora, está no palco do CCBB, muito bem representada por Beth Goulart. Também a Clarice pessoa, das cartas e entrevistas, desfilando o elegante figurino dos anos cinquenta,em meio a um amplo e belo cenário, iluminada com arte e precisão. Clarice, a mulher que gostava de ser apreciada acima de tudo pela beleza física. A mãe que trabalhava sentada no sofá, com a máquina de escrever no colo, os filhos pequenos ao seu redor.
É um monólogo, um corte e colagem de tempos e espaços, um retrato com claros, escuros e nuances da escritora, mãe e mulher. Um texto bem ao estilo de Clarice, em palimpsesto.
Parabéns para Beth Goulart!
*************************************************************************************
24 horas no ar
Ontem fui com amigos assistir Vau da Sarapalha, carro chefe do grupo Piollin, criado há trinta anos, na Paraíba, pelo ator Luiz Carlos Vasconcelos. O espetáculo está em cartaz há dezessete anos e volta ao Rio depois de um grande sucesso em 1993. Talvez a última oportunidade para ver a mais premiada das adaptações de Guimarães Rosa para o teatro.
Depois, fomos jantar no novo restaurante da moda, o Oui Oui, da mesma turma do charmoso Mian Mian. Eles têm uma loja de móveis de época, a Hully-Gully, no Shopping da Siqueira Campos, onde podem ser negociadas todas as peças expostas nos dois restaurantes que ficam em casas, em Botafogo. No Oui Oui, há dois salões, um decorado no estilo Art Deco, o outro bem anos 70. Os dois ambientes, no entanto, são harmônicos no conjunto. E o capricho no estilo vai até o serviço, do tipo descontraído, sem os tradicionais maitre e garçons, mas jovens profissionais do setor de alimentação vestidos, e bem-vestidos, de maneira casual. Logo na entrada, o freguês é recebido pela Mariana, uma graça de moça com um rosto lindo que parece ter saído de um filme da nouvelle-vague. Seu jeitinho esguio de manequim e modelo lembra Cleo de 5 às 7, a obra-prima de Agnes Varda.
A comida também é boa, e os pratos são servidos em pequenas porções, o que proporciona uma diversão a mais, pois são dispostos no meio da mesa para que os comensais possam se servir de tudo um pouco. Ontem éramos quatro e pedimos duas rodadas de três pratos entre costelinhas caramelizadas, vol au vent de rabada, linguicinhas com molho de maracujá, bacalhau com cebolas e tapenade, panquecas de figo seco com pato desfiado e brulé de Grana Padano. Tudo uma delícia. Mas um contraste radical com o universo de Guimarães Rosa, de escassez e simplicidade. E aí, devo fazer uma confissão: tenho a maior dificuldade com o universo de Guimarães Rosa, que é um dos nossos maiores escritores, e nisso não ponho dúvidas. Mas o negócio é que não me agrada a temática da roça, a simplicidade em demasia, a precariedade dos costumes, a falta de polidez, a sinceridade exagerada, a estética de valorização dos elementos primordiais e as fabulações meio brutais do sertanejo.
No entanto, acabei de ler Os Sertões, de Euclides da Cunha, para o programa em homenagem aos 100 anos de morte do escritor. E adorei o livro. Um ensaio científico, um tratado antropológico, um épico sobre a Guerra de Canudos, um emocionante drama da nossa história. E o autor conta essa história, na qual os heróis são, na verdade, os vencidos, com tal poder de comunicação que é impossível, mesmo ao leitor mais relapso, não se envolver ao ponto de não querer largar o livro.
Eu fiquei obcecada pela narrativa meio jornalística, meio romanesca, da luta dos jagunços de Antônio Conselheiro contra o exército republicano, armado até os dentes e em número extraordinariamente superior. E a paisagem da caatinga descrita de forma expressionista, com galhos retorcidos, ramagens espinhentas, o céu abrasador e um chão que foge aos passos.
