Não sou chegada a uma sessão nostalgia, nem acredito muito nessa história de que recordar é viver. Mas quando vi no jornal, na semana passada, a fotografia de uma dona-de-casa lavando roupa na laje, no topo do Dona Marta, tendo ao fundo o corcovado redentor, senti uma tremenda saudade da cidade que o Rio de Janeiro foi um dia. Nem tanto o Rio que eu vivi, mas o Rio do meu imaginário, o “Rio, 40 Graus”, o Rio de “Orfeu do Carnaval”, o Rio dos anos dourados... da época do lotação... quando os porteiros mais antigos eram verdadeiras instituições na redondeza, e os mendigos eram poucos e folclóricos, cada bairro tinha o seu. Uma cidade na qual menino de rua era um status desconhecido da população. Tanto na Zona Sul quanto na Zona Norte, porque a Zona Oeste nem tinha propriamente população. Enfim, um Rio que não existe mais.
Saí do devaneio saudosista por um lampejo de otimismo trazido por outras notícias tão auspiciosas quanto a da ocupação que livrou o Dona Marta do tráfico de drogas. Uma foi o lançamento no Complexo do Alemão do projeto Território da Paz, com o objetivo de afastar os jovens da criminalidade e aproximar a polícia do dia-a-dia da comunidade. Outra é o esforço da Secretaria de Segurança para acabar com o crime organizado na Cidade de Deus, em Jacarepaguá, e devolver a comunidade aos moradores de bem. Segundo dados da própria Secretaria, a operação, com início em 11 de novembro, já mostra uma diminuição pela metade, em média, dos crimes cometidos no bairro da Zona Oeste em relação ao mesmo período do ano passado.
Seria muito bom que esse estado de coisas se efetivasse, tanto para os moradores das favelas quanto para os dos bairros adjacentes. Porém há fatores a serem examinados, porque a ocupação social que deve substituir a policial só está prevista para o morro de botafogo, bem menor do que as outras comunidades supracitadas. Ora, o sucesso da operação no Dona Marta, com população de 4.500 pessoas, é resultado de um trabalho de inteligência que reuniu agentes das Polícias Federal e Militar combinado com patrulhamento ostensivo. No entanto, para ocupar as 700 favelas do Rio e Região Metropolitana seriam necessários 70.000 policiais, segundo Milton Corrêa da Costa, um especialista na área de segurança.
Não sei qual é o efetivo a PM hoje, mas com certeza é consideravelmente menor do que o indispensável para vencer a luta contra a violência na cidade. Logo, para dar prosseguimento à política de enfrentamento, o governo do estado já teria que estar concursando e treinando policiais a toque de caixa e em número expressivo. Além de promover programas de capacitação e implementar um plano habitacional para garantir aos policiais o acesso à casa própria - como forma de valorizar a profissão. Porém, nada vai funcionar sem que seja costurado um pacto entre executivo e judiciário no sentido de promover uma limpeza em regra nas forças policiais civis e militares do Rio de Janeiro, afastando os elementos corruptos e punindo-os de forma exemplar. Pois o que há de mais preocupante agora – e seria desolador para o carioca - é a possibilidade do governo tirar o tráfico das comunidades para entregá-las de mão beijada às milícias.
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Ménage à Trois
Se estivesse almoçando com minhas amigas num restaurante em Ipanema e o assunto surgisse, começaria por dizer que a-do-ro Woody Allen. Como já devo ter feito algumas vezes, ainda mais incentivada por taças e taças de Puilly-Fumé gelado, que um Sauvignon Blanc desses leva a gente ao exagero. E não estaria mentindo, mas cometendo o pecado da heresia, pois, segundo a minha avó – que a-do-ra-va cortar a minha onda –, adorar só a Deus. E graças a Deus as admoestações de vovó serviram para ajuizar minhas avaliações e me fazer levar em conta que quando a gente escreve, faz mais do que lançar palavras ao vento nas esquinas chiques da Visconde de Pirajá.
Então, voltando ao assunto, gosto muito dos filmes de Woody Allen, mas este último, Vicky Cristina Barcelona, é menos que uma bobagem. Vamos combinar que há bobagens e bobagens adoráveis, como “Bananas”, no qual Allen satiriza tanto a CIA quanto o ativismo político de esquerda. E “O Dorminhoco”, uma crítica hilária aos governos autoritários e à submissão do homem à tecnologia. E esta é justamente a grife do diretor: além de diálogos brilhantes, um olhar inusitado e crítico sobre os temas abordados em seus filmes. O meu preferido é “Noivo neurótico, noiva nervosa”, um tratado genial sobre os relacionamentos amorosos. Mas há outros ótimos disponíveis em DVD, para assistir no aconchego do lar, em boa companhia e, quem sabe, saboreando um Pinot Noir do Vale de Casablanca.
Agora, de volta ao xis da questão, menos que uma bobagem, “Vicky Cristina Barcelona” é uma chatice feita de encomenda para divulgar o turismo na região da Catalunha. Se bem que para apreciar as deslumbrantes locações da fita vale uma ida ao cinema numa quarta-feira, quando a entrada custa metade do preço. Já que o diretor colocou seu reconhecido dom de revelar fotogenias metropolitanas a serviço da cidade do título. E fez a arquitetura inspirada de Gaudí e a arte de Miró contracenar com atores bonitos que bebem vinho o tempo todo. Dá até vontade de abrir um ALTO, de Ribera Del Duero, aquele tinto com gosto de férias na Espanha.
De resto, o filme mostra uma gente que consome muito, e coisas caras. São hotéis de luxo, iates, carros conversíveis e até avião particular para contar a breve história de um triângulo amoroso pouco convincente. Pode-se dizer que Javier Barden dá conta do recado ao encarnar um pintor blasé dependente de companhia feminina. Scarlett Johansson (linda de morrer) faz o que pode para dar algum brilho à superficialidade da jovem americana em busca de aventuras mediterrâneas. Já Penélope Cruz (muito linda também), no papel da ex-esposa neurótica, consegue apenas fazer a caricatura da artista espanhola de sangue quente.
Pena que Woody Allen tenha desperdiçado a sua vez de abordar um tema que já foi tratado com maestria por alguns dos grandes cineastas. Para escolher apenas um, fico com Jules e Jim, de François Truffaut, com Jeanne Moreau na pele de Catherine, uma mulher para dois. Passado na Paris do início do século XX, o filme narra com poesia a evolução de um triângulo amoroso antes e depois da Primeira Guerra Mundial. E evoca, em menos de duas horas de projeção, desde as frivolidades da belle époque até as cicatrizes do pós-guerra. Não é só mais uma historinha de ménage à trois, como “Vicky Cristina...”. Ao contrário, é uma bela homenagem ao amor e à amizade. E os personagens de Truffaut, saídos do romance de Henri-Pierre Roché, não são feitos apenas de aparência e hedonismo. São alegres, sim, porém controvertidos, e capazes de sentimentos de renúncia e compaixão. Porque a vida é mais do que um pilequinho de Dom Pérignon num sarau ao luar.
Então, voltando ao assunto, gosto muito dos filmes de Woody Allen, mas este último, Vicky Cristina Barcelona, é menos que uma bobagem. Vamos combinar que há bobagens e bobagens adoráveis, como “Bananas”, no qual Allen satiriza tanto a CIA quanto o ativismo político de esquerda. E “O Dorminhoco”, uma crítica hilária aos governos autoritários e à submissão do homem à tecnologia. E esta é justamente a grife do diretor: além de diálogos brilhantes, um olhar inusitado e crítico sobre os temas abordados em seus filmes. O meu preferido é “Noivo neurótico, noiva nervosa”, um tratado genial sobre os relacionamentos amorosos. Mas há outros ótimos disponíveis em DVD, para assistir no aconchego do lar, em boa companhia e, quem sabe, saboreando um Pinot Noir do Vale de Casablanca.