São coisas que me agradam, principalmente na literatura. Agora, aquela “vida besta”, da qual nos fala Drummond... tô fora. Eu gosto mesmo é da vida movimentada dos grandes centros urbanos, de teatro, de cinema, de bares cheios de gente; de tomar um cafezinho com ovo colorido num botequim do centro, de traçar um sanduíche de carne assada no balcão do Lamas, de virar um chope na calçada do Belmonte, dos shows no Teatro Rival e dos cabarés da Lapa.
Dizem que isso é coisa de homem. No entanto, quase todos que eu conheço, quando começa a esquentar o namoro vêm com a conversa de que seu sonho é viver num lugar tranquilo, fugir da cidade grande, ter uma pousada no sul da Bahia e coisas ainda mais esdrúxulas, como comprar uma de terrinha na Amazônia e criar gado pro resto da vida. São veleidades, eu sei. Mas veleidades tipicamente masculinas, pois eu nunca ouvi mulher dizer que quer morar no mato. Ao contrário, as mulheres quanto mais amadurecem mais querem movimento, festas, restaurantes cheios; querem mais é consumir, de cultura a sapatos.
Eu desconfio que a intenção deles é passar a mensagem de maneira subliminar de que estão prontos para arranjar um amor e sossegar, por fim às farras, criar raízes, viver na base de um para o outro... papo de encomenda para amolecer o coração da mulherzinha romântica que há dentro de todas nós, e nos fazer ficar macias com a ilusão de que ele está pronto para um compromisso sério, e que para isso só falta encontrar a verdadeira companheira.
Da minha parte, não gosto de ser iludida. Mas como também não quero enganar ninguém, digo logo que gosto mesmo é da metrópole e, se dependesse de mim, o mundo girava acordado noite e dia. Eram 24 horas no ar.
*************************************************************************************
Depois, fomos jantar no novo restaurante da moda, o Oui Oui, da mesma turma do charmoso Mian Mian. Eles têm uma loja de móveis de época, a Hully-Gully, no Shopping da Siqueira Campos, onde podem ser negociadas todas as peças expostas nos dois restaurantes que ficam em casas, em Botafogo. No Oui Oui, há dois salões, um decorado no estilo Art Deco, o outro bem anos 70. Os dois ambientes, no entanto, são harmônicos no conjunto. E o capricho no estilo vai até o serviço, do tipo descontraído, sem os tradicionais maitre e garçons, mas jovens profissionais do setor de alimentação vestidos, e bem-vestidos, de maneira casual. Logo na entrada, o freguês é recebido pela Mariana, uma graça de moça com um rosto lindo que parece ter saído de um filme da nouvelle-vague. Seu jeitinho esguio de manequim e modelo lembra Cleo de 5 às 7, a obra-prima de Agnes Varda.
A comida também é boa, e os pratos são servidos em pequenas porções, o que proporciona uma diversão a mais, pois são dispostos no meio da mesa para que os comensais possam se servir de tudo um pouco. Ontem éramos quatro e pedimos duas rodadas de três pratos entre costelinhas caramelizadas, vol au vent de rabada, linguicinhas com molho de maracujá, bacalhau com cebolas e tapenade, panquecas de figo seco com pato desfiado e brulé de Grana Padano. Tudo uma delícia. Mas um contraste radical com o universo de Guimarães Rosa, de escassez e simplicidade. E aí, devo fazer uma confissão: tenho a maior dificuldade com o universo de Guimarães Rosa, que é um dos nossos maiores escritores, e nisso não ponho dúvidas. Mas o negócio é que não me agrada a temática da roça, a simplicidade em demasia, a precariedade dos costumes, a falta de polidez, a sinceridade exagerada, a estética de valorização dos elementos primordiais e as fabulações meio brutais do sertanejo.
No entanto, acabei de ler Os Sertões, de Euclides da Cunha, para o programa em homenagem aos 100 anos de morte do escritor. E adorei o livro. Um ensaio científico, um tratado antropológico, um épico sobre a Guerra de Canudos, um emocionante drama da nossa história. E o autor conta essa história, na qual os heróis são, na verdade, os vencidos, com tal poder de comunicação que é impossível, mesmo ao leitor mais relapso, não se envolver ao ponto de não querer largar o livro.