Agora, de volta ao xis da questão, menos que uma bobagem, “Vicky Cristina Barcelona” é uma chatice feita de encomenda para divulgar o turismo na região da Catalunha. Se bem que para apreciar as deslumbrantes locações da fita vale uma ida ao cinema numa quarta-feira, quando a entrada custa metade do preço. Já que o diretor colocou seu reconhecido dom de revelar fotogenias metropolitanas a serviço da cidade do título. E fez a arquitetura inspirada de Gaudí e a arte de Miró contracenar com atores bonitos que bebem vinho o tempo todo. Dá até vontade de abrir um ALTO, de Ribera Del Duero, aquele tinto com gosto de férias na Espanha.
De resto, o filme mostra uma gente que consome muito, e coisas caras. São hotéis de luxo, iates, carros conversíveis e até avião particular para contar a breve história de um triângulo amoroso pouco convincente. Pode-se dizer que Javier Barden dá conta do recado ao encarnar um pintor blasé dependente de companhia feminina. Scarlett Johansson (linda de morrer) faz o que pode para dar algum brilho à superficialidade da jovem americana em busca de aventuras mediterrâneas. Já Penélope Cruz (muito linda também), no papel da ex-esposa neurótica, consegue apenas fazer a caricatura da artista espanhola de sangue quente.
Pena que Woody Allen tenha desperdiçado a sua vez de abordar um tema que já foi tratado com maestria por alguns dos grandes cineastas. Para escolher apenas um, fico com Jules e Jim, de François Truffaut, com Jeanne Moreau na pele de Catherine, uma mulher para dois. Passado na Paris do início do século XX, o filme narra com poesia a evolução de um triângulo amoroso antes e depois da Primeira Guerra Mundial. E evoca, em menos de duas horas de projeção, desde as frivolidades da belle époque até as cicatrizes do pós-guerra. Não é só mais uma historinha de ménage à trois, como “Vicky Cristina...”. Ao contrário, é uma bela homenagem ao amor e à amizade. E os personagens de Truffaut, saídos do romance de Henri-Pierre Roché, não são feitos apenas de aparência e hedonismo. São alegres, sim, porém controvertidos, e capazes de sentimentos de renúncia e compaixão. Porque a vida é mais do que um pilequinho de Dom Pérignon num sarau ao luar.
Espetáculo carioca
O sol, enfim, apareceu para colorir as águas plácidas da Baía de Guanabara. O Pão de Açúcar despontou da neblina, enigmático e liso. Qual esfinge bruta, a pedra monumental montou guarda sobre a entrada da barra... Um cargueiro preguiçoso apitou sua chegada . A manhã já vinha alta. O horizonte limpo revelou a curva branca de Niterói para o Rio, que há dias jazia imerso em nuvens carregadas.
O albatroz cortou o céu de brilho transparente e convidou-me para um passeio à beira-mar. Aceitei o chamado da alegria e deixei todo o resto para depois. Vesti um biquíni estampado e fui sentir de perto o espetáculo carioca.
Atravessei o parque por entre as árvores de restinga... No deque da praia, o grupo dos mais velhos saudosos de sol cocoricava excitado, como fazem no terreiro as aves de vôo curto. Na primeira curva enrocada, encontrei Mara Mineira, catadora de mariscos, com sua cavadeira e luvas de operário. Ela me disse que entrava na briga das pedras contra o mar, contando tirar a féria de uma semana no primeiro dia de calmaria.
Caminhei pela beirinha, a água salgada gelando meus pés... Fui de um lado para outro vendo as crianças brincar... Passei pelo pescador de primeira viagem lutando com um caniço que teimava em esticar uma linha de todo má. Desviei rápido, para fugir da degola, e fui me esticar sobre a canga bem junto ao mar. Deitei de bruços e deixei maresia entrar pelos sete buracos da minha cabeça. Um avião riscou o céu levando meus pensamentos para Havana. Escrevi com a ponta do dedo o nome dele na areia, a onda veio e lambeu as quatro letrinhas de amor.
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O albatroz cortou o céu de brilho transparente e convidou-me para um passeio à beira-mar. Aceitei o chamado da alegria e deixei todo o resto para depois. Vesti um biquíni estampado e fui sentir de perto o espetáculo carioca.
Atravessei o parque por entre as árvores de restinga... No deque da praia, o grupo dos mais velhos saudosos de sol cocoricava excitado, como fazem no terreiro as aves de vôo curto. Na primeira curva enrocada, encontrei Mara Mineira, catadora de mariscos, com sua cavadeira e luvas de operário. Ela me disse que entrava na briga das pedras contra o mar, contando tirar a féria de uma semana no primeiro dia de calmaria.
Caminhei pela beirinha, a água salgada gelando meus pés... Fui de um lado para outro vendo as crianças brincar... Passei pelo pescador de primeira viagem lutando com um caniço que teimava em esticar uma linha de todo má. Desviei rápido, para fugir da degola, e fui me esticar sobre a canga bem junto ao mar. Deitei de bruços e deixei maresia entrar pelos sete buracos da minha cabeça. Um avião riscou o céu levando meus pensamentos para Havana. Escrevi com a ponta do dedo o nome dele na areia, a onda veio e lambeu as quatro letrinhas de amor.
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Evolução dos costumes
Um amigo meu contou que um amigo dele foi fazer um programa com uma garota num desses prédios do tipo balança mais não cai, onde as paredes são tão finas que se pode ouvir o som da televisão no apartamento vizinho. Lá, durante a transa, a moça começou a falar cada vez mais alto: “Gostoso, gostoso...” Ao que ele, receoso de um escândalo, pediu: “Fala baixinho.” Ela então não teve dúvida; e emendou aos berros: “Baixinho gostoso, baixinho gostoso...”
É sabido que as mulheres têm essa capacidade quase instintiva para agradar aos homens visando alguma recompensa pecuniária, social, ou afetiva. Não raro, testemunhamos manifestações de adulação exemplares, como a piada aí em cima, ainda que em circunstâncias diferentes. Outro dia, num jantar para poucos convidados, ouvi a jovem namorada de um sessentão declarar que chegou a chorar num show de Michel Legrand, ao qual os dois assistiram juntos para comemorar o aniversário dele. Se ainda fosse a Edit Piaff, vá lá. Mas é difícil acreditar que alguém da geração que se esbaldou ao som de Madonna agüente duas horas da música hiper-sentimental do compositor mais meloso do cinema, ao ponto de verter lágrimas de emoção.
Pode ser que a prerrogativa feminina para fingir prazer sexual seja automaticamente estendida a outras facetas da relação com o sexo oposto. Oposto, sobretudo, nesse quesito, em que o homem, ao contrário da mulher, é limitado pela própria natureza.
Talvez o aspecto fisiológico combinado à pesada repressão da mulher no curso da História tenha impedido a prostituição masculina de se desenvolver e estabelecer. Porém, acredito que, com a crescente emancipação feminina, exista hoje uma demanda cada vez maior por serviço sexual masculino. Já que há cada vez mais mulheres sem disponibilidade, circunstancial ou não, para investir em relacionamentos onde teriam que modelar suas personalidades para se ajustar aos pretendentes.
Umas porque já são obrigadas a proceder desta forma no trabalho, e trabalham justamente para não serem submissas na vida pessoal. Outras porque pagaram um preço tão alto por sua independência que não suportariam capitular nessa altura do campeonato apenas para ter um homem pra chamar de seu. E há também as solteiras convictas ou viúvas que acreditam ter uma vida plena ao se dedicar em tempo integral à profissão, à família e aos amigos. Esperando ou não o parceiro ideal, mas sem fôlego para investir em aliança de compromisso, elas poderiam, no entanto, ter uma vida sexual ativa.
Não estou aqui fazendo a apologia da prostituição, bem entendido. Penso, contudo, que assim como há homens que não se sentem à vontade com o contrato comercial que o sexo profissional exige, há mulheres que, ao contrário, gostariam simplesmente de poder usufruir de tal conforto. Mulheres independentes e desimpedidas que por motivos conjunturais ou de temperamento mesmo preferem satisfazer seus desejos e fantasias sem envolvimento afetivo. Nada mais justo. Além disso, a igualdade de opção para ambos os sexos só pode gerar maior equilíbrio na relação entre eles. E aí, as insuspeitadas afinidades eletivas é que mais contribuiriam para a decisão de os dois juntarem os trapinhos. Até porque não é toda mulher que agüenta passar os fins de semana ouvindo free jazz se o negócio dela for samba na veia.
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É sabido que as mulheres têm essa capacidade quase instintiva para agradar aos homens visando alguma recompensa pecuniária, social, ou afetiva. Não raro, testemunhamos manifestações de adulação exemplares, como a piada aí em cima, ainda que em circunstâncias diferentes. Outro dia, num jantar para poucos convidados, ouvi a jovem namorada de um sessentão declarar que chegou a chorar num show de Michel Legrand, ao qual os dois assistiram juntos para comemorar o aniversário dele. Se ainda fosse a Edit Piaff, vá lá. Mas é difícil acreditar que alguém da geração que se esbaldou ao som de Madonna agüente duas horas da música hiper-sentimental do compositor mais meloso do cinema, ao ponto de verter lágrimas de emoção.
Pode ser que a prerrogativa feminina para fingir prazer sexual seja automaticamente estendida a outras facetas da relação com o sexo oposto. Oposto, sobretudo, nesse quesito, em que o homem, ao contrário da mulher, é limitado pela própria natureza.
Talvez o aspecto fisiológico combinado à pesada repressão da mulher no curso da História tenha impedido a prostituição masculina de se desenvolver e estabelecer. Porém, acredito que, com a crescente emancipação feminina, exista hoje uma demanda cada vez maior por serviço sexual masculino. Já que há cada vez mais mulheres sem disponibilidade, circunstancial ou não, para investir em relacionamentos onde teriam que modelar suas personalidades para se ajustar aos pretendentes.
Umas porque já são obrigadas a proceder desta forma no trabalho, e trabalham justamente para não serem submissas na vida pessoal. Outras porque pagaram um preço tão alto por sua independência que não suportariam capitular nessa altura do campeonato apenas para ter um homem pra chamar de seu. E há também as solteiras convictas ou viúvas que acreditam ter uma vida plena ao se dedicar em tempo integral à profissão, à família e aos amigos. Esperando ou não o parceiro ideal, mas sem fôlego para investir em aliança de compromisso, elas poderiam, no entanto, ter uma vida sexual ativa.
Não estou aqui fazendo a apologia da prostituição, bem entendido. Penso, contudo, que assim como há homens que não se sentem à vontade com o contrato comercial que o sexo profissional exige, há mulheres que, ao contrário, gostariam simplesmente de poder usufruir de tal conforto. Mulheres independentes e desimpedidas que por motivos conjunturais ou de temperamento mesmo preferem satisfazer seus desejos e fantasias sem envolvimento afetivo. Nada mais justo. Além disso, a igualdade de opção para ambos os sexos só pode gerar maior equilíbrio na relação entre eles. E aí, as insuspeitadas afinidades eletivas é que mais contribuiriam para a decisão de os dois juntarem os trapinhos. Até porque não é toda mulher que agüenta passar os fins de semana ouvindo free jazz se o negócio dela for samba na veia.
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Aconteceu? Virou Manchete!
Acabo de receber um e-mail de um amigo querido que mora em Israel, o Salomão Azaria, comentando sobre o livro “Os Irmãos Karamabloch”, do Arnaldo Bloch, sobre a ascensão e queda da Manchete e a saga da família do seu fundador Adolfo Bloch. Mas antes de dizer que “pelo que escreveram parece um livro interessante”, Salomão faz a ressalva cuidadosa: "sei que eles ainda devem a você".
Fico agradecida pela delicadeza do amigo, mas devo dizer para o bem da verdade que quem me deve (e apenas dinheiro) é a empresa que ficou com o espólio da antiga emissora. Coisa que raramente me lembro por estar o processo caminhando na lenta justiça trabalhista brasileira. Processo que entreguei a Deus e aos meus advogados; e ponto final. Agora, quanto à Manchete, tenho as melhores lembranças dos anos em que trabalhei lá. Talvez, alguns dos melhores da minha vida.
Para começar, aprendi a escrever com o Justino Martins, grande jornalista e editor-chefe da revista Manchete na qual eu trabalhava como editora de moda. Toda semana, fechávamos juntos as cinco páginas de matéria assinadas por mim. Justino era um gentleman, corrigia meu texto com grande generosidade, dando-me ótimas dicas e incentivando minhas aspirações profissionais.
O ambiente era ótimo nos prédios gêmeos da Editora Bloch. Duas torres de mármore, assinadas por Oscar Niemeyer, de frente para a Baia de Guanabara. Os funcionários tinham livre acesso aos donos da empresa, almoçávamos todos no mesmo restaurante, num espaço deslumbrante, à beira da piscina, em mesas redondas de jacarandá e tampo de carrara, com talheres de prata e bufê do Severino. O mesmo chefe que fazia as festas da família e que supervisionava pessoalmente o serviço dos garçons, os quais, impecáveis, vinham às mesas servir água gelada em pesadas jarras de prata. E Severiano ficava por ali, o tempo todo observando se a refeição estava do nosso agrado.
Da família Bloch em geral, tenho ótimas lembranças. De alguns tenho muitas saudades. A minha maior amiga era a divertidíssima Eveline, filha do Oscar e da Inês, de quem fui madrinha de casamento, numa cerimônia digna da mais autêntica realeza. Eveline já se foi, deixando um cantinho vazio e triste no meu coração. Assim como a irmã dela, Cláudia, de quem eu gostava muito também. De Carlinhos, o irmão, guardo um terno carinho.
Além da casa do Oscar e da Inês, freqüentei o apartamento do Adolfo e da Anna Bentes, no edifício Chopin. Eles me convidavam sempre para jantares em pequenos grupos onde pontificavam mulheres bonitas e homens inteligentes. Algumas dessas noites foram memoráveis.
Já na televisão, me aproximei mais do Jaquito, pois o Adolfo não gostava nem de pisar no quarto andar, onde funcionava o jornalismo da emissora. Diziam que ele dizia que na televisão só tinha ladrão. Mas se para a maioria dos funcionários o sobrinho do dono era uma pessoa complicada, para mim era um camarada. Nossa relação era firmada na base de respeito e consideração. Lembro de ter ido um dia tomar café da manhã na casa dele, no apartamento da Avenida Atlântica. Lá, com a Dóris, sua esposa, e toda a família à mesa, inclusive o pequeno Boris, o caçula, conversamos sobre as dificuldades pelas quais já passava a Manchete, com o atraso dos nossos salários e tudo o mais. Era desta forma que os Bloch tentavam resolver as coisas.