Eu fiquei obcecada pela narrativa meio jornalística, meio romanesca, da luta dos jagunços de Antônio Conselheiro contra o exército republicano, armado até os dentes e em número extraordinariamente superior. E a paisagem da caatinga descrita de forma expressionista, com galhos retorcidos, ramagens espinhentas, o céu abrasador e um chão que foge aos passos.
São coisas que me agradam, principalmente na literatura. Agora, aquela “vida besta”, da qual nos fala Drummond... tô fora. Eu gosto mesmo é da vida movimentada dos grandes centros urbanos, de teatro, de cinema, de bares cheios de gente; de tomar um cafezinho com ovo colorido num botequim do centro, de traçar um sanduíche de carne assada no balcão do Lamas, de virar um chope na calçada do Belmonte, dos shows no Teatro Rival e dos cabarés da Lapa.
Dizem que isso é coisa de homem. No entanto, quase todos que eu conheço, quando começa a esquentar o namoro vêm com a conversa de que seu sonho é viver num lugar tranquilo, fugir da cidade grande, ter uma pousada no sul da Bahia e coisas ainda mais esdrúxulas, como comprar uma de terrinha na Amazônia e criar gado pro resto da vida. São veleidades, eu sei. Mas veleidades tipicamente masculinas, pois eu nunca ouvi mulher dizer que quer morar no mato. Ao contrário, as mulheres quanto mais amadurecem mais querem movimento, festas, restaurantes cheios; querem mais é consumir, de cultura a sapatos.
Eu desconfio que a intenção deles é passar a mensagem de maneira subliminar de que estão prontos para arranjar um amor e sossegar, por fim às farras, criar raízes, viver na base de um para o outro... papo de encomenda para amolecer o coração da mulherzinha romântica que há dentro de todas nós, e nos fazer ficar macias com a ilusão de que ele está pronto para um compromisso sério, e que para isso só falta encontrar a verdadeira companheira.
Da minha parte, não gosto de ser iludida. Mas como também não quero enganar ninguém, digo logo que gosto mesmo é da metrópole e, se dependesse de mim, o mundo girava acordado noite e dia. Eram 24 horas no ar.
*************************************************************************************
Blind Date
Não adianta o quanto eu resista à idéia, os amigos continuam empenhados em me arranjar um namorado. Desta vez foi um blind date, coisa que eu só conhecia de ouvir falar, como a música do Zeca Pagodinho com o caviar. E também das comédias românticas do cinema. Inclusive uma das minhas preferidas é Blind Date (Encontro às escuras), do Blake Eduards, um craque no gênero cujo maior sucesso foi Víctor ou Victória, a história de um gangster que se apaixona por um travesti, o qual na verdade é uma vedete disfarçada para atrair público a um cabaré às voltas com dificuldades financeiras. Enredo narrado de maneira leve e sofisticada, na melhor tradição de Hollywood, desde Lubitch e Wilder.
Blind Date é mais recente, porém distante o bastante para apresentar um Bruce Willis com mais cabelo e menos do muito charme que vem colecionando desde então. Ela é a eternamente linda, sexy e talentosa Kim Bassinger. E o filme é um tesão. Imagine o cara precisar de uma acompanhante para fazer par com ele num jantar de negócios com empresários japoneses super tradicionais, acompanhados de suas esposas meio gueixas. Um colega de trabalho lhe arranja o telefone de uma garota gente boa que topa a parada. Porém, ele não sabe que a moça tem um problema neurológico, daqueles que potencializam o efeito do álcool no cérebro. Acontece que antes do jantar, por um contratempo, ela fica sozinha na sala de espera de um hospital com uma garrafa de uísque na mão, enquanto ele visita um amigo internado. Ele demora, ela se embriaga e está feita a confusão. É claro que os dois acabam se apaixonando, não sem antes derrubar tabus, desmentir verdades absolutas, trombar meia dúzia de carros e quebrar uma cama (o melhor do filme).
Impossível não se divertir com uma fita dessas. Que ainda adverte o espectador para os perigos de um encontro às escuras. Coisa que ignorei e acabei aceitando um convite para jantar com um empresário colega de academia de boxe do meu melhor amigo, que faz tempo vem mandando recadinhos insinuantes para mim. E como não iria aceitar sabendo que se tratava de um cinquentão bem educado e de porte atlético. Assim, depois de uma boa conversa por telefone, combinamos o encontro para o fim de semana seguinte. Fomos a um bistrô perto de casa, atendendo à minha conveniência. Diferente de qualquer restaurante no Leblon, no Empório Santa Fé você não topa com três mesas de gente conhecida logo na entrada. E um casal que está saindo junto pela primeira vez é facilmente reconhecido como tal. Além do mais a comida lá é gostosa e tem uma carta de vinhos bem legal, segundo os entendidos. Eu estava decidida a beber pouco e prestar mais atenção. Ele bebeu pouco também. Mas falou muito. Muito mesmo. Contou a infância, a juventude e a vida mais recente. Fazia digressões elaboradíssimas, ocasiões em que me lançava uma pergunta. Porém, eu mal ensaiava uma consideração era interrompida sem a menor cerimônia. E o empresário ainda perguntou se eu me incomodava de ser interrompida. Isso com um certo desdém, como se não gostar de ser interrompida fosse um capricho pueril.
Fazer o quê? Eu ali, de testa para um homem bonito, forte, inteligente, bem-sucedido que não esquecia por um momento disso tudo e só falava de si. E falava pelos cotovelos. Falava tanto que o jantar já estava quase terminando e eu não conseguira encaixar um assunto sequer. Foi quando ele pediu licença para ir ao banheiro, ficou em pé e, enquanto aproximava sua cadeira da mesa, olhou para mim e mandou um beijinho. Eu sorri e lhe disse que fosse tranquilo, pois eu iria aproveitar aquela oportunidade para falar um pouquinho de mim.
E assim terminou o meu blind date.
Tudo bem, o pior mesmo foi ouvir no dia seguinte do meu melhor amigo que o meu mal é não ter a mínima paciência. Sinceramente, não tem condições.
*************************************************************************************
Blind Date é mais recente, porém distante o bastante para apresentar um Bruce Willis com mais cabelo e menos do muito charme que vem colecionando desde então. Ela é a eternamente linda, sexy e talentosa Kim Bassinger. E o filme é um tesão. Imagine o cara precisar de uma acompanhante para fazer par com ele num jantar de negócios com empresários japoneses super tradicionais, acompanhados de suas esposas meio gueixas. Um colega de trabalho lhe arranja o telefone de uma garota gente boa que topa a parada. Porém, ele não sabe que a moça tem um problema neurológico, daqueles que potencializam o efeito do álcool no cérebro. Acontece que antes do jantar, por um contratempo, ela fica sozinha na sala de espera de um hospital com uma garrafa de uísque na mão, enquanto ele visita um amigo internado. Ele demora, ela se embriaga e está feita a confusão. É claro que os dois acabam se apaixonando, não sem antes derrubar tabus, desmentir verdades absolutas, trombar meia dúzia de carros e quebrar uma cama (o melhor do filme).
Impossível não se divertir com uma fita dessas. Que ainda adverte o espectador para os perigos de um encontro às escuras. Coisa que ignorei e acabei aceitando um convite para jantar com um empresário colega de academia de boxe do meu melhor amigo, que faz tempo vem mandando recadinhos insinuantes para mim. E como não iria aceitar sabendo que se tratava de um cinquentão bem educado e de porte atlético. Assim, depois de uma boa conversa por telefone, combinamos o encontro para o fim de semana seguinte. Fomos a um bistrô perto de casa, atendendo à minha conveniência. Diferente de qualquer restaurante no Leblon, no Empório Santa Fé você não topa com três mesas de gente conhecida logo na entrada. E um casal que está saindo junto pela primeira vez é facilmente reconhecido como tal. Além do mais a comida lá é gostosa e tem uma carta de vinhos bem legal, segundo os entendidos. Eu estava decidida a beber pouco e prestar mais atenção. Ele bebeu pouco também. Mas falou muito. Muito mesmo. Contou a infância, a juventude e a vida mais recente. Fazia digressões elaboradíssimas, ocasiões em que me lançava uma pergunta. Porém, eu mal ensaiava uma consideração era interrompida sem a menor cerimônia. E o empresário ainda perguntou se eu me incomodava de ser interrompida. Isso com um certo desdém, como se não gostar de ser interrompida fosse um capricho pueril.