Depois rolou muita água por baixo da ponte. A empresa fechou e eu me mudei para Curitiba. Fui trabalhar na CNT, onde estava feliz, ganhando bem e, exatamente por isso, não quis voltar quando a Manchete reabriu. No mais, guardo a melhor lembrança daqueles anos dourados e dos grandes colegas que me ajudaram a conquistar um enorme sucesso junto ao público e à crítica.
De todos, destaco a generosidade de Ronaldo Rosas, um estupendo apresentador de telejornal e uma das companhias mais agradáveis que tive na vida. Nunca flertamos, mas também, nunca nos estranhamos. Tínhamos a mesma posição político-partidária e nos intervalos das matérias nossas críticas e opiniões eram de uma coincidência impressionante. Acho até que a nossa amizade era alvo de ciúmes dos diretores de jornalismo e alguns colegas de trabalho.
Outro companheiro inestimável foi o Miele. Homem de elegância singular, tem o dom de transformar o trabalho em prazer. Foram dois anos de programa juntos e eu só vi o Miele (que também era o diretor) se zangar com a equipe uma única vez. Em seguida ele foi ao meu camarim se desculpar de algum mau modo que por ventura tivesse feito na minha presença. Ele e sua Anita formam um casal adorável que sempre me encanta rever.
Por tudo isso, só posso agradecer um dia ter conhecido a família Bloch, e desejo um grande sucesso para o livro do Arnaldo, que foi meu colega de redação na TV Manchete e que é hoje, na minha opinião, um dos melhores colunistas da imprensa brasileira.
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Fico agradecida pela delicadeza do amigo, mas devo dizer para o bem da verdade que quem me deve (e apenas dinheiro) é a empresa que ficou com o espólio da antiga emissora. Coisa que raramente me lembro por estar o processo caminhando na lenta justiça trabalhista brasileira. Processo que entreguei a Deus e aos meus advogados; e ponto final. Agora, quanto à Manchete, tenho as melhores lembranças dos anos em que trabalhei lá. Talvez, alguns dos melhores da minha vida.
Para começar, aprendi a escrever com o Justino Martins, grande jornalista e editor-chefe da revista Manchete na qual eu trabalhava como editora de moda. Toda semana, fechávamos juntos as cinco páginas de matéria assinadas por mim. Justino era um gentleman, corrigia meu texto com grande generosidade, dando-me ótimas dicas e incentivando minhas aspirações profissionais.
O ambiente era ótimo nos prédios gêmeos da Editora Bloch. Duas torres de mármore, assinadas por Oscar Niemeyer, de frente para a Baia de Guanabara. Os funcionários tinham livre acesso aos donos da empresa, almoçávamos todos no mesmo restaurante, num espaço deslumbrante, à beira da piscina, em mesas redondas de jacarandá e tampo de carrara, com talheres de prata e bufê do Severino. O mesmo chefe que fazia as festas da família e que supervisionava pessoalmente o serviço dos garçons, os quais, impecáveis, vinham às mesas servir água gelada em pesadas jarras de prata. E Severiano ficava por ali, o tempo todo observando se a refeição estava do nosso agrado.
Da família Bloch em geral, tenho ótimas lembranças. De alguns tenho muitas saudades. A minha maior amiga era a divertidíssima Eveline, filha do Oscar e da Inês, de quem fui madrinha de casamento, numa cerimônia digna da mais autêntica realeza. Eveline já se foi, deixando um cantinho vazio e triste no meu coração. Assim como a irmã dela, Cláudia, de quem eu gostava muito também. De Carlinhos, o irmão, guardo um terno carinho.
Além da casa do Oscar e da Inês, freqüentei o apartamento do Adolfo e da Anna Bentes, no edifício Chopin. Eles me convidavam sempre para jantares em pequenos grupos onde pontificavam mulheres bonitas e homens inteligentes. Algumas dessas noites foram memoráveis.
Já na televisão, me aproximei mais do Jaquito, pois o Adolfo não gostava nem de pisar no quarto andar, onde funcionava o jornalismo da emissora. Diziam que ele dizia que na televisão só tinha ladrão. Mas se para a maioria dos funcionários o sobrinho do dono era uma pessoa complicada, para mim era um camarada. Nossa relação era firmada na base de respeito e consideração. Lembro de ter ido um dia tomar café da manhã na casa dele, no apartamento da Avenida Atlântica. Lá, com a Dóris, sua esposa, e toda a família à mesa, inclusive o pequeno Boris, o caçula, conversamos sobre as dificuldades pelas quais já passava a Manchete, com o atraso dos nossos salários e tudo o mais. Era desta forma que os Bloch tentavam resolver as coisas.
Depois rolou muita água por baixo da ponte. A empresa fechou e eu me mudei para Curitiba. Fui trabalhar na CNT, onde estava feliz, ganhando bem e, exatamente por isso, não quis voltar quando a Manchete reabriu. No mais, guardo a melhor lembrança daqueles anos dourados e dos grandes colegas que me ajudaram a conquistar um enorme sucesso junto ao público e à crítica.
De todos, destaco a generosidade de Ronaldo Rosas, um estupendo apresentador de telejornal e uma das companhias mais agradáveis que tive na vida. Nunca flertamos, mas também, nunca nos estranhamos. Tínhamos a mesma posição político-partidária e nos intervalos das matérias nossas críticas e opiniões eram de uma coincidência impressionante. Acho até que a nossa amizade era alvo de ciúmes dos diretores de jornalismo e alguns colegas de trabalho.
Outro companheiro inestimável foi o Miele. Homem de elegância singular, tem o dom de transformar o trabalho em prazer. Foram dois anos de programa juntos e eu só vi o Miele (que também era o diretor) se zangar com a equipe uma única vez. Em seguida ele foi ao meu camarim se desculpar de algum mau modo que por ventura tivesse feito na minha presença. Ele e sua Anita formam um casal adorável que sempre me encanta rever.
Por tudo isso, só posso agradecer um dia ter conhecido a família Bloch, e desejo um grande sucesso para o livro do Arnaldo, que foi meu colega de redação na TV Manchete e que é hoje, na minha opinião, um dos melhores colunistas da imprensa brasileira.
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Seu João e a eleição americana
Quando na manhã da quarta-feira passada, depois de uma noite acompanhando a evolução das eleições nos Estados Unidos, abri a porta para o entregador do mercado entrar com as minhas compras, pensei: em que a vitória de Barack Obama vai mudar a vida deste homem? Seu João é brasileiro, negro e pobre. Não tem casa própria, não teve educação formal, sabe quando muito escrever o próprio nome, não tem carteira assinada e muito menos dinheiro na bolsa de valores. Que lhe importa se o presidente dos Estados Unidos saberá ou não lidar com uma economia em colapso se seu João vive do trabalho informal e se mantém na esperança de que pior do que está não pode ficar? Quando muito seu João se preocupa com a saúde da família. Aqui, ele votou no candidato que prometeu unidade de atendimento na favela onde mora. Os dois filhos do seu João não precisam mais de creche e a escola pública ele sabe que não vai faltar. Mesmo que eles não aprendam muito vão passar de ano e sempre saberão mais que seu João e a mulher, que lava roupa pra fora e faz diária em casa de família duas vezes por semana. Grandes drogas também para o seu João se o homem que vai governar os Estados Unidos é contra ou a favor do terrorismo. Logo pra ele que tem apenas uma vaga noção de que a torres existem para comandar os aviões e, se houve desastre, decerto foi com essa coisa de aquelas serem gêmeas, que isso sempre dá confusão. Ser contra ou a favor da proliferação nuclear também não diz respeito ao entregador do mercado, pois por mais que se esforce não consegue entender nem pronunciar os dois nomes em seqüência. Às vezes seu João está tão aporrinhado com o pouco dinheiro, a péssima condução, a magreza das crianças e a feiúra da mulher que quer mais é que o mundo se exploda. Seu João acha também que a mudança na política ambiental não lhe diz respeito, pois não dá a mínima se a exploração da indústria madeireira está acabando com a floresta tropical na Indonésia, não se preocupa com o aquecimento global e muito menos se a Monsanto ameaça a segurança alimentar do planeta. Seu João já vive no sufoco para garantir o arroz com feijão na hora da janta, e transgênico para ele é coisa de quem quer virar a mão. Acima de tudo seu João está se lixando para o fim das guerras americanas, pois a única guerra que tem a ver com o seu João é a do tráfico, que vez por outra o impede de chegar em casa depois de duas horas sacolejando num ônibus, ao cabo de um dia inteiro carregando peso e levando bronca do patrão. Além do medo de ver um dia os filhos metidos na bandidagem, de arma na mão.