Fazer o quê? Eu ali, de testa para um homem bonito, forte, inteligente, bem-sucedido que não esquecia por um momento disso tudo e só falava de si. E falava pelos cotovelos. Falava tanto que o jantar já estava quase terminando e eu não conseguira encaixar um assunto sequer. Foi quando ele pediu licença para ir ao banheiro, ficou em pé e, enquanto aproximava sua cadeira da mesa, olhou para mim e mandou um beijinho. Eu sorri e lhe disse que fosse tranquilo, pois eu iria aproveitar aquela oportunidade para falar um pouquinho de mim.
E assim terminou o meu blind date.
Tudo bem, o pior mesmo foi ouvir no dia seguinte do meu melhor amigo que o meu mal é não ter a mínima paciência. Sinceramente, não tem condições.
*************************************************************************************
Tranquila, até o próximo luar
Foi só eu reclamar que senti falta de um namorado na noite em que a lua deu um show de cores e brilhos sobre a baía de Guanabara, defronte ao meu terraço, para os amigos se empenharem em me arranjar um pretendente.
Foi assim que aceitei o encontro com o advogado cinquentão, bem apessoado, boa altura, corpo esguio e conservado na corrida diária, mais três aulas de ginástica por semana. Convidou-me para jantar. Eu já o conhecia de vista, de festas de casamento e aniversários. Tivemos primeiro uma longa conversa por telefone e marcamos um encontro para o sábado seguinte. À hora marcada ele veio me buscar na porta de casa e fomos ao meu restaurante preferido em Ipanema. A conversa não foi encantadora, mas ele fala corretamente e come com educação, dois pré-requisitos indispensáveis para um namoro vingar. Na volta, ao me deixar em casa, pediu um beijo de boa noite. Gostei, nem tanto do beijo, mas da elegância de observar as regras de um primeiro encontro. Pedir um beijo é uma maneira de homenagear a dama, de dizer-lhe que a saída foi agradável e que, com todo o respeito, gostaria de ir além. E antes que eu saltasse do carro, convidou-me para uma caminhada, no dia seguinte, no calçadão. Aceitei e me arrependi. Foi chato e cansativo, pois ele manteve um ritmo acelerado, demonstrando que não terminar o percurso em tempo determinado seria um transtorno. E ainda teve que ir de ponta à ponta da praia, até tocar a mão na pedra do Arpoador, como que para celebrar a chegada, cumprindo o que me pareceu ser um ritual. Quer dizer, o cara é um sistemático.
Mas o pior foi a volta. Para me deixar em casa, ele pegou o caminho mais longo possível, botou um samba enredo no som do carro e veio cantando a música de lá até a minha porta, nos mínimos detalhes, com todas as letras, inclusive o repique do refrão. Um porre!
Mas desta vez não teve nem beijo, nem beijinho. Dei um tchau e saí do carro que nem um foguete. Não teve sequer um aceno, de longe, e, sinceramente, vim pra casa na esperança de que ele não me ligasse nunca mais. E se ligar, não atendo, pois tirei o som tanto do aparelho fixo quanto do celular.
Volto correndo para a leitura dos Contos Latinoamericanos Eternos. E é na companhia deste livro que pretendo passar o resto do meu domingo. São 23 histórias escolhidas entre o que há de melhor na obra dos maiores escritores da região. E ao final do volume, há uma pequena biografia dos autores, com comentários sobre a obra de cada um e indicação de seus livros mais importantes. Desta forma, fica-se sabendo que foi o mexicano Juan Rulfo (1918-1986) que apresentou na obra-prima Pedro Páramo, de 1955, os fundamentos da narrativa que passou a ser conhecida como realismo mágico, depois enriquecida por outros brilhantes escritores hispano-americanos.
O livro, organizado por Alicia Ramal, é uma viagem pela criação e imaginação de uma penca de gênios, como Jorge Luis Borges e “O Alefh”, uma de suas mais fascinantes histórias; Julio Cortázar (1914-1984) e as atmosferas inquietantes que cria, e onde a realidade se dissolve, o insólito se instala, e o mistério reconstrói o verossímil. É o que acontece em “Casa Tomada”: personagens comuns que vivem numa monotonia que virá a ser a sua próproa desgraça. Também tem o cubano Alejo Carpentier (1904-1980) e uma das mais surpreendentes e criativas histórias de seu repertório. “Viagem à Semente” é uma narrativa contada de trás para a frente com uma extraordinária riqueza de imagens e um labirinto de palavras que se deslocam através do tempo, num fio de acontecimentos e emoções que ligam vida e morte.
Para terminar essa postagem que já vai longa, como a cantoria do pretendente dispensado mais acima, destaco o lirismo do conto “Minha vida com a onda”, de Octávio Paz (1914-1998). Ali, no homem que leva uma onda do mar para casa, há uma maneira muito particular de ver o mundo. Só mesmo um poeta, e da qualidade do ganhador do Prêmio Nobel de literatura de 1990, para escrever essa história pontuada pelo inesperado.
E assim, no aconchego do meu lar, dispondo de quase tudo o que preciso para ser feliz, vou passar tranquilamente o restante do domingo. E seguir em frente sem pretendente, mas sem carências e sem remorsos, pelo menos até o próximo luar.
*************************************************************************************
Foi assim que aceitei o encontro com o advogado cinquentão, bem apessoado, boa altura, corpo esguio e conservado na corrida diária, mais três aulas de ginástica por semana. Convidou-me para jantar. Eu já o conhecia de vista, de festas de casamento e aniversários. Tivemos primeiro uma longa conversa por telefone e marcamos um encontro para o sábado seguinte. À hora marcada ele veio me buscar na porta de casa e fomos ao meu restaurante preferido em Ipanema. A conversa não foi encantadora, mas ele fala corretamente e come com educação, dois pré-requisitos indispensáveis para um namoro vingar. Na volta, ao me deixar em casa, pediu um beijo de boa noite. Gostei, nem tanto do beijo, mas da elegância de observar as regras de um primeiro encontro. Pedir um beijo é uma maneira de homenagear a dama, de dizer-lhe que a saída foi agradável e que, com todo o respeito, gostaria de ir além. E antes que eu saltasse do carro, convidou-me para uma caminhada, no dia seguinte, no calçadão. Aceitei e me arrependi. Foi chato e cansativo, pois ele manteve um ritmo acelerado, demonstrando que não terminar o percurso em tempo determinado seria um transtorno. E ainda teve que ir de ponta à ponta da praia, até tocar a mão na pedra do Arpoador, como que para celebrar a chegada, cumprindo o que me pareceu ser um ritual. Quer dizer, o cara é um sistemático.
Mas o pior foi a volta. Para me deixar em casa, ele pegou o caminho mais longo possível, botou um samba enredo no som do carro e veio cantando a música de lá até a minha porta, nos mínimos detalhes, com todas as letras, inclusive o repique do refrão. Um porre!
Mas desta vez não teve nem beijo, nem beijinho. Dei um tchau e saí do carro que nem um foguete. Não teve sequer um aceno, de longe, e, sinceramente, vim pra casa na esperança de que ele não me ligasse nunca mais. E se ligar, não atendo, pois tirei o som tanto do aparelho fixo quanto do celular.
Volto correndo para a leitura dos Contos Latinoamericanos Eternos. E é na companhia deste livro que pretendo passar o resto do meu domingo. São 23 histórias escolhidas entre o que há de melhor na obra dos maiores escritores da região. E ao final do volume, há uma pequena biografia dos autores, com comentários sobre a obra de cada um e indicação de seus livros mais importantes. Desta forma, fica-se sabendo que foi o mexicano Juan Rulfo (1918-1986) que apresentou na obra-prima Pedro Páramo, de 1955, os fundamentos da narrativa que passou a ser conhecida como realismo mágico, depois enriquecida por outros brilhantes escritores hispano-americanos.