Enquanto eu via na minha cozinha aquele homem, negro retinto, retirando produtos orgânicos do engradado de plástico verde, pensei em lhe dizer que pela primeira vez na história um casal com a cor da pele igual a dele, com duas crianças da mesma idade das dele, iria morar na Casa Branca, e seria recebida nos mais belos e ricos palácios do mundo, e estaria protegida pelo maior aparato de segurança do planeta, e com isso transformaria para sempre o imaginário universal, seu João levantou a cabeça e me deu o sorriso humilde de sempre. E eu pensei que a melhor coisa que poderia fazer com a minha euforia era caprichar na gorjeta do seu João.
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Publicado no Jornal do Brasil em 9/11/2008
Enquanto eu via na minha cozinha aquele homem, negro retinto, retirando produtos orgânicos do engradado de plástico verde, pensei em lhe dizer que pela primeira vez na história um casal com a cor da pele igual a dele, com duas crianças da mesma idade das dele, iria morar na Casa Branca, e seria recebida nos mais belos e ricos palácios do mundo, e estaria protegida pelo maior aparato de segurança do planeta, e com isso transformaria para sempre o imaginário universal, seu João levantou a cabeça e me deu o sorriso humilde de sempre. E eu pensei que a melhor coisa que poderia fazer com a minha euforia era caprichar na gorjeta do seu João.
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Publicado no Jornal do Brasil em 9/11/2008
Conexões Urbanas
A expressão “visão suburbana” com conotação pejorativa pinçada de uma conversa particular do candidato foi parar nos jornais e o crivo ideológico do politicamente correto vetou qualquer possibilidade de justificativa para o que não tem mesmo conserto. No entanto, pela votação maciça que teve nas regiões mais abastadas, dá para concluir que esse eleitorado tratou com indulgência o velho cacoete de menosprezar o povo que mora “do outro lado” da cidade. Ainda bem que a qualidade do homem público foi avaliada pelo conjunto da obra e não por um momento fortuito de desabafo mal humorado e mal-educado. Pois está certo que a biografia de Fernando Gabeira, entre outras características louváveis da sua campanha, pesou no resultado da eleição mais disputada do Rio de Janeiro.
Mas o soluço de preconceito, amplamente divulgado pela imprensa, e explorado de maneira previsível pela campanha adversária, calou fundo no coração do subúrbio e, na reta final, prejudicou o desempenho do candidato que já não era o do seu coração. E não poderia ser diferente, pois os moradores das regiões que mais sofrem com o abandono do poder público também se ressentem com a má vontade com que costumam ser recebidos na orla da Zona Sul. Via de regra, como aqueles que vão invadir sua praia. Daí para descontar nas urnas o sentimento – geralmente camuflado, mas nesse caso insuflado – de vítimas de segregação foi um pulo.
O flerte com o apartheid social existe mesmo e é realimentado sempre que representantes das comunidades carentes reverenciam modas e modismos das regiões mais abastadas. Um fluxo incrementado pelo poder que têm os formadores de opinião, invariavelmente instalados ali. Por isso, vale investir cada vez mais no refluxo, que ocasionalmente acontece de maneira espontânea, como no caso da música que sai dos guetos e ganha o mercado. Agilizar a troca de informação entre os dois lados do front com o objetivo de transformá-la em via de mão dupla é a tarefa a que se dedica o novo programa de TV originário da vontade de incluir as comunidades de baixa renda e o subúrbio carioca nos roteiros dos grandes eventos da cidade.
Idealizado e apresentado por José Júnior, líder do Afro Reggae, “Conexões Urbanas” foi definido por ele como um braço televisivo do movimento sócio-cultural que quer juntar e fortalecer os movimentos surgidos nas comunidades. Agora, com a divulgação na TV a cabo (todas as segundas-feiras, às 21.45h, no canal Multishow), o AfroReggae dá mais um passo em direção à integração cultural, no Brasil e no mundo, pois o programa ultrapassa as fronteiras nacionais para mostrar iniciativas de transformações sociais bem-sucedidas na América Latina, Europa e Ásia.
A realidade da periferia de regiões tão diferentes mostrada por quem fala do assunto com propriedade – José Junior lidera mais de 70 projetos sociais do Grupo Cultural AfroReggae, no Brasil e no exterior – deve funcionar como antídoto para o preconceito que quase sempre nasce da desconfiança pela falta de conhecimento do outro, do diferente. Além disso, ajuda a entender que pode estar dentro de nós parte do problema que atormenta a todos, e romper com a indiferença é uma das maneiras de começar a resolvê-lo.
Acima de tudo, “Conexões Urbanas” é bom entretenimento. Tem projeto gráfico atraente, assim como roteiros bem construídos e coerentes com a proposta do programa. Apresenta experiências relevantes de resgate da cidadania em ações sociais alternativas, e mostra que o fenômeno da “cidade partida” não é uma exclusividade do Rio de Janeiro, mas um reflexo perverso da desigualdade econômica e social espalhada por todas as regiões do planeta. O conteúdo é valorizado pela qualidade técnica, e há criatividade na captação de imagens dispostas em edição ágil.
Por tudo isso, torço para que “Conexões Urbanas” seja bem-sucedido e lhe desejo vida longa. Só faço uma sugestão para reforçar seu espírito de congraçamento: em vez de escolher um local ícone de uma turminha descolada da Zona Sul, como aconteceu na festa de lançamento do programa, que a próxima data comemorativa seja festejada em uma das inúmeras casas noturnas da Lapa.
Porque o tradicional bairro boêmio está localizado na região central da cidade, onde há transporte coletivo para todos os bairros e outros municípios que formam o Grande Rio. Característica que proporcionou ao lugar se transformar em berço do hip hop carioca; que ali se misturou ao samba, ao reggae e ao rock, conferindo-lhe a legitimidade necessária para representar a conexão simbólica entre as pontas mais afastadas deste nosso sonho feliz de cidade.
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Publicado na Gazeta Mercantil em 7 de novembro de 2008
Mas o soluço de preconceito, amplamente divulgado pela imprensa, e explorado de maneira previsível pela campanha adversária, calou fundo no coração do subúrbio e, na reta final, prejudicou o desempenho do candidato que já não era o do seu coração. E não poderia ser diferente, pois os moradores das regiões que mais sofrem com o abandono do poder público também se ressentem com a má vontade com que costumam ser recebidos na orla da Zona Sul. Via de regra, como aqueles que vão invadir sua praia. Daí para descontar nas urnas o sentimento – geralmente camuflado, mas nesse caso insuflado – de vítimas de segregação foi um pulo.