O livro, organizado por Alicia Ramal, é uma viagem pela criação e imaginação de uma penca de gênios, como Jorge Luis Borges e “O Alefh”, uma de suas mais fascinantes histórias; Julio Cortázar (1914-1984) e as atmosferas inquietantes que cria, e onde a realidade se dissolve, o insólito se instala, e o mistério reconstrói o verossímil. É o que acontece em “Casa Tomada”: personagens comuns que vivem numa monotonia que virá a ser a sua próproa desgraça. Também tem o cubano Alejo Carpentier (1904-1980) e uma das mais surpreendentes e criativas histórias de seu repertório. “Viagem à Semente” é uma narrativa contada de trás para a frente com uma extraordinária riqueza de imagens e um labirinto de palavras que se deslocam através do tempo, num fio de acontecimentos e emoções que ligam vida e morte.
Para terminar essa postagem que já vai longa, como a cantoria do pretendente dispensado mais acima, destaco o lirismo do conto “Minha vida com a onda”, de Octávio Paz (1914-1998). Ali, no homem que leva uma onda do mar para casa, há uma maneira muito particular de ver o mundo. Só mesmo um poeta, e da qualidade do ganhador do Prêmio Nobel de literatura de 1990, para escrever essa história pontuada pelo inesperado.
E assim, no aconchego do meu lar, dispondo de quase tudo o que preciso para ser feliz, vou passar tranquilamente o restante do domingo. E seguir em frente sem pretendente, mas sem carências e sem remorsos, pelo menos até o próximo luar.
*************************************************************************************
Inútil paisagem
Estou tão em falta com este blog e nem sei o que fazer para me redimir da pouquíssima assiduidade com que venho escrevendo aqui. Não vou repetir a ladainha das postagens anteriores, fiquem tranqüilos. Contudo, continuo mergulhada em livros e pesquisas, porém isso só deveria servir de estímulo para conversar ainda mais com vocês e comentar as minhas descobertas, como a da semana passada. Foi no programa que fiz sobre a “Virada Russa” na literatura, aproveitando a oportunidade da exposição em cartaz no CCBB.
Seguindo a linha dos curadores da mostra de 123 obras do Museu Estatal de São Petesburgo – que faz um panorama das artes plásticas na Rússia de 1890 a 1930 –, busquei para discussão no estúdio autores que se identificassem com os movimentos literários do mesmo período. Assim, escolhi para o período pré-revolucionário Máximo Gorki, um dos maiores mestres da prosa de ficção russa que, além de ser o primeiro a dar voz ao homem comum, fez da literatura um instrumento de luta, conscientizando milhões de leitores para as injustiças sociais da política absolutista do czar.
A conversa sobre o autor de “A Mãe” teve direito a um trecho do filme do mesmo nome, de 1926, do diretor Vsevolod Pudovkin, um dos grandes nomes do cinema de vanguarda russo, já anunciando o que viria a seguir.
Para esmiuçar o movimento conhecido como vanguardas russas, que trouxe novas propostas estéticas e conceituais em pintura, poesia, teatro e cinema, constituindo um ambiente de grande efervescência ideológica e artística na Rússia do início do século XX, escolhi Maiakóviski, é claro. Ele que foi ao mesmo tempo emissário e propagandista da Revolução de 1917, crítico radical da desigualdade social e ainda, com sua poesia revolucionária, propôs novas formas para um conteúdo novo e engajado.
Essa decisão era pule de dez, pois eu bem sabia que o autor de “A Nuvem de calça” colocou-se com ardor a serviço da revolução, e em colaboração com artistas construtivistas pôs a arte a serviço da propaganda dando início à arte aplicada ao mundo moderno, inventando o que viria a ser o design.
Mais demorado foi o processo de escolher um escritor que se identificasse com o período posterior à Revolução de Outrubro, o realismo socialista. Em conversa com um colega, o pesquisador Fernando Madeu, conhecedor da língua e literatura russas, decidi-me por “Cavalaria Vermelha” de Isaac Babel.
Que formidável foi descobrir um escritor que transformou sua experiência nas batalhas contra a cavalaria polonesa, na Guerra Civil de 1920, em um livro de contos breves de extraordinário romantismo bélico, com as cores ardentes do sangue e do fogo, mas também com os suaves lilases de um pôr-do-sol de outono. Babel faz do dia a dia nos acampamentos e trincheiras um épico, transformando pessoas simples em heróis, e passagens corriqueiras e prosaicas em momentos sublimes.
Bem, nem é preciso dizer que o programa foi um sucesso, com inserções do cinema de vanguarda russo e uma visita guiada à exposição “Virada Russa” com o crítico de arte Fernando Cochiarale.
Portanto, sexta-feira, finda a jornada semanal, exausta, mas satisfeita com o reusltado do trabalho, cheguei em casa, fiz um uísque duplo e fui para a varanda aproveitar a sensação de missão cumprida. Foi quando me deparei com a enorme lua em meia-taça despejando sobre a baía de Guanabara uma faixa de luz cor de prata, larga e volúvel ao movimento das águas. Continuei a tomar meu drinque languidamente em minha poltrona preferida, mas sentindo pela primeira vez em meses a desconcertante falta de um namorado. Lembrei-me de Tom Jobim e de sua Inútil paisagem.
*************************************************************************************
Seguindo a linha dos curadores da mostra de 123 obras do Museu Estatal de São Petesburgo – que faz um panorama das artes plásticas na Rússia de 1890 a 1930 –, busquei para discussão no estúdio autores que se identificassem com os movimentos literários do mesmo período. Assim, escolhi para o período pré-revolucionário Máximo Gorki, um dos maiores mestres da prosa de ficção russa que, além de ser o primeiro a dar voz ao homem comum, fez da literatura um instrumento de luta, conscientizando milhões de leitores para as injustiças sociais da política absolutista do czar.
A conversa sobre o autor de “A Mãe” teve direito a um trecho do filme do mesmo nome, de 1926, do diretor Vsevolod Pudovkin, um dos grandes nomes do cinema de vanguarda russo, já anunciando o que viria a seguir.
Para esmiuçar o movimento conhecido como vanguardas russas, que trouxe novas propostas estéticas e conceituais em pintura, poesia, teatro e cinema, constituindo um ambiente de grande efervescência ideológica e artística na Rússia do início do século XX, escolhi Maiakóviski, é claro. Ele que foi ao mesmo tempo emissário e propagandista da Revolução de 1917, crítico radical da desigualdade social e ainda, com sua poesia revolucionária, propôs novas formas para um conteúdo novo e engajado.
Essa decisão era pule de dez, pois eu bem sabia que o autor de “A Nuvem de calça” colocou-se com ardor a serviço da revolução, e em colaboração com artistas construtivistas pôs a arte a serviço da propaganda dando início à arte aplicada ao mundo moderno, inventando o que viria a ser o design.
Mais demorado foi o processo de escolher um escritor que se identificasse com o período posterior à Revolução de Outrubro, o realismo socialista. Em conversa com um colega, o pesquisador Fernando Madeu, conhecedor da língua e literatura russas, decidi-me por “Cavalaria Vermelha” de Isaac Babel.
Que formidável foi descobrir um escritor que transformou sua experiência nas batalhas contra a cavalaria polonesa, na Guerra Civil de 1920, em um livro de contos breves de extraordinário romantismo bélico, com as cores ardentes do sangue e do fogo, mas também com os suaves lilases de um pôr-do-sol de outono. Babel faz do dia a dia nos acampamentos e trincheiras um épico, transformando pessoas simples em heróis, e passagens corriqueiras e prosaicas em momentos sublimes.
Bem, nem é preciso dizer que o programa foi um sucesso, com inserções do cinema de vanguarda russo e uma visita guiada à exposição “Virada Russa” com o crítico de arte Fernando Cochiarale.
Portanto, sexta-feira, finda a jornada semanal, exausta, mas satisfeita com o reusltado do trabalho, cheguei em casa, fiz um uísque duplo e fui para a varanda aproveitar a sensação de missão cumprida. Foi quando me deparei com a enorme lua em meia-taça despejando sobre a baía de Guanabara uma faixa de luz cor de prata, larga e volúvel ao movimento das águas. Continuei a tomar meu drinque languidamente em minha poltrona preferida, mas sentindo pela primeira vez em meses a desconcertante falta de um namorado. Lembrei-me de Tom Jobim e de sua Inútil paisagem.
*************************************************************************************
Assinar:
Postagens (Atom)