O flerte com o apartheid social existe mesmo e é realimentado sempre que representantes das comunidades carentes reverenciam modas e modismos das regiões mais abastadas. Um fluxo incrementado pelo poder que têm os formadores de opinião, invariavelmente instalados ali. Por isso, vale investir cada vez mais no refluxo, que ocasionalmente acontece de maneira espontânea, como no caso da música que sai dos guetos e ganha o mercado. Agilizar a troca de informação entre os dois lados do front com o objetivo de transformá-la em via de mão dupla é a tarefa a que se dedica o novo programa de TV originário da vontade de incluir as comunidades de baixa renda e o subúrbio carioca nos roteiros dos grandes eventos da cidade.
Idealizado e apresentado por José Júnior, líder do Afro Reggae, “Conexões Urbanas” foi definido por ele como um braço televisivo do movimento sócio-cultural que quer juntar e fortalecer os movimentos surgidos nas comunidades. Agora, com a divulgação na TV a cabo (todas as segundas-feiras, às 21.45h, no canal Multishow), o AfroReggae dá mais um passo em direção à integração cultural, no Brasil e no mundo, pois o programa ultrapassa as fronteiras nacionais para mostrar iniciativas de transformações sociais bem-sucedidas na América Latina, Europa e Ásia.
A realidade da periferia de regiões tão diferentes mostrada por quem fala do assunto com propriedade – José Junior lidera mais de 70 projetos sociais do Grupo Cultural AfroReggae, no Brasil e no exterior – deve funcionar como antídoto para o preconceito que quase sempre nasce da desconfiança pela falta de conhecimento do outro, do diferente. Além disso, ajuda a entender que pode estar dentro de nós parte do problema que atormenta a todos, e romper com a indiferença é uma das maneiras de começar a resolvê-lo.
Acima de tudo, “Conexões Urbanas” é bom entretenimento. Tem projeto gráfico atraente, assim como roteiros bem construídos e coerentes com a proposta do programa. Apresenta experiências relevantes de resgate da cidadania em ações sociais alternativas, e mostra que o fenômeno da “cidade partida” não é uma exclusividade do Rio de Janeiro, mas um reflexo perverso da desigualdade econômica e social espalhada por todas as regiões do planeta. O conteúdo é valorizado pela qualidade técnica, e há criatividade na captação de imagens dispostas em edição ágil.
Por tudo isso, torço para que “Conexões Urbanas” seja bem-sucedido e lhe desejo vida longa. Só faço uma sugestão para reforçar seu espírito de congraçamento: em vez de escolher um local ícone de uma turminha descolada da Zona Sul, como aconteceu na festa de lançamento do programa, que a próxima data comemorativa seja festejada em uma das inúmeras casas noturnas da Lapa.
Porque o tradicional bairro boêmio está localizado na região central da cidade, onde há transporte coletivo para todos os bairros e outros municípios que formam o Grande Rio. Característica que proporcionou ao lugar se transformar em berço do hip hop carioca; que ali se misturou ao samba, ao reggae e ao rock, conferindo-lhe a legitimidade necessária para representar a conexão simbólica entre as pontas mais afastadas deste nosso sonho feliz de cidade.
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Publicado na Gazeta Mercantil em 7 de novembro de 2008
Eleições e o Santo das Causas Impossíveis
A semana foi de rescaldo. Contaram-se mortos e feridos da campanha derrotada, avaliaram-se erros e acertos dos postulantes, e coube ao vencedor a batata quente de cumprir 86 promessas sob a vigilância acirrada de metade do eleitorado carioca (a vitória foi por menos de 1% dos votos válidos). Encontro-me entre eles e, apesar de desejar que o próximo prefeito faça uma boa gestão, ainda estou lambendo as feridas, de olho nas reportagens e analises do resultado das urnas.
Ontem mesmo soube que, de todos os bairros da Zona Sul, Gabeira foi mais bem votado em Laranjeiras e Cosme Velho (75,82%). Não me surpreendi. Já havia percebido o perfil interessante da gente que mora ali. Desde um ensolarado feriado de primeiro de maio, há alguns anos, pouco depois que me mudei de Santa Teresa para o Flamengo e passei a caminhar diariamente pelo Aterro. Naquele dia, uma quarta-feira, o parque estava mais vazio. Notei também que o público era diferente do que costuma freqüentar o lugar nos finais de semana; em geral pessoas do centro e da Zona Norte da cidade, que vêm em turmas grandes ou famílias numerosas, fazem churrasco, jogam bola e lotam a areia da praia. Estes eram jovens casais de classe média aproveitando, com os filhos pequenos, o amplo espaço gramado e a beleza incomparável do paisagismo de Burle Max.
Fiquei intrigada. Mas logo tive um encontro esclarecedor. Cruzei com um conhecido, a mulher dele e dois filhos pequenos. Ele é dono de um sebo no Centro e me contava, naquela manhã, que costuma ir de bicicleta de Laranjeiras, onde mora, para o trabalho pela mesma ciclovia onde caminhávamos agora. Vários casais passaram por nós. Alguns pararam para conversar. Aproveitei para observar aquela rapaziada com estilo próprio, sem a ostentação e a padronização típicas da Zona Sul. Na atitude segura, no jeito despojado de se vestir, na conversa variada, e na atenção para com o outro, via-se que eram pessoas mais preocupadas em ser do que em ter. Mais interessadas em sentir do que em se exibir. A maioria morava em Laranjeiras. Fiquei encantada.
Dali em diante, aproveitei toda oportunidade que tive para passear pelos bairros dos mais tradicionais do Rio. Fui pesquisar filmes brasileiros na cinemateca das Casas Casadas; vi a exposição de Nássara, no Espaço Cultural Trem do Corcovado; ouvi MPB no Mercado São José; assisti à peça de formatura da turma de teatro da Cal (Casa das Artes de Laranjeiras); tomei cerveja ao luar, na Praça São Salvador; comi feijoada e dancei na roda de samba da Casa Rosa Cultural (antigo prostíbulo da Rua Alice); levei meu amigo francês para conhecer o deslumbrante conjunto arquitetônico colonial do Largo do Boticário... E foram tão bons os programas - todos com algum apelo artístico ou cultural - que me tornei habitué das Laranjeiras.
Tanto que não perdi a bênção de ontem, na igreja de São Judas Tadeu, o santo das causas impossíveis. Foi uma festa popular de toda a cidade. A fila para acender vela na gruta mais visitada do Cosme Velho ia até quase a entrada do túnel Rebouças, mas andava rápido. As pessoas levavam pequenos arranjos de rosas vermelhas com ramos de trigo dourado nas mãos. Ao longo da rua das Laranjeiras havia muitos ambulantes vendendo flores, velas, santinhos, flâmulas, fitas vermelhas e camisetas estampadas com a imagem do santo. Logo na entrada, um funcionário da igreja mergulhava uma brocha em um balde e mandava uma esguichada de água-benta na cara dos fiéis, lá dentro havia missa com preces e cânticos.
Eu assisti à missa em homenagem a São Judas Tadeu. Cantei e rezei pelo Rio de Janeiro. Também levei um banho de água-benta. E pedi ao Santo das Causas Impossíveis que não deixasse Eduardo Paes lotear os cargos da administração pública entre os treze partidos da aliança que o elegeu, não cedesse à pressão do deputado ligado à milícia que o apoiou e, principalmente, não colocasse em 2010 a máquina da prefeitura a serviço da reeleição do governador.
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Ontem mesmo soube que, de todos os bairros da Zona Sul, Gabeira foi mais bem votado em Laranjeiras e Cosme Velho (75,82%). Não me surpreendi. Já havia percebido o perfil interessante da gente que mora ali. Desde um ensolarado feriado de primeiro de maio, há alguns anos, pouco depois que me mudei de Santa Teresa para o Flamengo e passei a caminhar diariamente pelo Aterro. Naquele dia, uma quarta-feira, o parque estava mais vazio. Notei também que o público era diferente do que costuma freqüentar o lugar nos finais de semana; em geral pessoas do centro e da Zona Norte da cidade, que vêm em turmas grandes ou famílias numerosas, fazem churrasco, jogam bola e lotam a areia da praia. Estes eram jovens casais de classe média aproveitando, com os filhos pequenos, o amplo espaço gramado e a beleza incomparável do paisagismo de Burle Max.
Fiquei intrigada. Mas logo tive um encontro esclarecedor. Cruzei com um conhecido, a mulher dele e dois filhos pequenos. Ele é dono de um sebo no Centro e me contava, naquela manhã, que costuma ir de bicicleta de Laranjeiras, onde mora, para o trabalho pela mesma ciclovia onde caminhávamos agora. Vários casais passaram por nós. Alguns pararam para conversar. Aproveitei para observar aquela rapaziada com estilo próprio, sem a ostentação e a padronização típicas da Zona Sul. Na atitude segura, no jeito despojado de se vestir, na conversa variada, e na atenção para com o outro, via-se que eram pessoas mais preocupadas em ser do que em ter. Mais interessadas em sentir do que em se exibir. A maioria morava em Laranjeiras. Fiquei encantada.
Dali em diante, aproveitei toda oportunidade que tive para passear pelos bairros dos mais tradicionais do Rio. Fui pesquisar filmes brasileiros na cinemateca das Casas Casadas; vi a exposição de Nássara, no Espaço Cultural Trem do Corcovado; ouvi MPB no Mercado São José; assisti à peça de formatura da turma de teatro da Cal (Casa das Artes de Laranjeiras); tomei cerveja ao luar, na Praça São Salvador; comi feijoada e dancei na roda de samba da Casa Rosa Cultural (antigo prostíbulo da Rua Alice); levei meu amigo francês para conhecer o deslumbrante conjunto arquitetônico colonial do Largo do Boticário... E foram tão bons os programas - todos com algum apelo artístico ou cultural - que me tornei habitué das Laranjeiras.
Tanto que não perdi a bênção de ontem, na igreja de São Judas Tadeu, o santo das causas impossíveis. Foi uma festa popular de toda a cidade. A fila para acender vela na gruta mais visitada do Cosme Velho ia até quase a entrada do túnel Rebouças, mas andava rápido. As pessoas levavam pequenos arranjos de rosas vermelhas com ramos de trigo dourado nas mãos. Ao longo da rua das Laranjeiras havia muitos ambulantes vendendo flores, velas, santinhos, flâmulas, fitas vermelhas e camisetas estampadas com a imagem do santo. Logo na entrada, um funcionário da igreja mergulhava uma brocha em um balde e mandava uma esguichada de água-benta na cara dos fiéis, lá dentro havia missa com preces e cânticos.
Eu assisti à missa em homenagem a São Judas Tadeu. Cantei e rezei pelo Rio de Janeiro. Também levei um banho de água-benta. E pedi ao Santo das Causas Impossíveis que não deixasse Eduardo Paes lotear os cargos da administração pública entre os treze partidos da aliança que o elegeu, não cedesse à pressão do deputado ligado à milícia que o apoiou e, principalmente, não colocasse em 2010 a máquina da prefeitura a serviço da reeleição do governador.
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Amanhã será outro dia
O Rio não amanheceu cantando, nem os namorados foram pra rua em bando, contrariando a idílica imagem de Braguinha para a primavera na cidade. Ao contrário, desde o fim da tarde de ontem, o lado mais festivo da cidade emudeceu, recolhendo-se em seguida, como se quisesse fazer um ato de contrição. Não por arrependimento de não ter sido mais agressivo na campanha do seu candidato à prefeitura da cidade, que esse foi um dos muitos pontos pacíficos entre os eleitores de Fernando Gabeira.
É mais fácil acreditar que os cariocas dos bairros que formam a região do Centro, Zona Norte e Zona Sul estavam concentrados na reflexão sobre o grade passo que foi dado em direção a uma política maior, mais comprometida com valores como fraternidade e respeito às diferenças do que com preconceito e promessas difíceis de cumprir. Talvez porque menos carente do básico, esse eleitorado pode almejar padrões mais elevados de honestidade e probidade administrativa.
A fim de dirimir minhas dúvidas, fui logo cedo dar uma volta no bairro para os afazeres que costumo deixar para as tardes, mais frescas. Queria colher uma mostra do sentimento das ruas e para tanto conversei com a dona da tinturaria, a mãe do sapateiro, a caixa do supermercado e o farmacêutico da esquina. Outros fregueses ao redor também entraram no assunto, o que me fez estender a saída da costumeira meia hora para mais de uma hora e meia.
Valeu, pois de tudo o que foi dito, percebi que maior do que o desapontamento de ter perdido por tão pouco há, pelo menos entre os moradores do Flamengo, a certeza de terem plantado uma semente de mudança no jeito de fazer política na cidade. E como o Rio é caixa de ressonância, ficou a confiança de que o novo paradigma poderá ser replicado nos pleitos futuros em todo o Brasil.
E mais, que triste mesmo ficaria o eleitor se apreendessem no comitê de Gabeira 90 mil panfletos de propaganda negativa contra seu adversário, como foi divulgado nos jornais de hoje. Ou se assistisse no YouTube a um vídeo do seu candidato defendendo a atuação das milícias, como no caso de “Dudu Duas Caras e as Milícias”, no endereço:
http://www.youtube.com/watch?v=qEhHo8wkoq0
E por tudo isso, pude concluir que, se o carioca dormiu desenxabido, acordou mais confiante de que amanhã será outro dia.
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É mais fácil acreditar que os cariocas dos bairros que formam a região do Centro, Zona Norte e Zona Sul estavam concentrados na reflexão sobre o grade passo que foi dado em direção a uma política maior, mais comprometida com valores como fraternidade e respeito às diferenças do que com preconceito e promessas difíceis de cumprir. Talvez porque menos carente do básico, esse eleitorado pode almejar padrões mais elevados de honestidade e probidade administrativa.
A fim de dirimir minhas dúvidas, fui logo cedo dar uma volta no bairro para os afazeres que costumo deixar para as tardes, mais frescas. Queria colher uma mostra do sentimento das ruas e para tanto conversei com a dona da tinturaria, a mãe do sapateiro, a caixa do supermercado e o farmacêutico da esquina. Outros fregueses ao redor também entraram no assunto, o que me fez estender a saída da costumeira meia hora para mais de uma hora e meia.
Valeu, pois de tudo o que foi dito, percebi que maior do que o desapontamento de ter perdido por tão pouco há, pelo menos entre os moradores do Flamengo, a certeza de terem plantado uma semente de mudança no jeito de fazer política na cidade. E como o Rio é caixa de ressonância, ficou a confiança de que o novo paradigma poderá ser replicado nos pleitos futuros em todo o Brasil.
E mais, que triste mesmo ficaria o eleitor se apreendessem no comitê de Gabeira 90 mil panfletos de propaganda negativa contra seu adversário, como foi divulgado nos jornais de hoje. Ou se assistisse no YouTube a um vídeo do seu candidato defendendo a atuação das milícias, como no caso de “Dudu Duas Caras e as Milícias”, no endereço:
http://www.youtube.com/watch?v=qEhHo8wkoq0
E por tudo isso, pude concluir que, se o carioca dormiu desenxabido, acordou mais confiante de que amanhã será outro dia.
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Samba da vitória
Minha primeira lição na faculdade de comunicação foi em tom de anedota. O professor de jornalismo, Nilson Lage, contou-nos, já na aula inaugural, a história do editor de um jornal que encomenda ao repórter uma matéria sobre Jesus Cristo. Ao que o subordinado, após ajuizada aquiescência, pergunta: contra ou a favor?
Assim, aprendia-se, ao entrar na faculdade, que um jornalista deve desenvolver a versatilidade verbal e treinar malabarismos retóricos para se firmar na profissão até, quem sabe?, conquistar seu espaço próprio de opinião. No livro “O Anjo Pornográfico”, biografia de Nelson Rodrigues por Rui Castro, o autor conta que, por algum tempo, Otto Lara Resende foi o editorialista de dois jornais com posições antagônicas, sendo um matutino e outro vespertino. Profissional competentíssimo, Lara conseguia a proeza de, pela manhã, escrever um editorial apoiando determinada idéia ou posição que, à tarde, derrubava sem piedade.
Esta época de eleições é pródiga em artigos que investem na habilidade do proselitismo político. E até quem não se especializou em nessa área aproveita a onda para dar suas cacetadas. Afinal, o assunto é o mais veiculado em todos os espaços de comunicação; do jornal impresso às conversas na praia e nas mesas de bar, passando pela internet e até pelo telefone celular. Então, é quase que obrigatório falar no assunto e, dependendo do acirramento da disputa, sente-se também obrigado o colunista a tomar partido, qualquer que seja a posição do (seu) jornal.
Com uma coluna recente no Jornal do Brasil e na Gazeta Mercantil, senti-me de certa forma compungida a expressar opinião a respeito da disputa pela prefeitura do Rio. Porém, optei por abordar o assunto de forma indireta, tratando de coisas como a identidade carioca, a segurança e a qualidade de vida na cidade, a relação da violência com a educação e exemplos de iniciativas bem sucedidas em âmbito municipal em outras partes do mundo. Porque credito acima de tudo na prática da reflexão, que resulta em mobilização para as transformações sociais.
Porém, ainda ontem, num jantar na casa de amigos, fui cobrada por não ter declarado meu voto nem ter escrito sobre o porquê da minha decisão. Então, antes tarde do que nunca. Aproveito o imediatismo da internet para dizer em alto e bom som que Vou De GABEIRA PARA PREFEITO DO RIO DE JANEIRO, esta cidade maravilhosa que, apesar de tanto desmando, continua abençoada por Deus e bonita por natureza. E para não ficar devendo explicações, passo à lista das vantagens do meu candidato. O que significa, nessa altura do campeonato, uma compilação de tudo o que o seu adversário não tem.
Gabeira não cogita armar a Guarda Municipal. Gabeira não vai lotear as secretarias municipais entre uma miríade de partidos políticos com programas e posições ideológicas antagônicas. Gabeira já declarou que seu secretariado será escolhido por critério meritório entre técnicos e especialistas com nível de excelência em suas áreas de atuação. Gabeira não aceitou o apoio de representantes do caciquismo populista mais atrasado do nosso estado. Gabeira faz uma campanha limpa em todos os sentidos. Gabeira não apela para falsos valores éticos como a exaltação da família nuclear que redunda em preconceito contra outras opções de vida. Gabeira é a favor da reforma da polícia, como primeiro passo para resolver o problema da violência na cidade. Gabeira não se opõe a discussão sobre a legalização da maconha. Gabeira mostrou coerência ao longo de toda a sua vida política e representa a restauração da credibilidade nos políticos. E se isso não bastasse, Gabeira ainda revela a essência de sua formação progressista quando diz que se preparou a vida inteira para a vida inteira.
Portanto, no próximo domingo, vou vestir uma camiseta verde e votar no número 43. E assim que sair a pesquisa de boca-de-urna, zarpo para o território livre da Lapa, que não é Zona Norte, nem Subúrbio, muito menos Zona Sul, mas o lugar onde a cidade diuturnamente se encontra para comemorar com samba a vitória do Rio de Janeiro.
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Assim, aprendia-se, ao entrar na faculdade, que um jornalista deve desenvolver a versatilidade verbal e treinar malabarismos retóricos para se firmar na profissão até, quem sabe?, conquistar seu espaço próprio de opinião. No livro “O Anjo Pornográfico”, biografia de Nelson Rodrigues por Rui Castro, o autor conta que, por algum tempo, Otto Lara Resende foi o editorialista de dois jornais com posições antagônicas, sendo um matutino e outro vespertino. Profissional competentíssimo, Lara conseguia a proeza de, pela manhã, escrever um editorial apoiando determinada idéia ou posição que, à tarde, derrubava sem piedade.
Esta época de eleições é pródiga em artigos que investem na habilidade do proselitismo político. E até quem não se especializou em nessa área aproveita a onda para dar suas cacetadas. Afinal, o assunto é o mais veiculado em todos os espaços de comunicação; do jornal impresso às conversas na praia e nas mesas de bar, passando pela internet e até pelo telefone celular. Então, é quase que obrigatório falar no assunto e, dependendo do acirramento da disputa, sente-se também obrigado o colunista a tomar partido, qualquer que seja a posição do (seu) jornal.
Com uma coluna recente no Jornal do Brasil e na Gazeta Mercantil, senti-me de certa forma compungida a expressar opinião a respeito da disputa pela prefeitura do Rio. Porém, optei por abordar o assunto de forma indireta, tratando de coisas como a identidade carioca, a segurança e a qualidade de vida na cidade, a relação da violência com a educação e exemplos de iniciativas bem sucedidas em âmbito municipal em outras partes do mundo. Porque credito acima de tudo na prática da reflexão, que resulta em mobilização para as transformações sociais.
Porém, ainda ontem, num jantar na casa de amigos, fui cobrada por não ter declarado meu voto nem ter escrito sobre o porquê da minha decisão. Então, antes tarde do que nunca. Aproveito o imediatismo da internet para dizer em alto e bom som que Vou De GABEIRA PARA PREFEITO DO RIO DE JANEIRO, esta cidade maravilhosa que, apesar de tanto desmando, continua abençoada por Deus e bonita por natureza. E para não ficar devendo explicações, passo à lista das vantagens do meu candidato. O que significa, nessa altura do campeonato, uma compilação de tudo o que o seu adversário não tem.
Gabeira não cogita armar a Guarda Municipal. Gabeira não vai lotear as secretarias municipais entre uma miríade de partidos políticos com programas e posições ideológicas antagônicas. Gabeira já declarou que seu secretariado será escolhido por critério meritório entre técnicos e especialistas com nível de excelência em suas áreas de atuação. Gabeira não aceitou o apoio de representantes do caciquismo populista mais atrasado do nosso estado. Gabeira faz uma campanha limpa em todos os sentidos. Gabeira não apela para falsos valores éticos como a exaltação da família nuclear que redunda em preconceito contra outras opções de vida. Gabeira é a favor da reforma da polícia, como primeiro passo para resolver o problema da violência na cidade. Gabeira não se opõe a discussão sobre a legalização da maconha. Gabeira mostrou coerência ao longo de toda a sua vida política e representa a restauração da credibilidade nos políticos. E se isso não bastasse, Gabeira ainda revela a essência de sua formação progressista quando diz que se preparou a vida inteira para a vida inteira.
Portanto, no próximo domingo, vou vestir uma camiseta verde e votar no número 43. E assim que sair a pesquisa de boca-de-urna, zarpo para o território livre da Lapa, que não é Zona Norte, nem Subúrbio, muito menos Zona Sul, mas o lugar onde a cidade diuturnamente se encontra para comemorar com samba a vitória do Rio de Janeiro.
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